Responsáveis pela maior parte das mortes registradas no Brasil, as doenças cardiovasculares continuam cercadas por desconhecimento quando o assunto é prevenção. Um levantamento realizado pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) mostra que boa parte da população não associa espontaneamente fatores clássicos de risco, como hipertensão arterial, colesterol elevado e diabetes, ao desenvolvimento de problemas graves como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
As doenças cardiovasculares são atualmente a principal causa de morte no País. Estimativas indicam que aproximadamente 400 mil brasileiros morrem todos os anos em decorrência dessas condições. Apesar da elevada incidência, a pesquisa revela que fatores amplamente reconhecidos pela comunidade médica ainda não fazem parte da percepção da população sobre os riscos à saúde do coração.

Os resultados foram antecipados à reportagem do Pulsa e serão apresentados oficialmente durante o 46º Congresso da Socesp, realizado nesta semana na cidade de São Paulo.
O levantamento identificou diferenças entre homens e mulheres na forma como os riscos cardiovasculares são percebidos. Entre os homens entrevistados, a alimentação inadequada apareceu como o principal fator associado a doenças do coração, citada por 32% dos participantes. Em seguida vieram o sedentarismo, mencionado por 26%, o estresse, com 23%, e o tabagismo e consumo de álcool, apontados por 19%.
Entre as mulheres, o estresse ocupou a primeira posição entre os fatores espontaneamente relacionados ao risco cardiovascular. O item foi citado por 35% das entrevistadas. Na sequência apareceram alimentação inadequada, com 28%, sedentarismo, com 20%, e fatores genéticos ou histórico familiar, mencionados por 17%.
Embora essas condições também possam contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, especialistas chamam atenção para a ausência de fatores considerados centrais na literatura médica, como hipertensão arterial, colesterol elevado e diabetes.
Para o cardiologista Andrei Sposito, diretor científico da Socesp, a forma como as pessoas percebem os riscos cardiovasculares está fortemente ligada àquilo que conseguem observar ou sentir em sua rotina. Segundo ele, o estresse aparece frequentemente entre as respostas porque faz parte da experiência cotidiana da maioria da população e seus efeitos costumam ser facilmente percebidos.
“As pessoas sentem os efeitos do estresse emocional e conseguem relacionar imediatamente hábitos alimentares ao bem-estar. Já a hipertensão ou o colesterol alto, por exemplo, dependem de diagnóstico e acompanhamento médico. Como muitas vezes não provocam dor ou sintomas, acabam gerando uma falsa sensação de segurança.”
O especialista explica que hipertensão, colesterol elevado e diabetes estão entre os principais fatores associados ao surgimento de infartos e AVCs, mas frequentemente evoluem durante anos sem manifestações evidentes. Essa característica contribui para que muitas pessoas deixem de realizar exames preventivos ou subestimem a importância do acompanhamento médico regular.
De acordo com Sposito, existe uma tendência de associar problemas cardíacos apenas a fatores perceptíveis no dia a dia, como fadiga, má alimentação ou situações de estresse intenso, enquanto condições silenciosas acabam ficando em segundo plano.
“Muitas pessoas associam o risco cardíaco apenas ao que conseguem notar no dia a dia, como cansaço ou má alimentação, mas ignoram fatores que se desenvolvem de forma lenta ao longo dos anos.”
Outro dado que chamou atenção dos pesquisadores foi a baixa lembrança da obesidade e do sobrepeso entre os fatores associados ao risco cardiovascular. A percepção reduzida contrasta com a realidade observada no País. Atualmente, cerca de 60% dos brasileiros estão acima do peso considerado ideal, condição que está diretamente relacionada ao aumento das chances de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Para Andrei Sposito, o resultado é motivo de preocupação porque revela uma possível naturalização do excesso de peso na sociedade brasileira.
“A obesidade é uma doença crônica diretamente associada ao aumento do risco cardiovascular. Ela favorece hipertensão, diabete, inflamação sistêmica e alterações metabólicas importantes.”
Na avaliação do cardiologista, o fato de a obesidade não surgir espontaneamente entre as principais respostas demonstra um distanciamento entre o conhecimento científico e a percepção popular sobre os fatores que realmente ameaçam a saúde.
Segundo ele, há uma “desconexão entre o que a ciência reconhece como ameaça à saúde e aquilo que a população efetivamente percebe como risco”.
Para os especialistas, os resultados da pesquisa reforçam a necessidade de ampliar ações de conscientização e educação em saúde, tornando mais acessíveis informações relacionadas à prevenção de doenças cardiovasculares.
Embora o conhecimento científico sobre os principais fatores de risco esteja consolidado há décadas, transformar essas informações em mensagens compreensíveis para a população continua sendo um desafio.
“Existe uma dificuldade histórica em transformar o conhecimento científico em uma linguagem acessível.”
A avaliação é de que a prevenção depende não apenas da existência de informações técnicas, mas também da capacidade de fazer com que a população reconheça fatores silenciosos, como hipertensão, colesterol alto e diabetes, como ameaças reais à saúde.
Com cerca de 400 mil mortes registradas anualmente por doenças cardiovasculares no Brasil, especialistas defendem que o combate a esses fatores de risco passa pela ampliação do diagnóstico precoce, do acompanhamento médico regular e de campanhas capazes de aproximar a população do conhecimento científico já consolidado sobre a prevenção de infartos, AVCs e outras doenças cardiovasculares.