A inteligência artificial está ampliando sua presença em um campo tradicionalmente associado à experiência humana, à reflexão pessoal e à prática religiosa. Aplicativos voltados à espiritualidade têm conquistado espaço entre evangélicos e católicos ao oferecer conteúdos personalizados, orações diárias, comentários bíblicos e respostas para dúvidas sobre fé e doutrina.
Para muitos usuários, essas ferramentas funcionam como incentivo para manter uma rotina de oração e leitura religiosa. É o caso da publicitária Luana Brandão, de 31 anos, natural de Maceió. Evangélica desde a infância, ela se afastou gradualmente da frequência regular às igrejas, mas afirma ter retomado hábitos religiosos por meio de um aplicativo instalado no celular.

Há cerca de um ano, Luana passou a receber diariamente mensagens com orações e reflexões bíblicas.
“Tinha dificuldade para reservar um momento diário para orar e ler a Bíblia e agora resolvi o problema.”
Aplicativos como Hallow, Glorify e Magisterium AI estão entre os principais representantes desse segmento. As plataformas utilizam recursos tecnológicos para enviar conteúdos personalizados, incluindo trechos das Escrituras, comentários religiosos, orações e referências a pensadores cristãos.
O crescimento desse mercado tem no Brasil um de seus principais motores. O país já ocupa a posição de segundo mercado mais lucrativo para esse tipo de aplicativo, atrás apenas dos Estados Unidos.
O potencial é impulsionado pelo tamanho da população religiosa brasileira. De acordo com o Censo de 2022, o país possui cerca de 47 milhões de evangélicos, grupo que representa 27% da população. Os católicos correspondem a 57% dos brasileiros.
Entre as plataformas mais populares está o Hallow, que ultrapassou a marca de 4,8 milhões de downloads no Brasil desde sua chegada ao país, em 2022.
Dados da empresa de inteligência de mercado AppMagic apontam que apenas entre janeiro e abril de 2026 o aplicativo gerou receita de aproximadamente US$ 400 mil, o equivalente a cerca de R$ 2 milhões. O valor inclui assinaturas, compras internas e desbloqueio de recursos adicionais oferecidos aos usuários.
Outro destaque é o Glorify, lançado em 2021. A plataforma apresenta índices de retenção considerados elevados quando comparados a outros aplicativos da categoria estilo de vida.
Segundo a AppMagic, dos quase dez milhões de aparelhos que já baixaram o aplicativo, cerca de 4% ainda mantinham o programa instalado após três meses de uso. Como parâmetro de comparação, o Strava, aplicativo voltado ao acompanhamento de atividades físicas, registrou retenção de 6% no mesmo período.
Já o Magisterium AI, voltado ao público católico, contabilizou cerca de 30 mil downloads desde seu lançamento, em setembro de 2025. A plataforma pertence à Longbeard, empresa responsável pela digitalização de arquivos da Igreja Católica e da Santa Sé.
Além dos aplicativos especializados, os grandes modelos de inteligência artificial também passaram a incorporar recursos relacionados à espiritualidade. O ChatGPT, desenvolvido pela OpenAI, disponibiliza um modelo chamado faithGPT, voltado para conversas sobre temas religiosos.
Já o Gemini, sistema criado pelo Google, permite criar conteúdos com temática espiritual, incluindo ensaios visuais baseados em fotografias pessoais e montagens que colocam usuários ao lado de figuras religiosas, como Jesus.
Para a engenheira Heloisa Moraes, de 44 anos, essas ferramentas se tornaram uma fonte prática de consulta. Católica e frequentadora da Paróquia São Francisco de Assis, na Vila Mariana, em São Paulo, ela instalou recentemente o Magisterium AI.
“Se eu tenho dúvida sobre uma passagem bíblica, ou se quero saber como a Igreja trata de um assunto polêmico, como o casamento gay, pergunto para o aplicativo e ele responde com base nos documentos do Vaticano”, diz ela.
Segundo Heloisa, a plataforma ajudou a reduzir a desconfiança que ela mantinha em relação aos sistemas de inteligência artificial.
“Como o aplicativo foi treinado só com documentos da Igreja Católica, acredito que não esteja contaminado por conteúdo laico”, afirma.
A engenheira também utiliza o recurso para auxiliar na preparação de aulas de catequese.
Apesar da boa aceitação dos aplicativos voltados à fé, muitos usuários estabelecem limites claros para o uso da tecnologia na vida espiritual. Entre os entrevistados, existe consenso de que a inteligência artificial pode servir como ferramenta de consulta e aprendizado, mas não deve ocupar o espaço reservado à relação pessoal com Deus.
Luana Brandão afirma que não utilizaria a tecnologia para produzir suas próprias orações.
“Soaria absurdo pedir para a IA montar uma oração”, diz.
Heloisa compartilha da mesma visão.
“Eu me sentiria como quem pede para o ChatGPT escrever um cartão de Dia das Mães para a própria mãe”, afirma.