A turnê The Eras Tour, da cantora Taylor Swift, tornou-se um exemplo utilizado por economistas para explicar como grandes eventos culturais podem gerar impactos econômicos diretos e facilmente mensuráveis nas cidades que os recebem. Em contrapartida, embora a Copa do Mundo movimente bilhões de dólares e seja um dos maiores eventos esportivos do planeta, seus efeitos sobre a economia costumam ser mais dispersos e menos perceptíveis quando analisados em escala nacional.
A comparação ganhou força após a divulgação do chamado Beige Book, relatório periódico do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Em maio de 2023, durante a passagem da cantora pela Filadélfia, o documento registrou o maior crescimento da receita hoteleira da cidade desde a pandemia, atribuindo explicitamente o resultado ao aumento do fluxo de turistas provocado pelos shows de Taylor Swift.

Outras cidades norte-americanas apresentaram comportamento semelhante. Chicago, Cincinnati, Denver e Los Angeles relataram ocupação recorde ou próxima do limite nos hotéis, aeroportos com aumento no movimento e crescimento das despesas dos visitantes com hospedagem, alimentação, transporte, comércio e entretenimento. Na Filadélfia, estima-se que cada fã tenha gasto, em média, cerca de US$ 1 mil (aproximadamente R$ 5,2 mil), considerando ingressos, hospedagem, alimentação, roupas, transporte e produtos oficiais.
Em Los Angeles, os seis shows da artista geraram um impacto econômico estimado em US$ 320 milhões (cerca de R$ 1,66 bilhão) e contribuíram para a criação de aproximadamente 3.300 empregos relacionados diretamente ao evento. Já em Denver, as apresentações movimentaram cerca de US$ 140 milhões (aproximadamente R$ 726 milhões) na economia local.
Segundo economistas, esse tipo de impacto apresenta uma característica importante: os benefícios ficam concentrados nas cidades que recebem os eventos e são facilmente observados por meio do aumento da ocupação hoteleira, das vendas no comércio e da movimentação do setor de serviços.
Embora a Copa do Mundo também gere aumento da atividade econômica, pesquisadores afirmam que seus efeitos costumam ser menos evidentes. Análises do banco Goldman Sachs, baseadas em Copas realizadas desde 1982, apontam que o torneio produz um efeito “ligeiramente positivo, mas não estatisticamente significativo” sobre o Produto Interno Bruto (PIB) anual dos países-sede. No longo prazo, o impacto tende a ser praticamente nulo.
Para a Copa do Mundo de 2026, por exemplo, o Goldman Sachs estima que o PIB dos Estados Unidos poderá crescer cerca de 0,05 ponto percentual, enquanto o México teria expansão de aproximadamente 0,1% e o Canadá entre 0,2%. Os economistas ressaltam, porém, que esses efeitos são temporários e não representam mudanças estruturais no crescimento econômico.
As projeções da Casa Branca são mais otimistas. O governo norte-americano estima que o Mundial poderá acrescentar US$ 40,9 bilhões (cerca de R$ 212 bilhões) ao PIB do país e movimentar aproximadamente US$ 17,2 bilhões (R$ 89,2 bilhões) em atividades econômicas relacionadas ao evento.
Entretanto, especialistas observam que grande parte desses valores decorre de investimentos públicos em infraestrutura, segurança, transporte e serviços, cujos custos também precisam ser considerados no balanço econômico. Pesquisadores independentes destacam que muitos estudos superestimam os ganhos ao contabilizar apenas o aumento das receitas, sem considerar o deslocamento do consumo.
Segundo essa linha de análise, parte do dinheiro gasto pelos turistas durante a Copa deixaria de ser utilizada em outros setores da economia ou seria direcionada para outros destinos turísticos caso o evento não acontecesse. Além disso, há custos de oportunidade relacionados aos elevados investimentos públicos necessários para receber um evento esportivo dessa dimensão.
Já os shows de Taylor Swift apresentam uma dinâmica diferente. Como são financiados pela iniciativa privada e têm duração limitada, os benefícios econômicos permanecem concentrados nas cidades que recebem as apresentações, sem exigir grandes aportes governamentais.
“Bônus psicológico”
Os pesquisadores também chamam atenção para um aspecto difícil de mensurar: o chamado “bônus psicológico”. Relatórios utilizados pelo Goldman Sachs apontam que grandes eventos esportivos podem elevar temporariamente indicadores de confiança, orgulho nacional e sensação de pertencimento. No entanto, até o momento, os estudos não encontraram evidências consistentes de que esse efeito emocional seja suficiente para impulsionar, de maneira significativa, o crescimento econômico.
Fenômeno semelhante ocorre com a turnê de Taylor Swift. A chamada “Swiftmania” movimenta redes sociais, atrai turistas e gera ampla repercussão cultural, mas seu impacto econômico permanece concentrado principalmente na cadeia do turismo, hotelaria, alimentação e comércio das cidades que recebem os espetáculos.
A comparação entre os dois fenômenos mostra que eventos de natureza diferente produzem impactos distintos sobre a economia.