No centenário de nascimento de Marilyn Monroe, celebrado neste 1º de junho, a imagem eternizada pelo vestido branco esvoaçando sobre a saída do metrô já não basta para resumir a atriz que atravessou o século XX e permaneceu como uma das figuras mais reconhecidas da cultura pop mundial. Retrospectivas em cinemas, exposições internacionais, livros e a redescoberta de arquivos pessoais recolocam em evidência uma personagem menos cristalizada: a de Norma Jeane, mulher que tentou escapar do papel de fantasia fabricado por Hollywood.
A estrela de filmes como Os Homens Preferem as Loiras, O Pecado Mora ao Lado e Quanto Mais Quente Melhor continua sendo celebrada em mostras especiais ao redor do mundo. No Brasil, o Museu da Imagem e do Som recebe a “Mostra Marilyn Monroe — 100 anos”, enquanto o Estação Net Gávea exibe a retrospectiva “Quanto mais Marilyn melhor!”. Em comum, as programações buscam apresentar uma atriz mais ampla do que a caricatura da “loira burra” que marcou parte de sua trajetória nos estúdios americanos.

A permanência de Marilyn no imaginário coletivo está diretamente ligada à contradição entre a persona pública e a mulher que existia por trás dela. A atriz conseguiu permanecer relevante porque tentou romper com os papéis superficiais que lhe eram oferecidos.
A revisão sobre Marilyn ganha força justamente em um momento em que materiais inéditos ajudam a reconstruir sua trajetória sob outra perspectiva. Fotografias feitas pelo fotojornalista Allan Grant para a revista Life, poucos meses antes da morte da atriz, mostram uma figura menos ensaiada e distante do glamour controlado pelos estúdios. As imagens integraram a exposição “Marilyn: a última entrevista”, acompanhadas de registros raros e relatos sobre os últimos meses da atriz.
Ao lado das fotografias, entrevistas, cartas, poemas e anotações pessoais passaram a ocupar espaço central nas discussões sobre sua vida. Obras como Love, Marilyn, dirigido por Liz Garbus, e o livro Fragmentos ajudaram a desmontar a imagem restrita ao símbolo sexual. Nos textos, surge uma mulher interessada em literatura, teatro e filosofia, leitora de autores como James Joyce, Albert Camus e Ernest Hemingway.
A força de Marilyn também revela uma diferença entre a lógica do estrelato no século passado e a cultura de celebridades contemporânea. Nascida em Los Angeles, em 1926, Marilyn cresceu entre orfanatos e famílias temporárias. Filha de mãe solteira e pai desconhecido, casou-se aos 16 anos antes de iniciar carreira como modelo e ser descoberta pela indústria cinematográfica. O contrato com a 20th Century Fox transformou Norma Jeane em Marilyn Monroe — e consolidou uma das imagens mais lucrativas da história de Hollywood.
O sucesso veio rapidamente com Niagara e consolidou-se em produções que exploravam sua sensualidade como principal atributo comercial. Ao mesmo tempo, a atriz buscava reconhecimento artístico, estudava dramaturgia com Lee Strasberg e criou a própria produtora em tentativa de conquistar maior autonomia na carreira.
A vida pessoal também foi absorvida pela lógica do espetáculo. Os casamentos com Joe DiMaggio e Arthur Miller e a histórica interpretação de “Happy Birthday, Mr. President” para John F. Kennedy ajudaram a ampliar sua presença para além do cinema.
Mesmo após a morte, em 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, Marilyn continuou sendo reelaborada pela cultura pop. O artista Andy Warhol transformou seu rosto em símbolo da arte contemporânea na série de serigrafias criada nos anos 1960. Em 2022, a obra Shot Sage Blue Marilyn tornou-se a peça do século XX mais cara já leiloada, vendida por US$ 195 milhões.
Entre fotografias inéditas, cartas, filmes e depoimentos, Marilyn reaparece menos como fantasia e mais como uma mulher em conflito permanente com a própria imagem — alguém que tentou negociar espaço, inteligência e autonomia dentro de uma indústria que preferia transformá-la apenas em sex symbol.