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Economia

Inadimplência bate recorde no crédito

Taxa média de atrasos supera níveis históricos mesmo após lançamento do novo Desenrola Brasil; economistas apontam juros elevados e custo de vida como principais fatores.
Por O Correio de Hoje
03/07/2026 | 13:59

A inadimplência nas operações de crédito atingiu, em maio, o maior nível da série histórica do Banco Central (BC), mesmo com o lançamento da nova fase do Desenrola Brasil, programa federal de renegociação de dívidas. Segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito da autoridade monetária, a taxa média de atrasos superiores a 90 dias entre pessoas físicas e empresas chegou a 4,7%, o maior percentual desde o início da série, em 2011.

O avanço foi ainda mais expressivo nas operações de crédito livre contratadas por pessoas físicas — modalidade que inclui cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. Nesse segmento, a inadimplência alcançou 7,6%, também o maior patamar já registrado pelo Banco Central.

Cartão de Credito Maquineta (1)
A taxa média de atrasos superiores com mais de 90 dias enrtre pessoas físicas e empresas chegou a 4,7% em maio - Foto: josé aldenir

Os números indicam que, apesar de o programa de renegociação ter movimentado pelo menos R$ 15 bilhões em dívidas desde maio, os atrasos nos pagamentos continuaram crescendo. Em comparação com o mesmo período do ano anterior, a taxa média de inadimplência aumentou um ponto percentual.

Para a economista Juliana Inhasz, professora do Insper, o comportamento do mercado de trabalho não tem sido suficiente para conter o avanço da inadimplência. Embora emprego e renda permaneçam em trajetória de crescimento, o aumento das despesas das famílias e o elevado custo do crédito reduzem a capacidade de pagamento.

“O problema não é a falta de renda, mas o quanto essa renda cresce abaixo das necessidades das famílias e do custo financeiro das dívidas. Então, a pessoa está ganhando mais, mas está gastando mais para custear o seu dia a dia e o crédito. Quem precisou renovar uma dívida, parcelar uma compra, ou tomar crédito, acabou encontrando taxas de juros muito elevadas, especialmente nas modalidades que as pessoas mais usam, como cheque especial, cartão de crédito e crédito pessoal.”

Na avaliação da economista, o crédito deixou de funcionar como instrumento para antecipar consumo de bens duráveis e passou a ser utilizado para cobrir despesas correntes, tornando o endividamento um componente permanente do orçamento familiar.

“As pessoas usam o crédito para conseguir bancar o dia a dia. Não é mais o excepcional: é para bancar o básico. Só que não conseguem fazer reserva para, no mês seguinte, pagar esse crédito. Então, amanhã tomam mais crédito. E vai se desenrolando essa história de uma maneira que fica completamente insustentável.”

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Números mostram que esse aumento na inadimplência é a maior desde 2011, mesmo o governo injetando dinheiro – Foto: banco central

Os dados do Banco Central mostram que o aumento da inadimplência ocorreu tanto no crédito livre quanto no direcionado. Este último reúne linhas com destinação específica, como financiamento habitacional, agrícola e de infraestrutura, geralmente abastecidas por recursos da poupança e de fundos públicos e, em muitos casos, com juros subsidiados.

Já o crédito livre concentra operações em que as instituições financeiras definem livremente taxas, prazos e condições conforme o risco do cliente. É justamente nessa modalidade que estão as linhas mais utilizadas pelas famílias para financiar despesas cotidianas.

Considerando as duas categorias, a inadimplência das pessoas físicas subiu de 5,5% em abril para 5,6% em maio, estabelecendo um novo recorde histórico. Entre as empresas, a taxa atingiu 3,2%, o maior nível desde setembro de 2017.

Enquanto a inadimplência avançou, o comprometimento da renda das famílias permaneceu praticamente estável. Segundo o Banco Central, o indicador ficou em 49,8%, mostrando que praticamente metade da renda familiar continua destinada ao pagamento de dívidas.

Para Flávio Ataliba, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o elevado endividamento já se tornou uma característica estrutural da economia brasileira, aumentando a vulnerabilidade das famílias diante de juros elevados e de eventuais desacelerações da atividade econômica.

“Essa dificuldade é potencializada porque a gente tem ainda um nível de taxa de juros acima de 14% (a Selic está em 14,25% ao ano). E a dívida é cumulativa, juros sobre juros, o que potencializa mais o desconforto financeiro das famílias e o volume de inadimplência.”

Segundo o pesquisador, outro fator que vem reduzindo a capacidade de pagamento das famílias é o aumento das despesas com apostas esportivas on-line, que passaram a disputar espaço no orçamento doméstico ao lado de gastos essenciais e do pagamento de dívidas.

Em meio ao avanço da inadimplência, o governo federal ampliou o Desenrola Brasil. Desde maio, o programa renegociou pelo menos R$ 15,9 bilhões em débitos. Desse total, R$ 10 bilhões foram negociados por meio do Desenrola Famílias, voltado para pessoas físicas.

Após os descontos concedidos nas negociações, o estoque dessas dívidas foi reduzido para aproximadamente R$ 2,6 bilhões, sendo R$ 1,3 bilhão referente ao Desenrola Famílias e R$ 1,28 bilhão ao Desenrola Fies. O programa também passou a incluir o Desenrola Rural, destinado à renegociação de débitos do setor agropecuário, embora ainda não tenha sido divulgado um balanço oficial dessa modalidade.

O programa concentra esforços na renegociação de dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal para consumidores com renda de até cinco salários mínimos, atualmente equivalente a R$ 8.105. Nesta semana, o governo lançou ainda uma nova modalidade voltada para trabalhadores informais adimplentes, com dívidas de até R$ 15 mil e histórico de pagamento regular de pelo menos quatro parcelas do financiamento.

Apesar da ampliação do programa, economistas avaliam que ainda é cedo para medir seus efeitos sobre os indicadores de inadimplência. Na avaliação de Juliana Inhasz, a iniciativa atua principalmente sobre o estoque atual de dívidas, mas não altera os fatores que levam ao endividamento recorrente das famílias.

“O Desenrola só permite que as famílias negociem a dívida a juros mais baixos, mas não impede que elas continuem se endividando ou criando novas dívidas. Nesse cenário, a expectativa é ter nos próximos meses reduções de inadimplência e, lá para o fim do ano ou começo de 2027, o problema pode começar a aumentar de novo.”