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Violência Psicológica

Relações abusivas fazem vítimas perderem a noção da gravidade da violência, diz psicólogo

Jannes Valente detalha os mecanismos usados por abusadores para controlar parceiros e orienta vítimas e familiares a identificarem os sinais da violência psicológica
Por O Correio de Hoje
14/07/2026 | 15:59

Relacionamentos abusivos costumam seguir padrões de controle, manipulação e desequilíbrio de poder que, muitas vezes, passam despercebidos pelas próprias vítimas. O alerta foi feito pelo psicólogo Jannes Valente. Segundo ele, pessoas submetidas a esse tipo de relação geralmente perdem, de forma gradual, a capacidade de identificar a gravidade da situação, o que dificulta o rompimento do ciclo de violência.

De acordo com o psicólogo, uma das características mais frequentes observadas no consultório é a dificuldade de reconhecer que a relação é abusiva. Ele relata que, durante os atendimentos, costuma questionar os pacientes sobre essa possibilidade e, em um primeiro momento, a resposta costuma ser negativa. Com o avanço da terapia, porém, muitos passam a identificar os comportamentos abusivos e, em alguns casos, reconhecem que ocupam o papel de agressor.

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Psicólogo Jannes Valente aborda relações - Foto: magnific

Embora as estatísticas indiquem maior incidência de mulheres vítimas de violência — incluindo agressões físicas e sexuais —, Jannes afirma que também atende homens em situação de abuso psicológico. Segundo ele, o elemento central de uma relação abusiva é o desequilíbrio de poder. “O que caracteriza uma relação tóxica e abusiva é uma relação de poder desigual. Um pode tudo, outro não pode nada. Um é o abusador, outro é o abusado.”

Na avaliação do psicólogo, esse padrão de domínio costuma ser construído gradualmente e se manifesta por meio de estratégias recorrentes. A primeira delas é o enfraquecimento da rede de apoio da vítima. Segundo Jannes, o isolamento pode ocorrer tanto pelo afastamento de familiares e amigos quanto pela influência do agressor sobre essas pessoas, fazendo com que a vítima deixe de contar com referências externas capazes de ajudá-la a perceber a violência.

Outro mecanismo é a normalização de comportamentos inadequados. Aos poucos, situações como gritos, controle sobre a rotina, restrições à convivência social e tratamento desigual passam a ser encaradas como parte natural da relação. “O abusado vai se dessensibilizando como se aquilo fosse aceitável”, explica.

Para o psicólogo, quando há identificação de uma relação abusiva, a orientação dos especialistas é interromper completamente o contato com o agressor. Ele afirma que a vítima costuma perder a percepção da gravidade da situação em razão do processo contínuo de manipulação e desgaste emocional.

“Quem está na posição de abusado até pode saber que tem alguma coisa errada, mas não tem a menor dimensão da gravidade das coisas.” Segundo Jannes, esse processo pode levar a consequências extremas caso não seja interrompido. “O final dessa estrada é homicídio ou suicídio. Não porque alguém quer matar ou quer morrer, mas porque se perde o controle.”

Na prática clínica, ele observa que a ruptura raramente acontece por iniciativa da vítima. Em geral, ocorre após um episódio considerado decisivo, como uma agressão física, uma exposição pública ou um prejuízo financeiro provocado pelo parceiro.

Isso acontece, segundo o psicólogo, porque a pessoa submetida ao abuso chega a esse estágio com a autoestima, a autoconfiança e os recursos emocionais comprometidos. Ao diferenciar conflitos cotidianos de relações abusivas, Jannes afirma que divergências fazem parte da convivência, mas o que distingue uma situação da outra é a intenção de controlar o outro.

Para ele, um relacionamento saudável é baseado na reciprocidade. “Uma relação boa é troca. É troca de carinho, de afeto, é parceria.” O especialista afirma que esse tipo de relação se sustenta em dois pilares: conexão entre o casal e reciprocidade nas atitudes. Diferentemente das relações abusivas, não há concentração de poder nem imposição unilateral de regras.

Outro aspecto abordado foi o chamado “mito do amor romântico”. Segundo Jannes, essa ideia costuma ser utilizada para justificar comportamentos possessivos e controlar a vítima, apresentando o isolamento e o afastamento da rede de apoio como demonstrações de amor ou proteção.

O psicólogo também explicou que o ciúme, por si só, não caracteriza uma relação abusiva. Segundo ele, trata-se de uma emoção natural, mas que passa a exigir atenção quando se torna frequente, intenso e gera sofrimento para uma das partes.

Para avaliar quando o comportamento deixa de ser saudável, ele recomenda observar três fatores: frequência, intensidade e sofrimento provocado pelo ciúme. Também destaca que não existe predominância entre homens e mulheres, já que o comportamento costuma estar relacionado a questões como insegurança, baixa autoestima e medo de abandono.

Na avaliação de Jannes Valente, familiares e amigos têm papel importante na identificação de situações de abuso, já que a vítima, muitas vezes, não consegue reconhecer o processo de manipulação ao qual está submetida.

Ao final da entrevista, o psicólogo orientou pessoas que suspeitam viver uma relação abusiva a observarem alguns sinais recorrentes, como o isolamento da rede de apoio, o sentimento constante de culpa, a normalização de comportamentos que antes seriam considerados inaceitáveis e a sensação de estar sozinha dentro da relação. “Você não tem culpa. Isso tem uma porta de saída, isso tem jeito, você não está sozinho.”