As brincadeiras tradicionais perderam espaço na infância devido ao excesso de atividades, ao uso de telas e às mudanças na rotina das crianças, avalia Nélio Spréa, doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador das tradições populares infantis. Segundo ele, cantigas, parlendas e brincadeiras continuam sendo fundamentais para o desenvolvimento da linguagem, da coordenação motora e da socialização.
O pesquisador também critica alterações excessivas em cantigas populares, como “Atirei o pau no gato”. Embora considere legítima a intenção de eliminar referências aos maus-tratos contra animais, ele afirma que mudanças na letra prejudicaram a musicalidade e o aspecto lúdico da canção. “A razão para a alteração da letra é muito legítima (…), mas sugiro que essa adaptação não seja tão dramática”, afirma.

Para Spréa, algumas adaptações são necessárias, como em cantigas com conteúdo racista, mas a tradição não deve ser descartada sem reflexão. Ele também defende que escolas acompanhem, em vez de proibir, brincadeiras como polícia e ladrão, e afirma que não há brincadeiras “de menino” ou “de menina”. “As crianças devem brincar daquilo que elas sentem vontade, desde que não agridam ou ofendam umas às outras.”
Sobre o uso de tecnologia, o pesquisador recomenda limitar o tempo diante das telas. Segundo ele, o excesso compromete a saúde física, emocional e cognitiva das crianças. “A dica é não troque a saúde das crianças pela calmaria ilusória que o uso das telas provoca.”