Um dos líderes nacionais na geração de energia eólica em terra e dono de uma das matrizes elétricas mais renováveis do País, o Rio Grande do Norte vive um novo desafio: transformar sua vocação energética em uma plataforma de desenvolvimento industrial. A discussão, que ganhou força nos últimos anos, vai além da instalação de parques eólicos e solares. O objetivo agora é atrair indústrias capazes de utilizar a energia renovável produzida no Estado como insumo para novos processos produtivos, agregando valor à economia local, gerando empregos qualificados e ampliando a arrecadação.
O tema esteve no centro dos debates realizados durante o Brazil Offshore Wind & Power-to-X (BOWPX), que aconteceu entre os dias 1º e 3 de junho em Natal.

A estratégia tem sido defendida por pesquisadores, empresários, instituições financeiras e gestores públicos como o caminho para que o Estado avance de uma condição de exportador de eletricidade para uma posição mais relevante dentro da chamada economia de baixo carbono.
A tese parte de uma constatação: o Rio Grande do Norte produz hoje muito mais energia do que consome. Segundo o professor Mário Gonzalez, doutor em Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenador do Grupo de Pesquisa Creation, o Estado gera atualmente cerca de 13 gigawatts-hora de energia e consome menos de 2 gigawatts-hora.
Esse desequilíbrio ajuda a explicar um dos principais problemas enfrentados atualmente pelo setor elétrico nordestino: o chamado curtailment, situação em que a geração de energia é interrompida porque a produção supera a capacidade de consumo e de transmissão disponível.
Para os especialistas, a solução não passa apenas pela ampliação das linhas de transmissão, mas também pela criação de novos mercados consumidores dentro do próprio Estado. É nesse contexto que surge a proposta de utilizar a energia renovável como matéria-prima para uma nova etapa de industrialização.
Segundo o pesquisador, a região Nordeste reúne vantagens competitivas difíceis de serem reproduzidas em outras partes do mundo. O potencial potiguar é considerado especialmente favorável por causa das características dos ventos da região. Além da velocidade, fatores como constância e direção contribuem para elevar a eficiência dos parques de geração. “Esses três indicadores fazem com que o Rio Grande do Norte possua uma das melhores qualidades para gerar eletricidade do mundo”, afirmou Gonzalez. Segundo ele, um especialista dinamarquês chegou a definir o Estado como uma “Disneylândia dos ventos” para produção de energia renovável.
O cenário se torna ainda mais promissor quando se considera a futura implantação da energia eólica offshore, produzida em alto-mar.

Da energia ao aço verde
A transformação da energia renovável em insumo industrial abre caminho para setores considerados estratégicos na transição energética global.
Um dos exemplos citados pelo pesquisador é a produção de aço verde. Atualmente, a indústria siderúrgica mundial está entre as maiores emissoras de gases de efeito estufa. A utilização de hidrogênio produzido a partir de energia renovável pode substituir processos mais poluentes e reduzir significativamente as emissões.
“Se for utilizar hidrogênio como meio para descarbonizar suas atividades, ele reduziria o setor siderúrgico em 8% as emissões de CO2 do mundo”, afirmou Mário Gonzalez, no podcast Central Agora RN, disponível no YouTube.
Outra frente considerada promissora envolve a fabricação de fertilizantes nitrogenados. O Brasil é fortemente dependente das importações desse produto, utilizado em larga escala pelo agronegócio. “O Brasil importa 86% dos fertilizantes de fora”, destacou Gonzalez.
A alternativa defendida pelos especialistas consiste em utilizar eletricidade renovável para produzir hidrogênio verde e, posteriormente, amônia verde, principal matéria-prima dos fertilizantes nitrogenados.
Segundo o pesquisador, já existem projetos avançando nessa direção. Um deles é o Green Energy, resultado de cooperação entre Brasil e Alemanha. “Foi assinado um convênio entre o governo brasileiro e o governo alemão, em abril, com um investimento previsto de R$ 12 bilhões para a fabricação de amônia verde”, afirmou.
A expectativa é que empreendimentos desse tipo ajudem a criar uma nova base industrial para o Nordeste, aproveitando a abundância de energia renovável disponível na região.
Gonzalez define esse movimento como uma oportunidade de “neoindustrialização sustentável”, conceito que combina geração renovável, descarbonização industrial e atração de novos investimentos.
A lógica envolve também a criação de cadeias produtivas integradas. O pesquisador cita como exemplo a possibilidade de utilização do minério de ferro extraído no Estado para produção de aço verde, que por sua vez poderia abastecer a fabricação de componentes destinados aos futuros parques eólicos offshore.
Logística
Para que essa transformação ocorra, entretanto, especialistas apontam a necessidade de investimentos em infraestrutura logística e portuária.
Nesse contexto, o Porto-Indústria Verde, projetado para Caiçara do Norte, surge como um dos projetos considerados estratégicos para o futuro econômico do Estado. A proposta prevê a criação de uma estrutura capaz de dar suporte à indústria offshore e às novas cadeias produtivas ligadas ao hidrogênio verde, fertilizantes, siderurgia limpa e combustíveis sustentáveis.
Além da infraestrutura, outro desafio apontado é a formação de mão de obra qualificada. Segundo Gonzalez, universidades e centros de pesquisa já iniciaram um processo de adaptação para atender às demandas da nova economia energética. “Na UFRN, fizemos a transição energética do curso de Engenharia de Petróleo, agora é Engenharia de Energia. Da pós-graduação mesmo, o programa de pós-graduação era Ciência e Engenharia do Petróleo, agora é Programa de Pós-graduação em Energia e Petróleo”, afirmou.