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Anemia Falciforme

Dor crônica agrava anemia falciforme

Repetição das crises pode alterar o sistema nervoso, prolongar o sofrimento e comprometer atividades diárias, exigindo um tratamento multidisciplinar
Por O Correio de Hoje
07/07/2026 | 15:42

A anemia falciforme, considerada a doença genética hereditária mais frequente no Brasil, afeta aproximadamente 60 mil pessoas, segundo o Ministério da Saúde. Embora seja conhecida principalmente pelas crises intensas de dor provocadas pela obstrução da circulação sanguínea, especialistas alertam para uma complicação menos conhecida, mas igualmente incapacitante: a dor crônica. Diferentemente das crises agudas, esse tipo de dor pode persistir durante semanas, meses ou até anos, comprometendo atividades cotidianas, o desempenho escolar e profissional, além da saúde emocional dos pacientes.

A doença é provocada por uma alteração genética na hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue. Essa modificação faz com que as hemácias adquiram formato semelhante ao de uma foice, tornando-se mais rígidas e dificultando sua passagem pelos vasos sanguíneos. Como consequência, ocorre a obstrução da circulação em pequenos vasos, reduzindo o fornecimento de oxigênio aos tecidos e desencadeando processos inflamatórios e episódios de dor intensa.

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Especialistas alertam que a dor crônica é uma das principais complicações da anemia falciforme e pode persistir mesmo fora das crises agudas; doença afeta aproximadamente 60 mil brasileiros e pode comprometer a rotina dos pacientes - Foto: magnific

“A dor é uma das principais complicações da anemia falciforme por conta da crise vaso-oclusiva. As hemácias em formato de foice obstruem pequenos vasos sanguíneos, o que gera uma dor muito intensa, principalmente em articulações e abdome”, explica o ortopedista e especialista em dor crônica João Henrique Meneses Xavier, de Brasília.

Embora as crises dolorosas sejam a manifestação mais conhecida da doença, a repetição frequente desses episódios pode provocar alterações permanentes no funcionamento do sistema nervoso. Com o tempo, o organismo torna-se mais sensível aos estímulos dolorosos, fazendo com que o desconforto permaneça mesmo quando não há uma nova crise vaso-oclusiva.

Segundo o ortopedista Lúcio Gusmão, especialista em dor da Rede Cade, alguns sinais indicam que a dor deixou de ser apenas episódica e passou a assumir características crônicas.

“Na prática, consideramos preocupante quando a dor se torna frequente, persiste por semanas ou meses, aparece mesmo fora das crises, exige uso repetido de analgésicos, prejudica o sono, limita atividades simples e passa a gerar medo de se movimentar ou de retomar a rotina”, afirma.

As evidências científicas reforçam essa preocupação. Um estudo publicado em 2008 na revista Annals of Internal Medicine, considerado um dos principais sobre o tema, acompanhou pacientes adultos com anemia falciforme por meio de registros diários de sintomas. O levantamento mostrou que aproximadamente 30% relataram sentir dor em mais de 95% dos dias avaliados. Em contrapartida, apenas 15% disseram ter permanecido com dor em menos de 5% do período analisado.

Para João Henrique Meneses Xavier, esse quadro está relacionado às alterações provocadas pelas crises repetidas.

“Muitos pacientes desenvolvem sensibilização periférica e central, passando a sentir dor mesmo na ausência de um episódio agudo”, destaca.

Os sintomas da anemia falciforme costumam surgir ainda na infância e variam conforme cada paciente. Entre as manifestações mais frequentes estão crises de dor em ossos, articulações, braços, pernas, tórax e abdômen; inchaço doloroso nas mãos e nos pés, especialmente em crianças pequenas; fadiga, fraqueza e palidez decorrentes da anemia; pele e olhos amarelados; maior suscetibilidade a infecções; atraso no crescimento; falta de ar; úlceras nas pernas; alterações na visão e síndrome torácica aguda, complicação que provoca dor no peito, tosse e dificuldade para respirar.

Os impactos da doença, porém, vão além das manifestações físicas. Crianças e adolescentes podem apresentar dificuldades de aprendizagem, queda no rendimento escolar e redução da participação em atividades recreativas. Entre adultos, as crises frequentes costumam provocar afastamentos do trabalho, perda de produtividade e restrições na vida social.

Pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou que 47,8% das crianças e adolescentes avaliados faltaram à escola em decorrência das crises dolorosas, acumulando média de 2,7 dias de ausência durante o período analisado.

“A dor da anemia falciforme não afeta apenas o corpo. Ela interfere diretamente na escola, no trabalho, no sono, na convivência familiar e na saúde emocional”, afirma Gusmão.

Segundo os especialistas, quando a dor se torna constante também podem surgir ansiedade, depressão, irritabilidade, fadiga e sensação de incapacidade, agravando ainda mais o impacto da doença sobre a qualidade de vida.

Por isso, o tratamento não deve se limitar ao controle das crises ou ao uso de medicamentos. Os especialistas defendem uma abordagem individualizada e multidisciplinar, envolvendo fisioterapia, exercícios supervisionados, acompanhamento psicológico, técnicas de relaxamento, educação em dor e cuidados voltados à qualidade do sono.

“O tratamento moderno da dor na anemia falciforme precisa ser multimodal. Medicamentos são importantes, mas não devem ser a única estratégia”, conclui Gusmão.

De acordo com os especialistas, o diagnóstico precoce, o acompanhamento contínuo e o tratamento integrado permitem reduzir a frequência das crises, controlar a dor crônica e preservar a autonomia dos pacientes, melhorando significativamente sua qualidade de vida ao longo dos anos.