Ao completar 80 anos nesta segunda-feira, João Bosco escolheu olhar para a própria história a partir dos encontros que mudaram sua vida. O cantor, compositor e violonista mineiro afirma que sua carreira foi moldada por acontecimentos que poderiam facilmente não ter ocorrido. Da decisão de deixar a cidade natal para estudar em Ouro Preto ao encontro que o aproximou do letrista Aldir Blanc, Bosco vê sua trajetória como resultado de circunstâncias que acabaram definindo um dos repertórios mais importantes da música popular brasileira.
“É como os ‘Quatro quartetos’ do (poeta) T.S. Eliot. O que poderia ter sido e o que foi desaguam no mesmo tempo presente. O que foi é o que interessa. O resto é especulação”, reflete Bosco. “A vida são vários momentos. Tem o momento da prorrogação, que é quando você consegue entender muita coisa que não entendia antes. Com 80 anos, o que eu posso dizer é isso.”

As comemorações começam em 31 de julho, com o lançamento do EP “Amigos novos e antigos – Parte 1”, composto por seis faixas. O álbum completo será lançado em 25 de setembro e, poucos dias depois, em 2 de outubro, o artista inicia uma nova turnê nacional, com estreia marcada para o Qualistage, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
No EP, João Bosco interpreta sozinho “Boca de sapo” e divide as demais canções com convidados de diferentes gerações. Participam do projeto Zeca Pagodinho, em “Siri recheado e o cacete”; Mart’nália, em “Kid Cavaquinho”; Tiago Iorc, em “Perfeição”; Cesar Camargo Mariano, em “Casa de marimbondo”; e Hamilton de Holanda, em “Nação”.
Embora o novo trabalho reúna composições que não são exclusivamente fruto da parceria com Aldir Blanc, Bosco afirma que o projeto também funciona como homenagem ao principal parceiro de sua carreira, que completaria 80 anos em 2 de setembro. Aldir morreu em 4 de maio de 2020, vítima da Covid-19.
“Sinto muita falta dele em tudo”, resume Bosco. “Comecei a sentir falta dos telefonemas diários e dos e-mails quase diários. Perguntava coisas para ele, questões pessoais, existenciais. Descobri que era o cara que falava comigo. Depois eu fiquei sem.”
Mesmo após a morte do letrista, novas lembranças continuam surgindo. Recentemente, Mary Sá Freire, viúva de Aldir Blanc, encontrou um poema dedicado ao compositor mineiro e resolveu enviá-lo. Intitulado “Vaga-lume”, o texto fazia referência às dificuldades de João Bosco para dormir.
Outra homenagem acabou se transformando em música. Em 2024, o compositor colocou melodia em uma letra que Aldir aparentemente havia separado para ele, intitulada “E aí?”.
“Fiz para um Aldir que não estava mais aqui. Musiquei de forma diferente, pensando nele, no que ele gostava. Fiz tentando agradar ao Aldir onde ele estivesse. Queria dar um abraço e dizer o quanto eu sentia a ausência dele”, conta.
Mesmo sem compor com a mesma frequência nos últimos anos, os dois ainda planejavam desenvolver juntos um samba-enredo sobre o Cais do Valongo, no Centro do Rio de Janeiro, local de desembarque de africanos escravizados durante o século XIX.
Natural de uma família com dez irmãos, João Bosco cresceu cercado pela música. O principal objeto da sala de casa era uma vitrola com rádio, enquanto duas irmãs mais velhas ampliavam seu repertório ao comprar discos de diferentes estilos. Pelas emissoras de rádio, especialmente a Nacional, encantou-se com grandes intérpretes, entre elas Angela Maria.
O primeiro violão chegou quando ele tinha cerca de dez anos. Presente dado por uma das irmãs, pianista, o instrumento de tampo verde marcou o início de uma formação essencialmente autodidata. Sem professores, Bosco desenvolveu a técnica ouvindo discos e observando músicos da cidade, especialmente o violonista Gutinha.
Após concluir o antigo ginásio, mudou-se para Ouro Preto para continuar os estudos. A chegada à cidade histórica permanece viva em sua memória.
“Fiquei parado olhando aquilo. Era um mundo novo para mim. Aquela arquitetura… Senti uma vibração interna que eu não consigo explicar. No candomblé se diria que senti um vento sagrado.”
Foi em Ouro Preto que ampliou definitivamente suas referências musicais. Passou a ouvir bossa nova, jazz e blues, descobrindo artistas como Tom Jobim, Moacir Santos, Ray Charles, Dave Brubeck, Art Blakey, Modern Jazz Quartet e João Gilberto.
“Como no disco do John Coltrane (‘Giant Steps’), era como se fossem degraus gigantes. Uma coisa puxava a outra”, recorda.
Embora tenha cursado Engenharia e concluído a graduação, Bosco já tinha a música como prioridade. Integrante do Quarteto de Ouro Preto, apresentou-se ainda muito jovem para Vinicius de Moraes, que visitava a cidade em 1967. O encontro deu origem à primeira parceria entre os dois e também aproximou o compositor do poeta e do pintor Carlos Scliar, responsáveis por incentivá-lo a conhecer o Rio de Janeiro.
A chegada à capital fluminense, em 1969, provocou outra lembrança marcante.
“Nunca tinha visto o mar. Era alta madrugada, e o táxi fez aquela virada do Leme para Copacabana. Tinha a Lua na água. O Sol ia nascer, ainda não tinha o vermelho e aquele amarelo forte, era meio rosa. Conhecia uma canção recente do Tom, ‘Fotografia’ (que fala de Sol e Lua). Eu já estava entrando num clima do Rio”, relembra.
Inicialmente apresentado à Zona Sul por Vinicius de Moraes e Carlos Scliar, João Bosco só conheceria a Zona Norte carioca anos depois, graças a Aldir Blanc. A parceria entre os dois se consolidou entre 1970 e 1984, período em que produziram algumas das obras mais importantes da música brasileira, presentes em discos como “João Bosco” (1973), “Caça à Raposa” (1975), “Galos de Briga” (1976), “Tiro de Misericórdia” (1978), “Linha de Passe” (1979) e “Comissão de Frente” (1981).
Ao longo da carreira, Bosco também desenvolveu parcerias com compositores como Capinan, Belchior, Martinho da Vila, Antonio Cicero, Waly Salomão, Chico Buarque, Nei Lopes, Arnaldo Antunes e, mais recentemente, com o filho, Francisco Bosco.
Ao fazer um balanço da trajetória, João Bosco reconhece que a idade trouxe novos desafios, mas afirma enxergar o momento com gratidão.
“Você vai levando a vida. Tem os perrengues de saúde, vai frequentando médicos, laboratórios, para com isso, para com aquilo. Mas só tenho a agradecer tudo o que me foi mostrado pelos amigos, pelos grandes artistas, pelos grandes parceiros, por ter chegado até aqui e conseguido fazer coisas. Investi muito o meu tempo naquilo que eu amo.”
Hoje, além da música, ele diz encontrar motivação nas novas gerações da família. Os netos Iolanda, Lourenço e Madalena representam, segundo o artista, um elo permanente com o futuro, enquanto sua obra segue atravessando diferentes épocas da música brasileira.