O lançamento do filme-concerto de Billie Eilish reacendeu um fenômeno que vem ganhando força nos cinemas de todo o mundo: a transformação das salas de exibição em extensões dos grandes shows musicais. Em cartaz desde o início deste mês, “Billie Eilish – Hit Me Hard and Soft: The Tour in 3D” levou fãs a cantar, dançar, gritar e registrar as sessões com celulares erguidos diante da tela, reproduzindo comportamentos típicos de apresentações ao vivo.
A própria cantora incentivou a participação do público. Em suas redes sociais, Billie Eilish compartilhou vídeos mostrando admiradores pulando e cantando durante as exibições. Posteriormente, em entrevista à rádio Capital FM durante a pré-estreia do longa em Londres, a artista pediu desculpas pela movimentação intensa nas salas, mas observou que esse tipo de comportamento se tornou comum desde que os registros de turnês passaram a ocupar espaço cada vez maior nas programações dos cinemas.

O crescimento desse mercado nos últimos anos chamou a atenção não apenas da indústria musical, mas também dos principais estúdios, distribuidoras e redes exibidoras. O interesse se intensificou especialmente após o sucesso de duas produções lançadas em 2023, que ajudaram a consolidar os filmes-concerto como um segmento de grande potencial comercial.
O principal marco dessa expansão foi “Taylor Swift: The Eras Tour”. Lançado em novembro de 2023, o filme registrou a turnê da cantora norte-americana e alcançou uma arrecadação mundial de US$ 261,6 milhões, tornando-se o filme-concerto de maior bilheteria da história. O desempenho colocou a produção à frente de lançamentos tradicionais do cinema, superando títulos como “Wish – O Poder dos Desejos”, da Disney, e “As Marvels”, além de ultrapassar arrecadações de obras dirigidas por cineastas consagrados.
No Brasil, o impacto também foi expressivo. Segundo dados da Comscore Movies, o filme arrecadou R$ 7,9 milhões e levou 186 mil espectadores aos cinemas. Em algumas sessões, o envolvimento dos fãs ultrapassou a simples exibição do filme. Em São Paulo, por exemplo, houve até pedido de casamento durante uma apresentação.
O sucesso chamou a atenção das exibidoras. Para Samara Vilvert, gerente de marketing da rede Cinesystem, a experiência demonstrou a capacidade dos cinemas de reproduzir parte da atmosfera dos grandes eventos musicais. “Foi disruptivo. A gente vendeu muito ingresso em poucos minutos”, afirma. “Se há tantos shows que esgotam rápido, por que não replicar isso nas salas de cinema para alcançar mais público?”
Meses antes do fenômeno envolvendo Taylor Swift, outro artista já havia demonstrado o potencial desse mercado. Em fevereiro de 2023, o grupo sul-coreano BTS lançou “BTS: Yet to Come in Cinemas”, registro de sua última apresentação antes de uma pausa nas atividades. O filme arrecadou US$ 51,6 milhões mundialmente.
No Brasil, a produção vendeu 182 mil ingressos e somou R$ 6,9 milhões em bilheteria. O desempenho chamou atenção por ter sido alcançado em apenas sete dias de exibição, período significativamente menor que o normalmente destinado aos lançamentos convencionais. Filmes tradicionais costumam permanecer várias semanas em cartaz.
Especialistas apontam que a expansão desse segmento está diretamente relacionada ao aumento da demanda por experiências coletivas após a pandemia de Covid-19. Com a retomada dos eventos presenciais, artistas e fãs passaram a buscar novas formas de reviver a experiência dos shows.
O k-pop se tornou um dos principais motores desse crescimento. Desde 2023, foram lançadas 38 produções relacionadas ao gênero no Brasil. Muitas dessas exibições ocorrem em sessões únicas e sincronizadas internacionalmente, criando uma sensação de evento exclusivo e simultâneo semelhante à de um show ao vivo. O próprio BTS voltou recentemente aos cinemas com a gravação de sua turnê.