O advogado Marcos Roberto Cebola e Silva, que representava uma acusada de integrar o PCC, é investigado por uma declaração interpretada como ameaça de morte pelo juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3ª Vara de Presidente Venceslau, em São Paulo.
O caso voltou a repercutir nesta quarta-feira 26, após o SBT News divulgar o vídeo da audiência. As imagens registram a conversa que levou o magistrado a relatar o episódio à Polícia Civil.

A audiência ocorreu em 16 de outubro de 2025. Cebola representava Ketheleen Camila Sousa Lemos, uma das acusadas de integrar setores do Primeiro Comando da Capital, o PCC, e pediu que os réus respondessem ao processo em liberdade.
Cebola citou delegado executado pelo PCC
Durante a audiência, o advogado mencionou Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, executado a tiros cerca de um mês antes. Ruy era conhecido pela atuação no enfrentamento ao PCC.
De acordo com o relato apresentado pelo juiz à Polícia Civil, Cebola citou uma declaração atribuída ao ex-delegado sobre uma suposta “ética” existente no mundo do crime.
Deyvison afirmou ter recebido a referência com surpresa porque o assassinato de Ruy não tinha relação com o processo analisado naquela audiência.
Para o magistrado, houve uma “alusão deliberada à trajetória e ao destino de um delegado morto pela facção criminosa investigada”.
Juiz questionou fala sobre morte
No encerramento da audiência, Cebola voltou a defender a revogação das prisões preventivas. Após o juiz afirmar que analisaria os pedidos conforme a lei, o advogado disse temer que Deyvison não “adentrasse ao Elísio”.
O magistrado perguntou se a declaração seria uma ameaça. Cebola respondeu que Elísio significava paraíso e acrescentou que todas as pessoas morreriam um dia.
Segundo o juiz, a referência a Ruy Ferraz e as declarações posteriores fizeram parte de uma tentativa de intimidação para pressioná-lo a libertar os acusados.
Advogado nega ameaça
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado solicitou a abertura de um inquérito para apurar uma possível coação no curso do processo. A Polícia Civil passou a investigar formalmente o advogado e ouviu o magistrado.
O crime de coação no curso do processo está previsto no artigo 344 do Código Penal. A norma alcança o uso de violência ou grave ameaça contra autoridades, partes ou outras pessoas que atuem em processos judiciais, policiais ou administrativos, com o objetivo de favorecer interesse próprio ou de terceiros. A abertura do inquérito não representa denúncia nem condenação.
Em depoimento, Cebola negou qualquer tentativa de intimidação. Ele afirmou que as declarações tinham sentido espiritual e faziam parte de sua atuação profissional durante a audiência.
A cliente representada pelo advogado havia concedido procuração a ele em março de 2025. Um ano depois, ela revogou os poderes e constituiu uma nova defensora.