O professor da Universidade de Teerã Mohammad Marandi, analista político próximo à Guarda Revolucionária do Irã e a setores da linha-dura do regime iraniano, afirmou que o Brasil é um “país fraco” e declarou não esperar qualquer papel relevante do governo brasileiro na tentativa de mediação do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.
As declarações foram dadas em entrevista à Folha de S.Paulo em meio à escalada militar no Oriente Médio e às negociações de cessar-fogo entre Teerã e Washington. Filho de Alireza Marandi, médico da família do aiatolá Ali Khamenei morto nos ataques iniciais da guerra, Mohammad Marandi também atuou na guerra entre Irã e Iraque e integrou ainda adolescente a Basij, organização paramilitar subordinada à Guarda Revolucionária.

“Não acho que o Brasil possa fazer muito. Não conseguiu impedir os EUA de ocuparem a Venezuela. O Brasil é um país fraco, não é como o Irã”, afirmou Marandi. “Eu esperaria que o Brasil fosse diferente. Mas os EUA podem invadir Cuba e o Brasil não fará nada. Não temos expectativas sobre o Brasil.”
As declarações ocorrem em um momento de forte tensão geopolítica e risco crescente para o fluxo global de energia. Durante a entrevista, Marandi afirmou que o Irã manterá controle indefinido sobre o estreito de Hormuz, rota estratégica para o transporte mundial de petróleo.
“Quando você está no controle, você faz as regras, e se houver países hostis ao Irã, eles serão tratados de forma diferente dos países que não são hostis”, declarou. Segundo ele, a medida seria necessária para impedir que o Golfo Pérsico se torne “um reduto militar contra o Irã”.
O professor também acusou os Estados Unidos de ataques deliberados contra civis iranianos, incluindo o bombardeio a uma escola em Minab, em fevereiro, que matou 175 pessoas. “Eles sabiam que aquilo era uma escola. Queriam atingir aquelas crianças porque talvez fossem filhos de oficiais militares e queriam dar uma lição”, afirmou. “Estamos lidando com bárbaros.”
Marandi descartou ainda qualquer possibilidade de o Irã transferir seu estoque de urânio enriquecido para terceiros países, uma das exigências americanas nas negociações diplomáticas. “O Irã não vai abrir mão de seu urânio enriquecido para nenhum terceiro país”, disse.
Segundo ele, tanto o direito iraniano de enriquecer urânio quanto as condições de cessar-fogo passaram a ser consideradas “linhas vermelhas” pelo governo iraniano. “Estamos preparados para voltar à guerra por isso”, afirmou.
Questionado sobre o impacto econômico do conflito e da inflação de alimentos acima de 100% no país, Marandi afirmou que o Irã resistirá “indefinidamente” à pressão econômica. “Esta é uma luta pela nossa sobrevivência. Não há espaço para complacência, não há espaço para recuar”, declarou.
Ele também voltou a minimizar a capacidade diplomática brasileira, mesmo reconhecendo críticas feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos e às ações israelenses em Gaza. “Seu presidente é uma boa pessoa, ele critica [os EUA], mas não vai fazer nada”, disse.
As declarações foram feitas no mesmo dia em que as Forças Armadas dos Estados Unidos bombardearam posições no sul do Irã durante o cessar-fogo em vigor entre os dois países. Segundo o Pentágono, os ataques tiveram caráter preventivo e miraram lançadores de mísseis e embarcações que tentavam posicionar minas marítimas na região do estreito de Hormuz.
“O objetivo foi proteger soldados americanos”, afirmou o Comando Militar Central dos EUA, responsável pelas operações no Oriente Médio.
Autoridades americanas ouvidas pela Fox News afirmaram, sob condição de anonimato, que uma base iraniana teria tentado atingir caças dos Estados Unidos, o que provocou a reação militar. Embarcações iranianas que se dirigiam ao estreito de Hormuz para instalar minas também teriam sido destruídas.
Até o fechamento da edição, o governo iraniano não havia comentado oficialmente os ataques, e permanecia indefinido o impacto da nova ofensiva sobre as negociações diplomáticas entre Washington e Teerã.
O presidente americano, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira que um eventual acordo com o Irã precisará ser “excelente e significativo” ou não haverá acordo. Já o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou que Washington dará “todas as chances à diplomacia” antes de considerar outras alternativas.
Em paralelo à escalada militar, o governo iraniano anunciou a retomada parcial do acesso internacional à internet após 87 dias de bloqueio quase total da rede no país. Segundo a imprensa estatal iraniana, a medida foi determinada pelo presidente Masoud Pezeshkian.
O mecanismo de reabertura ainda não foi detalhado pelas autoridades iranianas. Durante o período de bloqueio, apenas parte da população conseguia acessar a internet por meio de redes privadas virtuais (VPNs), segundo o observatório NetBlocks.