O hábito de adiar a hora de dormir para aproveitar momentos de lazer após um dia repleto de obrigações tem chamado a atenção de especialistas em saúde do sono. Conhecido como “vingança na hora de dormir”, o comportamento vem sendo apontado como um novo tipo de insônia relacionado às longas jornadas de trabalho, estudo e às exigências da rotina moderna. Embora ofereça uma sensação momentânea de liberdade, a prática pode comprometer a saúde física e mental ao reduzir o tempo de descanso necessário para o organismo.
A professora Nicóli Tombini, de 21 anos, vive essa realidade diariamente. Ela acorda às 6h, mas frequentemente adia o momento de dormir para realizar atividades que lhe dão prazer, como colocar a leitura em dia. O descanso acaba ficando em segundo plano, mesmo sabendo que acordará cedo no dia seguinte.

No início da carreira, Nicóli passou a acumular uma rotina ainda mais intensa. Atualmente, trabalha em duas escolas e cursa três graduações simultaneamente. Segundo ela, a carga de compromissos tornou difícil encontrar tempo para si durante o dia, levando ao adiamento constante do sono. “Eu faço três cursos de graduação e trabalho em duas escolas, então fica difícil conciliar tudo”, relata.
Especialistas explicam que esse comportamento recebeu o nome de “vingança na hora de dormir” porque representa uma tentativa de recuperar, durante a noite, o tempo que foi consumido pelas obrigações diárias. O termo surgiu inicialmente para descrever a rotina de jovens chineses submetidos a jornadas de trabalho de aproximadamente 12 horas por dia e ganhou repercussão internacional após uma publicação da jornalista chinesa Daphne K. Lee nas redes sociais.
Para a pneumologista Erika Treptow, pesquisadora do Instituto do Sono, a procrastinação do sono possui uma característica diferente da procrastinação convencional. Segundo ela, quem adia o descanso sabe da importância de dormir, mas opta conscientemente por permanecer acordado para desfrutar de momentos de lazer.
“É um pouco diferente de procrastinar algo chato. Quem adia o sono sabe que dormir é bom, mas quer se dar aquele tempo de lazer. A noite acaba sendo o momento em que a pessoa se torna dona do próprio tempo”, afirma Treptow.
Na prática, o comportamento pode ocorrer de diferentes formas. Algumas pessoas simplesmente retardam o horário de ir para a cama. Outras já estão deitadas, mas passam horas assistindo séries, navegando nas redes sociais, jogando ou consumindo outros conteúdos em dispositivos eletrônicos, prolongando ainda mais o tempo até adormecer.
As consequências desse hábito já vêm sendo observadas em pesquisas científicas. Um estudo da Sociedade de Pesquisa do Sono de Oxford identificou que pessoas com altos níveis de procrastinação do sono apresentam maior incidência de sintomas de ansiedade, depressão, insônia e pior qualidade do descanso.
Pesquisas recentes também mostram que o fenômeno é mais frequente entre jovens de 20 a 30 anos. Nessa fase da vida, muitos conciliam estudo, trabalho e outras responsabilidades, encontrando apenas o período da noite para realizar atividades pessoais.
O analista Augusto Fugulim, de 26 anos, afirma que costuma adiar o momento de dormir depois de dias seguidos de jornadas de aproximadamente dez horas de trabalho. Segundo ele, a decisão não é planejada, mas acontece naturalmente.
“Nunca é algo pré-planejado, acontece naturalmente, porém quando eu percebo que estou ‘me vingando’ não me permito parar e dormir”, relata.
Segundo Erika Treptow, além da crescente cobrança por produtividade, os jovens enfrentam fatores próprios da idade que favorecem esse comportamento. Muitos conciliam trabalho e estudo, ainda estão desenvolvendo mecanismos de autocontrole e buscam uma compensação após dias intensos de atividades.
“O jovem tem algumas questões como a dupla jornada, de estudo e trabalho. O autocontrole às vezes continua em formação, ele quer muito ser compensado pelo seu esforço. E existe algo fisiológico. Na adolescência a tendência é dormir mais tarde e acordar mais tarde”, esclarece.
A psicóloga clínica Silvia Conway, pesquisadora da Associação Brasileira do Sono, destaca que a facilidade de recuperação após noites mal dormidas faz com que muitos jovens subestimem os prejuízos da privação do sono. Segundo ela, é comum tentar compensar o déficit de descanso apenas nos fins de semana, estratégia que não recupera completamente os danos provocados pela falta de sono durante a semana.
A especialista explica ainda que cada pessoa possui um cronotipo, ou seja, uma predisposição biológica para dormir e acordar em determinados horários. Existem indivíduos com perfil matutino, que preferem dormir cedo e acordar cedo; vespertino, que apresentam maior disposição durante a noite; e intermediário, que conseguem adaptar melhor seus horários.
Segundo Conway, aproximadamente 60% da população brasileira possui perfil intermediário, conseguindo ajustar o horário de dormir conforme a rotina diária. Os outros 40% se dividem igualmente entre pessoas predominantemente matutinas e vespertinas.
“No Brasil, 60% da população têm um perfil biológico intermediário. Se chega tarde em casa, dorme tarde, se chega cedo, dorme cedo. Desde que isso seja ritmado, a pessoa consegue seguir assim. Os outros 40% são distribuídos por igual entre tendência matutina e vespertina”, destaca.
Moradores de grandes cidades também estão mais expostos ao problema. Além da longa jornada profissional, muitos enfrentam horas de deslocamento no trânsito diariamente, reduzindo ainda mais o tempo disponível para lazer e descanso.
“A procrastinação é mais comum nos grandes centros. Se a pessoa já trabalha bastante e ainda encara o deslocamento, não sobra tempo para mais nada. Essas pessoas têm uma chance maior de adiar hora de dormir. Elas pensam: ‘não tive nenhum momento feliz hoje’”, explica Conway.
Estudos também apontam que o estresse prolongado pode acelerar o envelhecimento do sistema imunológico e manter o cérebro em estado de alerta constante, dificultando ainda mais o início e a manutenção do sono. A pandemia de Covid-19 também alterou os hábitos de descanso da população brasileira. Pesquisa realizada pela Associação Brasileira do Sono mostrou que a média diária de sono caiu de 7,12 horas para 6,23 horas durante o período, aumentando o risco de problemas como perda de memória, obesidade e doenças cardiovasculares.
Especialistas são unânimes ao afirmar que adultos necessitam de sete a nove horas de sono por noite para manter o funcionamento adequado do organismo. Eles ressaltam ainda que o déficit acumulado durante a semana não é totalmente compensado ao dormir mais nos fins de semana.
“As pessoas costumam achar que dormir é sinônimo de não querer trabalhar, mas é o contrário. Estudos mostram que quem dorme a quantidade de horas diária adequada é mais produtivo, criativo, tem mais capacidade de convivência”, ressalta Erika Treptow.