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Ciência

Einstein: Físico vê possibilidade de enviar sinais para o passado

Físico Brian Greene afirma que pesquisas recentes apontam novas possibilidades dentro da Relatividade Especial e reacendem debates sobre sinais enviados para trás no tempo e universos paralelos
Por O Correio de Hoje
23/06/2026 | 13:55

Mais de cem anos após a publicação das teorias que transformaram a compreensão humana sobre espaço, tempo e gravidade, Albert Einstein continua influenciando pesquisas de ponta na física moderna. Para o físico teórico Brian Greene, professor da Universidade Columbia e um dos principais divulgadores científicos do mundo, as ideias do cientista alemão ainda guardam implicações que podem surpreender até mesmo a comunidade acadêmica.

Autor dos livros O Universo Elegante, O Tecido do Cosmo e Até o Fim do Tempo, Greene estará no Brasil em agosto para participar da Rio Innovation Week. Durante o evento, ele pretende apresentar resultados de pesquisas recentes que revisitam a Teoria da Relatividade Especial.

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Físico teórico Brian Greene, professor da Universidade Columbia, participa de evento no Rio - Foto: divulgação

Segundo Greene, mesmo uma teoria estudada há mais de um século continua oferecendo espaço para descobertas.

“Uma das principais mensagens que levarei é que, mesmo para uma ciência que já existe há mais de cem anos, ainda há novas descobertas à nossa espera. Um trabalho recente que venho desenvolvendo com colegas revisitou a teoria da Relatividade Especial de Einstein, publicada em 1905, e descobrimos algo novo. É algo que Einstein poderia ter feito, mas não fez, e tem a ver com uma estranha possibilidade de que, em certos universos, dentre os quais o nosso, talvez seja possível enviar sinais para trás no tempo.”

De acordo com o pesquisador, essa hipótese não significa necessariamente viagens temporais como as retratadas na ficção científica, mas sugere a existência de atalhos na propagação de sinais através do cosmos.

“Seria possível ter conversas com outras formas de vida sencientes, caso existam. Independentemente da distância, até ter conversas em tempo real. Em outras palavras, existem alguns atalhos na forma como os sinais podem atravessar o cosmo, graças às ideias de Einstein aplicadas em um contexto inovador.”

Sinais poderiam chegar antes de serem enviados

Questionado sobre a relação dessa hipótese com a direção do tempo, tema explorado em seu livro O Tecido do Cosmo, Greene explicou que não se trata de uma inversão completa do fluxo temporal.

“Eu expliquei em ‘O Tecido do Cosmo’ que as leis da física parecem tratar o futuro e o passado da mesma forma do ponto de vista matemático, apesar de a experiência humana os diferenciar.”

Segundo ele, a proposta permite situações curiosas envolvendo a transmissão de informações.

“Trata-se, na verdade, de algo que torna possível enviar um sinal ao meio-dia em Nova York e ele chegar à estrela Alpha Centauri antes do meio-dia correspondente. Se eu tentar enviar um sinal para o espaço e ele for reenviado para mim, sempre retornará depois que eu o envie. No entanto, ele pode chegar ao destino para onde o enviei antes de eu enviá-lo.”

Outro tema abordado por Greene é a chamada Interpretação dos Muitos Mundos, uma das hipóteses mais debatidas da mecânica quântica. A teoria sugere que diferentes resultados possíveis para um evento quântico podem ocorrer simultaneamente em universos distintos.

Segundo o físico, o assunto continua dividindo opiniões dentro da comunidade científica.

“Temos duas situações polarizadas na física atualmente: alguns afirmam que a abordagem de muitos mundos está correta e outros que ela é um completo absurdo, porque, de certa forma, foge da estrutura usual de verificabilidade e testabilidade que exigimos.”

Apesar das divergências, Greene acredita que a hipótese não deve ser descartada.

“A meu ver, devemos manter a abordagem de muitos mundos em nosso arsenal de ideias porque, se encontrarmos algum fenômeno que não possamos explicar com uma abordagem de ‘mundo único’, podemos abrir esse arsenal para tentar avançar.”

Energia escura e o mistério do tempo

Ele cita a Energia Escura como um dos exemplos que desafiam os modelos atuais da física. Segundo o cientista, o valor extremamente pequeno medido para a energia escura tem levado alguns pesquisadores a considerar que múltiplos universos poderiam ajudar a explicar o fenômeno.

Mais de duas décadas após lançar O Tecido do Cosmo, Greene continua refletindo sobre uma das questões mais intrigantes da física: por que percebemos o tempo avançando para o futuro. Segundo ele, algumas hipóteses recentes sugerem que podem existir regiões do universo onde a direção temporal ocorre de forma inversa.

“Talvez a mais interessante seja a de que possa haver uma simetria entre futuro e passado: podem existir regiões onde o tempo realmente corre na direção oposta.”

Apesar disso, ele reconhece que essas ideias permanecem altamente especulativas.

A explicação mais aceita continua ligada às condições iniciais do universo.

“As ideias mais convencionais são muito semelhantes às que abordei no livro, onde imaginamos que o Big Bang, se esse for o início de tudo, foi um começo altamente ordenado. A partir dali, passamos a viver a degradação da ordem.”

Segundo Greene, essa explicação resolve parte do problema, mas abre uma nova pergunta.

“É uma ideia bela e coerente, mas levanta a questão: por que o Big Bang foi tão ordenado?”

James Webb amplia fronteiras da cosmologia

Para Greene, a cosmologia atravessa um período particularmente fértil graças aos avanços observacionais proporcionados por equipamentos como o Telescópio Espacial James Webb.

Ele lembra que a descoberta da aceleração da expansão do universo surgiu a partir da observação de supernovas em galáxias distantes.

“A única razão pela qual sabemos que existe um problema com a energia escura é porque equipes de astrônomos a observaram.”

Segundo ele, essas observações indicam que o universo contém um componente invisível ainda não compreendido.

“Eles viram explosões de supernovas em galáxias distantes, com as quais foi possível determinar que a expansão do universo está se acelerando. Ao tentar entender o que vimos, percebemos que deve existir algum componente escuro que não aparece em nossos telescópios.”

Greene também defende a importância do diálogo entre ciência e filosofia, especialmente em temas relacionados à natureza da realidade. Embora o trabalho cotidiano dos físicos seja dominado por cálculos matemáticos, ele considera indispensável refletir sobre as implicações conceituais dessas descobertas.

“Em uma perspectiva mais ampla, acredito que as implicações filosóficas para a física sejam absolutamente vitais e profundas.”

Entre os temas que mais despertam seu interesse está o debate sobre o livre-arbítrio, uma questão que continua conectando física, filosofia e a compreensão humana da própria realidade.