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Taxa

TLP recorde encarece crédito produtivo

Parcela fixa da taxa chegou a 8,21% em agosto e aumenta o custo de projetos de expansão, modernização e infraestrutura
Por O Correio de Hoje
06/08/2026 | 13:50

A Taxa de Longo Prazo (TLP), principal referência para uma parcela dos financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ultrapassou pela primeira vez a marca de 8% ao ano acima da inflação. A parcela fixa chegou a 8,21% em agosto, ante 7,98% em julho, elevando o custo do crédito destinado a projetos de ampliação, modernização e abertura de negócios.

O aumento acompanha a elevação dos juros pagos pelas Notas do Tesouro Nacional Série B, as NTN-Bs, títulos públicos corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Como os papéis com prazo de cinco anos participam da formação da TLP, a piora nas condições de financiamento do Tesouro é transferida ao custo dos empréstimos de longo prazo oferecidos pelo banco.

TLP alcança 8,21% acima da inflação e aumenta o custo dos financiamentos do BNDES para empresas e projetos de longo prazo
Parcela fixa dos financiamentos do BNDES alcançou 8,21% ao ano em agosto, mesmo com a inflação em queda Foto: Divulgação / BNDS

A taxa real permaneceu acima de 7,7% durante todos os meses de 2026. Segundo o histórico publicado pelo BNDES, a parcela fixa estava em 7,73% em maio, subiu para 7,80% em junho e avançou para 7,98% em julho, antes de alcançar 8,21% nos contratos assinados em agosto.

O patamar encarece o financiamento em um momento no qual as empresas convivem com juros elevados também no sistema bancário. Como projetos industriais e de infraestrutura costumam exigir valores elevados e prazos longos de pagamento, pequenas alterações nas taxas podem provocar aumento no custo total e reduzir o retorno previsto pelos investidores. Procurado, o BNDES não comentou os efeitos da elevação da TLP sobre a demanda por crédito.

Taxa acompanha títulos do Tesouro

A TLP é composta por uma parcela real prefixada e pela variação do IPCA. A taxa fixa é definida no momento da contratação e permanece durante o financiamento, enquanto a inflação é atualizada ao longo do contrato e incorporada ao saldo devedor conforme a periodicidade prevista.

Isso significa que os 8,21% não correspondem ao custo final do empréstimo. Sobre essa base ainda incidem a inflação, a remuneração do BNDES, a taxa de risco de crédito e, nas operações indiretas, a remuneração cobrada pelo banco repassador.

O próprio BNDES explica que a taxa final reúne a TLP, os spreads da instituição e do agente financeiro credenciado e a avaliação de risco. Nas operações diretas, o custo financeiro é acrescido da remuneração do banco e da taxa associada ao risco assumido.

Em um cenário hipotético de inflação de 4% ao ano, uma TLP com parcela fixa de 8,21% já representaria custo superior a 12% antes da adição dos demais encargos. O valor efetivo dependerá do IPCA registrado durante o contrato, do perfil do cliente, da modalidade contratada e da participação ou não de outra instituição financeira.

A TLP não deve ser comparada diretamente à Selic, conforme ressalta o banco. A taxa básica é definida para operações de um dia e pode variar ao longo do financiamento, enquanto a parcela real da TLP é fixada para todo o contrato. A referência mais próxima são os juros reais dos títulos públicos com prazos semelhantes aos dos empréstimos.

A transmissão das condições do mercado de dívida pública ao crédito do BNDES ocorre justamente por meio das NTN-Bs. Quando os investidores exigem remuneração maior para comprar os papéis do governo, a taxa usada para formar o custo dos financiamentos também sobe.

Desde meados de 2024, as NTN-Bs vêm operando com taxas reais elevadas. Os papéis de cinco a dez anos passaram de níveis próximos de 6% acima da inflação, já considerados altos para operações de longo prazo, para juros superiores a 8%.

A elevação reflete uma combinação de incertezas sobre as contas públicas, juros básicos mantidos em patamar restritivo e volatilidade nos mercados internacionais. O cenário externo tornou-se mais instável após o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, com mudanças comerciais e fiscais que afetaram as taxas dos títulos americanos e os mercados de outros países.

Risco fiscal aumenta prêmio exigido

Luis Felipe Vital, economista da Warren Investimentos e ex-coordenador-geral da dívida pública do Tesouro Nacional, aponta a trajetória do endividamento federal como um dos principais fatores para a abertura das taxas. “Com o endividamento crescendo, os investidores exigem taxas mais altas para financiar o Tesouro, em especial nos papéis que resultam em melhora no perfil da dívida”, afirmou.

As NTN-Bs ajudam a ampliar o prazo médio da dívida federal porque possuem vencimentos mais longos. Para atrair compradores para esses papéis, porém, o Tesouro precisa oferecer remuneração compatível com o risco percebido pelos investidores e com as alternativas disponíveis no mercado.

A concorrência com títulos privados incentivados também pressiona a procura pelas NTN-Bs. Debêntures de infraestrutura, certificados de recebíveis e outros papéis isentos de Imposto de Renda para pessoas físicas podem oferecer rendimentos líquidos maiores, desviando parte dos recursos que tradicionalmente seriam destinados aos títulos públicos indexados à inflação.

“Soma-se a isso o componente dos papéis incentivados, isentos de IR, que tiveram fluxo significativo de emissões nos últimos anos e que pressionam os títulos do Tesouro indexados à inflação. A indústria de fundos, em especial os multimercados, que tradicionalmente montam posições em NTN-B, vem encolhendo nos últimos anos”, acrescentou Vital.

O recuo dos fundos multimercados reduz uma fonte tradicional de demanda pelos títulos. Com menos compradores e maior volume de dívida a ser financiado, o Tesouro precisa aceitar taxas mais altas nas emissões ou diminuir a oferta de determinados papéis.

Diante da instabilidade, o Tesouro Nacional realizou uma operação de recompra de títulos para retirar papéis do mercado e dar liquidez aos investidores. A medida proporcionou alívio temporário, mas os juros exigidos voltaram a subir nos últimos dois meses.

Empresas reavaliam investimentos

Para as empresas, o efeito ocorre na análise financeira dos projetos. Quando o custo do financiamento aumenta, investimentos que seriam viáveis com juros menores podem deixar de atingir a rentabilidade exigida. Companhias também podem reduzir o valor solicitado, adiar planos ou recorrer ao mercado de capitais.

O impacto tende a ser maior em projetos com prazo longo para começar a gerar receita, como fábricas, rodovias, ferrovias, saneamento, energia e aquisição de máquinas. Nesses casos, o financiamento costuma ser pago durante vários anos, ampliando o peso da taxa sobre o custo total.

Apesar dos juros elevados, o BNDES vem mantendo expansão nas aprovações e nos desembolsos. O movimento é sustentado por maior atuação do banco e pela diversificação das fontes e indexadores utilizados. Além da TLP, a instituição oferece operações vinculadas à Selic, a taxas fixas, a índices de inflação e a recursos de programas governamentais.

Para micro, pequenas e médias empresas, o banco também disponibiliza a Taxa Fixa do BNDES, que protege o contratante das variações de mercado durante o contrato. A disponibilidade e as condições, contudo, dependem do produto financeiro e do enquadramento do tomador.

As operações vinculadas à TLP ainda representam a maior parcela do estoque do banco, oscilando entre 60% e 70%, conforme o período. Por isso, a manutenção da taxa real acima de 8% pode limitar a capacidade do BNDES de oferecer crédito mais barato do que o encontrado no mercado bancário.