Maria Bethânia completou 80 anos nesta quarta-feira 18, consolidada como uma das maiores intérpretes da história da música brasileira. Com uma trajetória iniciada profissionalmente em meados da década de 1960, a artista construiu uma obra marcada pela diversidade de repertório, pela força cênica e pela capacidade de transformar composições em interpretações definitivas para diferentes gerações.
Ao longo de seis décadas de carreira, a cantora baiana transitou por múltiplos universos musicais. De compositores ligados à Tropicália a representantes da música sertaneja, passando pelo samba, pela canção popular, pelo rock, pelas trilhas de novelas e pelas manifestações culturais do Nordeste, Bethânia consolidou uma discografia extensa, reconhecida por críticos, músicos e público.

A carreira começou nacionalmente em 1965, quando substituiu Nara Leão no espetáculo “Opinião”, marco da música de protesto no Brasil. No mesmo ano, lançou seu primeiro álbum, que apresentou gravações como “De manhã”, de Caetano Veloso, e “Carcará”, de João do Vale e José Cândido. A interpretação de “Carcará” transformou a jovem cantora de apenas 19 anos em um dos principais nomes da música popular brasileira.
Desde então, Bethânia desenvolveu uma relação artística profunda com compositores que ajudaram a moldar sua trajetória. Entre eles está o irmão, o cantor e compositor Caetano Veloso, autor de algumas das canções mais associadas à sua voz, como “Sol Negro”, “Um Índio”, “Reconvexo”, “Oração ao Tempo”, “Não Identificado”, “Gema”, “Motriz”, “Eu e Água” e “O Leãozinho”.
Outro parceiro recorrente foi Chico Buarque. Entre as interpretações mais celebradas estão “Olhos nos Olhos”, “Baioque”, “Rosa dos Ventos” e “Cálice”, canções que ajudaram a consolidar a dimensão dramática e política presente em parte da obra da cantora.
A lista de autores revisitados por Bethânia também inclui nomes como Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, Gonzaguinha, Roberto Carlos, Adriana Calcanhotto, Chico César e Vanessa da Mata.
Ao longo da carreira, algumas gravações se tornaram especialmente representativas. “Álibi”, composta por Djavan, deu nome ao álbum que, em 1978, tornou-se o primeiro disco de uma cantora brasileira a ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas. No mesmo trabalho, Bethânia registrou “Sonho Meu”, ao lado de Gal Costa, em uma interpretação considerada histórica do samba de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho.
A parceria com Gal Costa, aliás, produziu alguns dos momentos mais marcantes da música brasileira. As duas dividiram os vocais em canções como “Sol Negro”, “Oração da Mãe Menininha”, “Esotérico”, “Sonho Meu” e, décadas depois, em “Minha Mãe”, último registro conjunto lançado antes da morte de Gal, em 2022.
A cantora também manteve uma relação artística duradoura com os integrantes dos chamados “Doces Bárbaros”, grupo formado por Bethânia, Caetano, Gal e Gil. O projeto resultou em gravações antológicas de músicas como “Um Índio”, “Esotérico” e “Atiraste uma Pedra”, além de se tornar um dos capítulos mais importantes da música brasileira dos anos 1970.
O repertório de Bethânia também se caracterizou pela abertura a diferentes estilos musicais. Em 1993, ela lançou um álbum inteiramente dedicado às canções de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Já em 1999 surpreendeu parte do público ao gravar “É o Amor”, sucesso da música sertaneja composto por Zezé Di Camargo.
Na época, a cantora explicou sua escolha em entrevista à Folha de S.Paulo. “Era um momento em que ia fazer um disco olhando para o interior, para a região onde nasci, o Nordeste. É uma canção que sinto que toca toda essa gente do interior. Faz parte do meu pensamento, não está fora de nada”, disse à Folha de S.Paulo.
Outra canção frequentemente associada à artista é “O Que É, O Que É?”, de Gonzaguinha. Trata-se da música mais gravada por Bethânia, segundo dados do Ecad, e presença constante em seus shows.
“Aquela canção eu sempre canto. Termina um show e eu gosto de cantar. Cada vez ela é mais útil, ela me traduz mais e faz melhor efeito, ajuda mais”, afirmou a cantora durante a gravação do espetáculo “Tempo, Tempo, Tempo, Tempo”, em 2006.
Ao lado da força interpretativa, a religiosidade e a ancestralidade sempre ocuparam espaço central em sua obra. Canções como “Iansã”, “As Ayabás”, “Louvação à Oxum”, “Yemanjá Rainha do Mar”, “Salve as Folhas” e “Feita na Bahia” dialogam diretamente com referências do candomblé e das tradições afro-brasileiras presentes em sua formação cultural.
Bethânia também se destacou por transformar textos, poemas e canções em narrativas cênicas. Espetáculos como “Rosa dos Ventos”, “A Cena Muda”, “Brasileirinho”, “Carta de Amor” e “Amor Festa Devoção” ajudaram a consolidar uma linguagem própria que mistura música, teatro, literatura e oralidade.
Mesmo após seis décadas de carreira, a cantora continuou incorporando novas gerações de compositores ao repertório. Nos últimos anos, gravou músicas de artistas como Tim Bernardes, Iza, Xande de Pilares e Adriana Calcanhotto, demonstrando disposição permanente para dialogar com diferentes momentos da música brasileira.
Seu trabalho mais recente de inéditas, “Noturno”, lançado em 2021, trouxe composições como “2 de Junho”, inspirada na morte do menino Miguel, em Recife, e “Prudência”, escrita especialmente para ela por Tim Bernardes.
Em 2024, voltou aos palcos ao lado de Caetano Veloso em uma das turnês mais celebradas do ano. O projeto deu origem a um álbum ao vivo premiado com Grammy e apresentou ao público novas versões para clássicos da carreira dos irmãos.
Aos 80 anos, Maria Bethânia mantém o status de referência da música brasileira. Sua discografia reúne dezenas de álbuns, centenas de gravações e interpretações que atravessaram gerações, consolidando uma obra que permanece entre as mais influentes da cultura nacional.