O cuidado contínuo de familiares com doenças crônicas, idosos e pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento pode provocar impactos significativos na saúde física e emocional de quem assume essa responsabilidade. O alerta foi feito pelo médico psiquiatra Éverson Damasceno. Segundo ele, o problema não está no ato de cuidar, mas no excesso de responsabilidades assumidas sem limites e sem apoio.
“O cuidado em si não adoece. O que adoece, na verdade, é o fato de cuidar sem limites e sem você respeitar também a necessidade de muitas vezes não deixar aquilo tudo nas suas costas”, afirmou.

Segundo o psiquiatra, embora a atenção normalmente esteja voltada para quem recebe os cuidados, é necessário olhar também para quem os oferece. Ele citou profissionais da saúde, professores, pais, mães e cuidadores de idosos entre os grupos que frequentemente vivenciam essa realidade.
“A gente acaba percebendo a necessidade de ambos os lados. Só que o que é mais negligenciado ou silenciado é a posição do cuidador.”
Damasceno explicou que ninguém consegue suportar sozinho todas as demandas impostas pelo cuidado permanente e ressaltou que pedir ajuda não significa abandonar quem necessita de assistência.
“É importante muitas vezes pedir ajuda e isso não significa que você precisa abandonar quem precisa dela. Você pedir ajuda não faz com que a outra pessoa acabe se prejudicando por isso.”
Entre os principais sinais de sobrecarga emocional, o médico destacou irritabilidade, insônia, cansaço constante, perda da paciência e desinteresse pelas próprias atividades.
“A tendência é você ficar imerso tanto nesse papel de cuidador que acaba esquecendo um pouco de si mesmo.”
Segundo ele, pessoas que costumam priorizar constantemente as necessidades dos outros tendem a negligenciar o próprio bem-estar.
“Geralmente é um perfil de pessoas que vão priorizar muito as necessidades do outro antes de si mesmas. São pessoas que não cuidam de si como geralmente elas se doam.”
Um dos sinais considerados mais preocupantes pelo especialista é a culpa ao descansar.
“É perigoso quando está presente a sensação de culpa que surge quando você descansa. São pessoas que aprenderam que cuidar de si mesmas é um egoísmo. Aprenderam isso de uma forma errada. Você não precisa adoecer para provar que ama alguém.”
Para ele, cuidar da própria saúde também faz parte do cuidado oferecido ao outro.
“Essas pessoas têm que entender que cuidar de si também faz parte de cuidar dos outros.”
O psiquiatra afirmou que a sobrecarga do cuidador caracteriza um processo de estresse crônico, capaz de produzir sintomas físicos e emocionais.
“Estamos falando de uma situação de estresse crônico, pelo excesso de responsabilidades.”
Na avaliação dele, a sociedade costuma valorizar o sacrifício, mas oferece pouco suporte para quem assume esse papel.
“Culturalmente hoje nós vivemos em uma sociedade que aplaude o sacrifício, mas ela não dá suporte a quem se sacrifica. Não adianta você só enaltecer, romantizar e, ao mesmo tempo, não dar essa chance de acolhimento e de escuta.”
Entre os sintomas físicos relacionados ao desgaste emocional, Damasceno citou dores de cabeça, aumento da pressão arterial, queda de cabelo, crises de ansiedade, gastrite, dores musculares e irritabilidade. Segundo ele, esses sintomas indicam que o organismo permanece em estado permanente de alerta.
O médico destacou que mães atípicas estão entre os grupos mais vulneráveis ao esgotamento emocional. Ele afirmou que essas mulheres convivem com demandas intensas relacionadas aos tratamentos dos filhos, ao mesmo tempo em que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços especializados.
“O foco vai ser sempre na saúde e na oportunidade que os filhos vão estar tendo ou não acesso às terapias e aos tratamentos adequados. A gente sabe que, na prática, isso deixa a desejar um pouco, principalmente pela grande fila de espera.”
Outro grupo frequentemente afetado é formado por familiares responsáveis por pessoas com doenças neurodegenerativas, como Alzheimer.
“Os familiares que cuidam de pais ou de outros parentes que estão passando por algum processo de quadro demencial também vão exigir esse cuidado e, muitas vezes, isso vai fazendo com que você deixe de viver a sua própria rotina.”
Segundo ele, é comum que apenas um integrante da família concentre toda a responsabilidade.
“Os outros familiares acabam se acomodando. Sempre alguém da família, que tem essa posição mais proativa e altruísta, acaba puxando para si esse excesso de responsabilidades. Só que isso é corrosivo, é desgastante.”
Damasceno afirmou que o cuidador deve buscar acompanhamento profissional quando o sofrimento começa a comprometer sua própria vida.
“O maior objetivo de procurar ajuda vai ser quando o sofrimento compromete sua própria saúde.”
Entre os sinais que exigem atenção, ele citou ansiedade intensa, sintomas depressivos, irritabilidade constante, insônia prolongada e sensação de perda do controle da própria vida.
“Quando o sofrimento pesa tanto que você começa a não estar mais conectado com sua própria vida e com suas próprias relações, provavelmente já passou do limite há um tempo.”
Ao responder se existe diferença entre cuidar por amor e assumir um peso que compromete a própria saúde, o psiquiatra explicou que muitas pessoas são colocadas inesperadamente na posição de cuidador. Ele citou doenças neurodegenerativas e transtornos do neurodesenvolvimento como situações imprevisíveis que exigem reorganização da rotina familiar.
“O fato de você se cuidar não vai anular o amor que você tem pelo outro, porque você também precisa de ajuda.”
Para ele, o cuidado exige equilíbrio.
“O cuidador também é um ser humano. Precisa se alimentar bem, dormir bem, manter suas interações, seus vínculos sociais, aprender a dividir um pouco mais as responsabilidades e aceitar ajuda quando for preciso.”
Entre as orientações práticas, Damasceno recomendou a criação de pequenas pausas ao longo do dia.
“Em primeiro lugar, eu acho importante criar micropausas. Pelo menos dez minutos entre uma tarefa e outra para tomar um café, respirar fundo ou ouvir uma música que você gosta.”
Ele também orientou os cuidadores a aprenderem a dividir responsabilidades.
“É importante aprender a delegar. Tem pessoas que assumem muitas responsabilidades por pensar que ninguém vai fazer aquilo da mesma forma.”
Outra recomendação foi estabelecer limites.
O especialista também defendeu a construção de uma rede de apoio formada por familiares e amigos.
“Da mesma forma como você é a base do apoio para ofertar esse cuidado, você também precisa contar com pessoas que consigam aliviar um pouco esse peso.”