BUSCAR
BUSCAR
Eleições 2026

Presidenciáveis ajustam discurso para reduzir resistências entre eleitorado feminino

Elas representam 52,47% do eleitorado, e pré-candidatos ajustam estratégias com propostas sobre violência, renda e autonomia financeira
Por O Correio de Hoje
06/07/2026 | 14:11

Com mais da metade do eleitorado brasileiro formada por mulheres, os principais pré-candidatos à Presidência intensificaram movimentos para reduzir resistências e ampliar apoio nesse segmento. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reforça a divulgação de ações voltadas ao público feminino, apesar das críticas à falta de avanços concretos em áreas do governo, adversários ajustam discursos e incorporam novas propostas às estratégias eleitorais.

Na oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta diminuir a rejeição entre as mulheres em meio à crise com a madrasta, Michelle Bolsonaro, e passou a defender com mais frequência uma vice na chapa. Ronaldo Caiado (PSD) concentra a abordagem no combate à violência, enquanto Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) apostam em propostas gerais que dialogam com demandas do eleitorado feminino.

capa portal (57)
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) / Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) / Ex-governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) - Foto: Ricardo Stuckert / PR; Edilson Rodrigues / Senado; Instagram / Reprodução

As mulheres representam 52,47% dos eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), embora permaneçam minoria nos cargos eletivos. Há cerca de um ano, Lula passou a inserir com frequência em seus discursos públicos o enfrentamento à violência contra a mulher. Na quinta-feira 2, durante agenda no Rio Grande do Norte e no Ceará, defendeu o aumento das penas para homens que matam mulheres.

A campanha petista pretende destacar medidas de combate à violência doméstica, iniciativas de igualdade salarial e a ampliação de serviços do Sistema Único de Saúde na linha de cuidados. A estratégia também prevê comparações com a forma como as mulheres foram tratadas durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A pesquisa Quaest mais recente aponta que 35% das mulheres se declaram antibolsonaristas, enquanto 25% se identificam como antipetistas. O levantamento de junho também mostrou aumento na aprovação do governo entre as eleitoras, de 45% em abril para 49% no mês da pesquisa. O objetivo do Palácio do Planalto é sustentar esse crescimento e convertê-lo em apoio eleitoral.

Na campanha de Lula, a avaliação é de que a manutenção do respaldo feminino será decisiva, sobretudo entre as classes C, D e E. Aliados também esperam que o conflito entre Flávio e Michelle Bolsonaro contribua para aproximar eleitoras indecisas do campo lulista.

“Todas as políticas construídas pelos governos do PT trataram diretamente da vida concreta das mulheres”, afirma a vereadora de São Paulo Luna Zarattini (PT), integrante da coordenação da campanha.

capa portal (58)
Ex-governador Romeu Zema (Novo-MG) / Pré-candidato Renan Santos (Missão) – Foto: Marina Ramos / Câmara; Instagram / Reprodução

O discurso, porém, convive com dificuldades na gestão. O Ministério das Mulheres teve pouca projeção durante o terceiro mandato de Lula e não conseguiu consolidar políticas de grande repercussão. O desempenho levou à substituição de Cida Gonçalves por Márcia Lopes, em maio de 2025. Desde então, a nova ministra tem concentrado esforços no fortalecimento das ações de enfrentamento à violência de gênero.

Os indicadores também impõem desafios ao governo. O Brasil registrou, sob a atual gestão, o primeiro trimestre mais letal para mulheres desde 2015. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam 399 vítimas de feminicídio entre janeiro e março, média equivalente a uma morte a cada 5 horas e 25 minutos.

Lula também ampliou a presença feminina no núcleo de comando da campanha em comparação com 2022. Participam do grupo decisório Luna Zarattini, a secretária nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais, Lucinha do MST e a secretária de Juventude do partido, Júlia Köpf.

Ainda sem função formalmente definida, a primeira-dama Janja da Silva deverá participar das discussões sobre o tema. Na terça-feira, 30 de junho, ela reagiu, sem citar diretamente o autor, à declaração do blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo de que mulheres “votam muito mal”.

Flávio busca reduzir resistência

Na pré-campanha de Flávio Bolsonaro, a avaliação é de que a segurança pública seguirá como um dos eixos centrais do discurso, mas não será suficiente, isoladamente, para melhorar o desempenho entre as eleitoras. O senador também procurou se afastar da declaração de Paulo Figueiredo.

A estratégia passou a reunir o endurecimento no combate à criminalidade com propostas de autonomia financeira, geração de renda e valorização do trabalho de cuidado. Segundo aliados, esses assuntos aparecem com frequência nas pesquisas qualitativas realizadas pela pré-campanha.

A necessidade de construir uma agenda específica ganhou força depois da crise pública com Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama divulgou um vídeo no qual afirmou ter sido “humilhada” pelo enteado, em meio à disputa sobre alianças e palanques no Ceará.

No entorno do senador, a leitura é de que o episódio tornou mais urgente a formulação de uma agenda positiva para as mulheres. A situação se agravou após a fala de Paulo Figueiredo, reconhecida por aliados como um obstáculo ao esforço de aproximação com um segmento amplamente resistente ao pré-candidato.

Ao abrir, na semana passada, um encontro com mulheres da campanha, Flávio reconheceu a dificuldade de diálogo com esse público e assumiu responsabilidade pelo cenário.

Parte da estratégia está concentrada em um programa coordenado pela ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques. A plataforma reúne propostas de enfrentamento à violência doméstica, estímulo ao empreendedorismo feminino, expansão do microcrédito e políticas relacionadas à economia do cuidado.

“Queremos ouvir as contribuições e práticas das vivências delas”, afirmou Daniella.

Nas últimas semanas, Flávio também intensificou a defesa de uma mulher como candidata a vice. Entre os nomes mencionados por aliados estão Daniella Marques, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e as deputadas Bia Kicis (PL-DF) e Simone Marquetto (PP-SP). Nenhuma delas, porém, confirmou ter recebido convite.

Adversários adotam estratégias distintas

Entre os demais presidenciáveis, Ronaldo Caiado passou a veicular inserções na televisão dedicadas ao combate à violência doméstica e ao feminicídio. Nas peças, afirma que “quando esses criminosos são agressores de mulheres, tenho ainda mais mão pesada”. Em compromissos públicos, também costuma repetir que “em briga de marido e mulher, mete algema”.

A ênfase no tema, entretanto, não resultou em maior presença feminina na composição da chapa. Durante meses, aliados discutiram a possibilidade de indicar uma mulher para a vice, mas Caiado acabou escolhendo o presidente do PSD, Gilberto Kassab.

Romeu Zema, por sua vez, não pretende apresentar um programa exclusivo para as mulheres, segundo sua campanha. A proposta é incorporar ao plano geral de governo temas considerados prioritários para esse público, sem criar uma plataforma segmentada. A equipe identifica segurança pública, emprego, renda, educação e acesso a creches entre as principais demandas das eleitoras.

Renan Santos também rejeita a ideia de organizar a campanha a partir de acenos específicos às mulheres. O pré-candidato do Missão afirma que pretende priorizar medidas voltadas a problemas concretos enfrentados pelo segmento. Entre elas estão o endurecimento das penas para violência doméstica, o combate ao abandono parental, a expansão das escolas em tempo integral e mecanismos para assegurar o pagamento de pensão alimentícia, com atenção especial às mães solo.