O presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, Ezequiel Ferreira (PSDB), confirmou que a governadora Fátima Bezerra (PT) pediu várias vezes o apoio dele à pré-candidatura de Cadu Xavier (PT) ao Governo do Estado. Em entrevista à Rádio Rural de Caicó, porém, Ezequiel enfatizou que o pedido, por mais insistente que seja, ainda não virou compromisso.
O deputado reconheceu a boa relação com Fátima, classificou o diálogo com a governadora como marcado por cordialidade e amizade, mas estabeleceu uma trava política: o PSDB só tomará posição depois de ouvir suas lideranças. “A governadora sempre pede”, afirmou, ao admitir os apelos em favor de Cadu. Em seguida, ponderou que, na política, nem sempre é possível atender a todos os pedidos.

A fala recoloca o PSDB no centro do tabuleiro estadual. O partido presidido por Ezequiel é hoje uma das peças mais cobiçadas da eleição de 2026. Cadu quer o apoio para dar mais musculatura à chapa governista. Álvaro Dias (PL), ex-prefeito de Natal, tenta atrair setores tucanos para fortalecer o campo de oposição mais identificado com o bolsonarismo. Allyson Bezerra (União), ex-prefeito de Mossoró e pré-candidato ao Governo, também monitora o movimento de Ezequiel, especialmente porque parte de aliados municipais do PSDB já demonstra simpatia pelo projeto liderado por ele.
Ezequiel, porém, evita se deixar capturar por qualquer dos lados. Na entrevista, afirmou que não descarta nenhum dos três principais pré-candidatos ao Governo. Disse que todos têm méritos e que o partido decidirá, no momento adequado, qual caminho considera melhor. O recado é direto: o PSDB não será empurrado para a chapa de Cadu apenas porque o governo deseja, nem se apressará para anunciar apoio antes de medir o impacto da decisão sobre sua nominata proporcional.
“Não, não tem tendência. Eu não posso ter tendência sem escutar os demais membros de partido. Eu terei uma tendência depois de escutar os membros. Aí terei uma posição. Em política, a gente precisa ter uma posição”, enfatizou.
Esse é, na prática, o centro da estratégia de Ezequiel. Embora a disputa pelo Governo concentre as atenções, a prioridade real do PSDB é eleger uma bancada expressiva na Assembleia Legislativa. O presidente da Casa afirmou que o partido caminha para eleger cinco deputados estaduais e pode até surpreender com uma sexta vaga, a depender do desempenho dos principais puxadores de votos. Ele citou a própria candidatura, a da deputada Cristiane Dantas, a do presidente da Câmara de Natal, Eriko Jácome, além de nomes como Taveira Júnior, Gustavo Soares, Flávio de Berói, Júlia Almeida e Expedito Ferreira de Souza.
A composição majoritária, portanto, será decidida a partir da conta proporcional. Ezequiel sabe que um apoio mal calibrado ao Governo pode desorganizar bases locais, afastar lideranças e comprometer a eleição de deputados estaduais. Por isso, tem repetido que ouvirá prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, pré-candidatos e demais integrantes da legenda antes de fechar posição.
Na entrevista à Rádio Rural, em Caicó, Ezequiel também deixou claro que o PSDB não é um bloco homogêneo. Citou Gustavo Soares, ex-prefeito de Assú, como exemplo de liderança que já chegou ao partido com compromisso assumido com o grupo da governadora Fátima. Ao mesmo tempo, reconheceu que outros nomes da legenda têm compromissos com grupos diferentes. Para ele, esses acordos locais precisam ser respeitados.
Esse modelo de liberdade interna já foi adotado pelo PSDB em 2022. Naquele ano, parte dos deputados tucanos votou em Fátima Bezerra para o Governo, enquanto outra parte apoiou o adversário Fábio Dantas. Ezequiel relembrou esse histórico para justificar a possibilidade de nova divisão em 2026. Segundo ele, quem entra no partido com compromissos anteriores não pode ser constrangido por uma decisão imposta de cima para baixo.
“Eu não faço política com ódio. Não faço política com ideologismo ao ponto de não poder conversar com a direita, não conversar com a esquerda. Eu sempre fui político de centro. Nunca fui extremista. Quem me conhece sabe. Ninguém consegue ser presidente da Assembleia 12 anos se você não tiver articulação política, se não souber ouvir as posições antagônicas”, declarou o tucano.
A cautela também atinge a especulação sobre a vaga de vice na chapa de Cadu. Nos bastidores, o governismo ainda alimenta a expectativa de atrair o PSDB oferecendo espaço na majoritária, e o nome mais comentado é o de Milena Galvão, vice-prefeita de Currais Novos e irmã de Ezequiel. O presidente da Assembleia, no entanto, esfriou a tese. Disse que a imprensa especula mais do que efetivamente aconteceu e afirmou que não há nome definido nem conversa concluída sobre composição.
Ezequiel observou que a chapa de Allyson já está fechada, assim como a de Álvaro estaria encaminhada. No caso de Cadu, apontou que a vaga de vice segue como o principal espaço em aberto, já que os nomes ao Senado no campo governista são Samanda Alves (PT), vereadora de Natal, e Rafael Motta (PDT), ex-deputado federal. Ainda assim, ressaltou que o PSDB pode apoiar uma chapa sem necessariamente ocupar vaga nela. A participação direta dependerá do entendimento interno do bloco.
A posição reforça o perfil que Ezequiel tenta projetar: um político de centro, avesso a radicalismos e disposto a conversar com todos. Ele fez questão de dizer que mantém relação com lideranças de diferentes campos, citando Fátima, o vice-governador Walter Alves (MDB) e os senadores Rogério Marinho (PL), Styvenson Valentim (Podemos) e Zenaide Maia (PSD). Também lembrou 2022, quando votou em Fátima para o Governo e em Rogério para o Senado, mesmo pressionado por lados opostos para assumir candidaturas majoritárias.
Ao resistir à pressão por Cadu, Ezequiel não rompe com Fátima. Pelo contrário, preserva a ponte. Mas também não entrega o PSDB ao governismo antes da hora. Sua força está justamente na espera. Quanto mais indefinido permanece, mais valorizado se torna.
O prazo político corre até as convenções partidárias, entre o fim de julho e o início de agosto. Até lá, Ezequiel pretende observar pesquisas, medir a competitividade das chapas, ouvir a nominata e calcular qual aliança oferece melhor condição para o PSDB ampliar sua bancada. A decisão, quando vier, terá peso sobre a disputa pelo Governo. Por enquanto, a mensagem é uma só: Fátima pediu, Cadu espera, mas Ezequiel ainda não fechou.