BUSCAR
BUSCAR
Educação

Documento propõe uso da inteligência artificial para melhorar aprendizagem nas escolas

Instituto IA.Edu lança versão preliminar de marco conceitual que defende integração entre ensino presencial, recursos digitais e comunidade para ampliar a qualidade da educação básica e reduzir desigualdades
Redação
06/07/2026 | 21:31

A inteligência artificial tem ocupado cada vez mais espaço no debate sobre o futuro da educação. Com o objetivo de orientar esse processo, o Instituto IA.Edu lançou a versão preliminar do documento “Escolas Figitais: IA a Serviço da Aprendizagem Plena para Todos”, que apresenta um conjunto de diretrizes para integrar a tecnologia ao ensino básico de forma planejada e voltada à melhoria da aprendizagem.

O texto funciona como um marco conceitual, ou seja, um documento que reúne princípios, conceitos e propostas para orientar políticas públicas, pesquisas e o desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas às escolas. A ideia central é que a inteligência artificial seja utilizada como ferramenta de apoio ao trabalho dos professores, sem substituir o papel do educador, contribuindo para reduzir desigualdades no acesso ao aprendizado.

WhatsApp Image 2026 07 06 at 21.29.46
Documento propõe uso da inteligência artificial para melhorar aprendizagem nas escolas - Foto: Freeepik

Segundo os autores, a transformação digital da educação não deve começar pela tecnologia, mas pelas necessidades reais de professores e estudantes. O documento defende que a inteligência artificial seja aplicada para fortalecer práticas pedagógicas e oferecer novas oportunidades de aprendizagem, evitando que seu uso amplie diferenças entre alunos de diferentes contextos sociais.

A proposta parte de um diagnóstico preocupante sobre a educação brasileira. Com base em dados do Banco Mundial, o estudo afirma que apenas 30% das crianças do País alcançam a alfabetização básica até os 10 anos de idade. Já informações do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostram que somente 56% dos alunos da rede pública concluem o 2º ano do Ensino Fundamental alfabetizados e que 59% dos estudantes que terminam o Ensino Médio apresentam desempenho insuficiente em Matemática.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores apontam que o Brasil reúne condições favoráveis para incorporar a inteligência artificial ao ensino. Dados da pesquisa TALIS, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indicam que 56% dos professores brasileiros do Ensino Médio afirmam utilizar ferramentas de IA em suas atividades, percentual superior à média internacional da organização, de 36%. O documento também cita o Government AI Readiness Index, que coloca o Brasil como o país latino-americano mais preparado para implementar políticas públicas de inteligência artificial.

Escolas Figitais

Como resposta a esse cenário, o instituto propõe o conceito de Escolas Figitais. O modelo combina três dimensões que devem funcionar de forma integrada.

A primeira é a dimensão física, que corresponde ao ambiente escolar tradicional, onde acontecem as aulas presenciais, a convivência entre estudantes e professores e a formação humana. A segunda é a dimensão digital, formada por plataformas virtuais e sistemas inteligentes capazes de personalizar o ensino, oferecer retorno imediato sobre o desempenho dos alunos e auxiliar na produção de materiais didáticos. Já a terceira é a dimensão social, que busca aproximar escola, famílias e comunidade, estimulando a colaboração e o aprendizado em rede.

Segundo os autores, a integração desses três ambientes amplia as oportunidades de aprendizagem e pode ajudar a enfrentar um desafio conhecido na área da educação como “Problema dos 2 Sigma”, teoria desenvolvida pelo pesquisador Benjamin Bloom. O conceito demonstra que alunos acompanhados individualmente costumam apresentar desempenho muito superior ao obtido em salas de aula tradicionais. A proposta é utilizar tutores inteligentes baseados em inteligência artificial para aproximar essa aprendizagem personalizada da realidade das redes públicas de ensino.

O documento também apresenta quatro pilares considerados essenciais para a implantação desse modelo. O primeiro é a pedagogia, voltada à formação integral dos estudantes e ao fortalecimento do trabalho docente com apoio da IA. O segundo trata das competências que alunos, professores e gestores precisam desenvolver para utilizar e compreender a tecnologia. O terceiro reúne aspectos estruturais, como infraestrutura tecnológica, governança e regulamentação. Já o quarto pilar aborda a implementação das mudanças, defendendo que elas ocorram de forma integrada, gradual e adaptada às diferentes realidades das escolas brasileiras.

Como a publicação ainda está em versão beta, o texto permanece em consulta pública. A proposta é receber contribuições de pesquisadores, gestores públicos, especialistas e demais profissionais da educação antes da elaboração da versão definitiva do marco conceitual.

O que é o Instituto IA.Edu

O Instituto de Inteligência Artificial para a Educação (IA.Edu) é uma organização criada no ecossistema da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) dedicada ao desenvolvimento de pesquisas, produção de conhecimento e formulação de propostas para o uso ético e estratégico da inteligência artificial na educação.

A versão atual do documento foi elaborada pelos pesquisadores Ig Ibert Bittencourt, Maria Alice Carraturi, Seiji Isotani, Marcela Lorenzoni Rabin, Glória Maria Almeida da Silva, Thomaz Veloso e Camila Wasserman. O texto seguirá aberto a sugestões da comunidade acadêmica e de especialistas até a publicação da versão final.