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Cinema

Novo terror explora medo da IA e vida digital

Filme dirigido por Kane Parsons utiliza ambientes inspirados em memes, videogames e internet para retratar os medos contemporâneos relacionados à inteligência artificial, algoritmos e trabalho
Por O Correio de Hoje
29/06/2026 | 14:45

Assim como cada época produziu filmes de terror capazes de refletir seus medos coletivos, “Backrooms”, dirigido por Kane Parsons, surge como um retrato das inquietações da Geração Z diante da vida digital, da inteligência artificial, dos algoritmos e das transformações no mercado de trabalho. Lançado em 2026, o longa tornou-se um dos maiores sucessos recentes do gênero ao arrecadar US$ 81 milhões nos Estados Unidos e no Canadá apenas no fim de semana de estreia, consolidando-se como um fenômeno entre o público mais jovem.

Dados do serviço de pesquisa cinematográfica PostTrak mostram que 86% dos espectadores tinham menos de 35 anos, enquanto 44% possuíam menos de 21 anos. O desempenho reforça a identificação do público da Geração Z com uma história construída a partir de elementos presentes em sua própria formação cultural: videogames, memes, internet, redes sociais e ambientes digitais.

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Backrooms expande lenda da internet para os cinemas em busca de novo publico

O filme acompanha Clark, um arquiteto frustrado que passa a trabalhar como vendedor de móveis e acaba descobrindo uma dimensão paralela composta por corredores, escritórios e salas aparentemente infinitas. O ambiente funciona como um enorme labirinto em constante transformação, no qual realidade física e universo digital parecem se misturar.

Mais do que um simples cenário de terror, o espaço representa uma metáfora para a sensação de aprisionamento vivida por muitos jovens em um cotidiano marcado por algoritmos, excesso de informação, inteligência artificial e fronteiras cada vez mais difusas entre trabalho, lazer e vida pessoal.

Pesquisadores observam que o terror sempre refletiu as preocupações predominantes de seu tempo. Na década de 1950, produções como “Vampiros de Almas” simbolizavam o medo da infiltração comunista durante a Guerra Fria. Nos anos 1970, títulos como “O Massacre da Serra Elétrica” e “O Exorcista” dialogavam com a desconfiança em relação às instituições após a Guerra do Vietnã.

Já os filmes slasher dos anos 1980 frequentemente retratavam adolescentes abandonados pelos pais, enquanto o chamado torture porn dos anos 2000, representado por franquias como “Jogos Mortais”, foi interpretado por estudiosos como reflexo do contexto político internacional marcado por Guantánamo e pelo escândalo de Abu Ghraib.

Segundo Adam Lowenstein, diretor do Centro de Estudos de Terror da Universidade de Pittsburgh, “os filmes de terror sempre tomam a forma do mundo em que são feitos e canalizam as ansiedades e traumas particulares daquela época e daquele contexto”.

O sucesso de “Backrooms” também está ligado ao perfil de seu diretor. Com apenas 20 anos, Kane Parsons tornou-se o cineasta mais jovem da produtora A24. Antes de chegar a Hollywood, ele era conhecido por produzir vídeos na internet. Em 2022, utilizando softwares de computação gráfica, Parsons transformou uma antiga imagem de um escritório vazio — já popular como meme na internet — em um curta-metragem chamado “The Backrooms (Found Footage)”.

O vídeo ultrapassou 80 milhões de visualizações e chamou a atenção da A24, que decidiu transformar o projeto em um longa-metragem.

Para Brendan Reynolds, de 26 anos, funcionário da Biblioteca Pública de Nova York, o filme demonstra uma linguagem construída por alguém que compartilha as mesmas referências culturais de sua geração.

“É o primeiro filme que vejo dirigido por alguém que cresceu com o vaporwave.”

Embora muitos espectadores interpretem “Backrooms” como uma crítica à inteligência artificial, Parsons afirma que sua principal inspiração foi o videogame Portal 2 e experiências anteriores de criação dentro de Minecraft.

No universo do filme, os personagens entram nas chamadas backrooms por meio do chamado clipping, termo utilizado por jogadores para descrever falhas que permitem atravessar paredes ou objetos sólidos em videogames.