Ainda criança, em Caicó, Ariell Guerra já ocupava um lugar conhecido entre colegas de escola: era a menina que desenhava. O interesse pela arte surgiu cedo, mas demorou a ser compreendido como uma possibilidade de carreira. Foi apenas durante a graduação em Arquitetura que a artista visual potiguar encontrou o caminho que a levaria à pintura e, mais tarde, aos murais e às artes digitais.
Hoje, Ariell reúne em sua produção telas, intervenções urbanas e ilustrações digitais, em uma linguagem que transita entre o figurativo e o abstrato. As obras carregam referências da cultura nordestina, da memória afetiva e de experiências pessoais, mas deixam espaço para que cada observador construa a própria interpretação.

“Desde a infância eu tinha vontade de trabalhar com arte, mas eu não entendia que poderia ser um trabalho em si, uma fonte de renda, porque a gente era meio distante da arte como profissão”, conta. A escolha pela Arquitetura surgiu justamente pela proximidade com a criação artística. “Dentro da arquitetura que eu me encontrei nesse caminho de trabalhar diretamente com arte.”
Embora trabalhe com diferentes suportes, Ariell define sua produção como um figurativo que dialoga com a abstração. As figuras presentes em suas pinturas são reconhecíveis, mas não aparecem de forma literal, permitindo diferentes leituras. “Eu ilustro o que eu quero, mas eu não coloco de forma tão literal. Então o observador pode ter ideias diferentes do que está lá na tela, no mural ou na arte digital.”
Essa liberdade também está presente nos personagens que cria. Muitos deles apresentam traços andróginos, escolha que nasceu de reflexões sobre a própria infância. A artista relembra que cresceu ouvindo que muitos dos interesses que tinha eram considerados “coisas de menino”. A experiência acabou influenciando sua produção.
“Os personagens foram ganhando essas formas andróginas para justamente o personagem ter essa liberdade de ser quem ele quiser. Eu estou representando pessoas, humanos, e não um homem e uma mulher. Não tem caixinha nenhuma que caiba dentro desses personagens.”
A relação com as cores é um dos elementos mais marcantes da obra de Ariell. Ela atribui parte dessa identidade à vivência no Rio Grande do Norte e no Nordeste, onde afirma encontrar contrastes e tonalidades presentes no cotidiano.

A experiência de expor no exterior também ampliou sua percepção cromática. Durante uma viagem à Áustria, a artista diz ter observado diferenças na incidência da luz e na maneira como determinadas cores aparecem na paisagem.
“Quando a gente viaja e conhece culturas diferentes, locais em que o sol bate diferente, as cores são outras, os contrastes são outros. Isso impactou muito a minha forma de mexer com a cor também.”
Para ela, cada deslocamento amplia o repertório visual e interfere diretamente no processo criativo. “Quanto mais a gente conhece e vivencia a experiência, mais isso influencia na obra que a gente cria.”
Embora tenha reconhecimento pelos murais que produz em espaços públicos, Ariell admite que a pintura em tela continua sendo sua forma favorita de criação. Ela explica que os murais transformam os ambientes e aproximam a arte das pessoas, mas exigem esforço físico intenso. Por conviver com doenças autoimunes, precisou reduzir esse tipo de trabalho.
“O mural muda a dinâmica do espaço, muda a dinâmica entre as pessoas. Acho o mural incrível por isso. Mas ele é muito cansativo.” Já a pintura em tela representa um momento mais íntimo. “A pessoa viaja muito pintando. Você está dentro do ateliê. É um espaço mais seguro. Eu me divirto muito fazendo.” Além das técnicas tradicionais, Ariell também trabalha com artes digitais, motivo pelo qual prefere ser apresentada como artista visual.
Entre as principais referências da artista estão nomes como o argentino naturalizado brasileiro Carybé, conhecido pela atuação em diferentes linguagens artísticas, e o muralista Rogério Pedro. Ela também cita Marc Chagall e David Hockney como inspirações pelo uso das cores e pela liberdade criativa.
Na música, o processo de criação costuma acontecer ao som de artistas como Maria Bethânia e da potiguar Juliana Linhares. “Sempre escuto música pintando.”
Para Ariell, uma das maiores dificuldades da carreira não está na criação, mas na necessidade de administrar o próprio trabalho. Ela afirma que, no início da trajetória, enfrentou resistência de clientes ao apresentar contratos para formalizar encomendas. “As pessoas querem muito rebaixar o que você faz para você não conseguir cobrar.”
Segundo a artista, reconhecer o valor da produção artística passa por compreender que uma obra envolve custos de materiais, aluguel de ateliê, estudo e anos de formação. “Não é sentar e vou desenhar aqui e vai sair. É um trabalho que tem anos e anos sendo desenvolvido e ele precisa ser respeitado como tal.”
Ela também defende que cada obra mantenha sua identidade e finalidade originais, evitando reproduções indiscriminadas. “Tudo que sai do ateliê é uma obra de arte. Eu dou muito respeito ao que faço e não quero que o que faço seja desmembrado.
Apesar de viajar frequentemente para projetos em diferentes estados e países, Ariell mantém base em Natal. Entre os planos para o futuro está ampliar a presença de seu trabalho fora do Rio Grande do Norte, sem perder a conexão com a formação potiguar.
Outro objetivo é continuar aproximando crianças da produção artística brasileira. “Tem muita escola pública e particular que pega o trabalho como base para criança trabalhar. Isso me enche o peito de alegria.”
“Quero continuar fazendo isso para que seja motivo de inspiração para a criança ver: ‘tem artista brasileiro, posso trabalhar com isso aqui também. Isso aqui está ao meu alcance”. Nas redes sociais, Ariell também compartilha parte desse contato com o público. Em uma das publicações, mostrou uma atividade desenvolvida por alunos de uma escola, que produziram releituras de suas obras.
Cada criança criou uma versão inspirada em seu trabalho e escreveu um pequeno texto explicando a produção, reunidos em uma instalação apresentada durante uma performance. A artista classificou a experiência como uma das visitas mais marcantes que já realizou e costuma dividir com os seguidores momentos do processo criativo, da produção das obras e de encontros como esse, que aproxima seu trabalho de novos públicos.