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Dívidas

Crédito caro amplia pressão sobre indústria

Conclusão faz parte de uma consulta empresarial divulgada pela Confederação Nacional da Indústria
Redação
05/08/2026 | 05:07

Quase quatro em cada dez empresas industriais brasileiras esperam aumentar o endividamento bancário nos próximos três meses, em um cenário marcado pela necessidade de financiar despesas correntes, perda de rentabilidade e percepção de que o custo dos empréstimos permanecerá elevado. A conclusão faz parte de uma consulta empresarial divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Segundo o levantamento, 39% das empresas projetam crescimento da dívida com bancos no curto prazo. A expectativa ocorre mesmo depois de três reduções consecutivas da taxa básica de juros em 2026. Antes da nova reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), iniciada nesta terça-feira 4, a Selic estava em 14,25% ao ano, ainda em nível considerado restritivo para a atividade econômica.

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Pesquisa da CNI aponta que 39% das empresas projetam elevação de dívidas - Foto: Arquivo/CNI

“Mesmo depois dos três cortes de juros que tivemos em 2026, a taxa Selic continua muito alta e isso tem consequências negativas sobre a atividade industrial”, afirmou Maria Virginia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI. De acordo com ela, os resultados indicam maior pressão financeira nos próximos meses. “Nesse cenário, os empresários esperam não só aumentar a tomada de crédito, mas fazer isso a um custo ainda mais alto”, acrescentou.

A Selic é a principal referência para o custo do dinheiro no país e influencia as taxas de empréstimos e financiamentos cobradas de consumidores e empresas. A redução da taxa básica, contudo, não chega imediatamente às operações bancárias, que também incorporam fatores como risco de inadimplência, prazo, garantias, tributos e margem das instituições financeiras. A necessidade de financiar o funcionamento cotidiano das fábricas é o principal motivo para a procura por crédito. Mais da metade das empresas consultadas, ou 53%, prevê ampliar a contratação de recursos para pagar fornecedores, salários, impostos e outras despesas operacionais.

Esse tipo de financiamento funciona como capital de giro e permite que a empresa mantenha suas atividades quando há diferença entre o prazo de recebimento das vendas e o vencimento das obrigações. Entre os industriais ouvidos, 38% acreditam que os juros dessas operações deverão subir nos próximos três meses.

A pressão também aparece no financiamento das contas a receber. Nesse caso, a indústria antecipa recursos de vendas realizadas a prazo para obter dinheiro imediato. Segundo a CNI, 47% das empresas pretendem intensificar a contratação dessa modalidade, enquanto 42% esperam pagar taxas maiores.

A dependência de crédito para administrar estoques também deverá crescer. Entre as empresas consultadas, 42% projetam aumentar os empréstimos destinados à compra de matérias-primas, à produção ou à manutenção de mercadorias armazenadas. Apenas 13% esperam reduzir essa necessidade.

Para o gerente de Política Econômica da CNI, Kleber de Castro, a percepção dos empresários é compatível com uma política monetária que permanece contracionista, apesar do início do ciclo de redução da Selic.

“A percepção empresarial de custos financeiros elevados e viés de alta nos juros das operações de crédito é consistente com o ciclo de política monetária em curso: o ritmo de flexibilização é gradual, a taxa de juros real ex-ante segue próxima a dois dígitos e a transmissão da política monetária ao custo do crédito produtivo opera com defasagens que limitam qualquer alívio dentro do horizonte de três meses coberto pela consulta”, afirmou.