O aumento dos afastamentos de trabalhadores por transtornos mentais e comportamentais fez a saúde emocional ganhar espaço nas normas de segurança do trabalho no Brasil. A partir da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), os riscos psicossociais passam a integrar oficialmente os fatores que devem ser identificados, monitorados e administrados pelas empresas.
A mudança ocorre em meio ao crescimento das licenças relacionadas a ansiedade, burnout, depressão e outros transtornos associados ao ambiente profissional. Sobrecarga, pressão por metas, jornadas exaustivas, assédio moral e relações abusivas no trabalho estão entre os fatores apontados como causadores de adoecimento psicológico.

Dados do Ministério da Previdência Social mostram que somente em 2025 foram concedidos 546.254 benefícios a trabalhadores afastados por transtornos mentais e comportamentais. O número inclui licenças laborais relacionadas tanto a fatores internos quanto externos ao ambiente de trabalho e representa aumento de quase 16% em relação ao ano anterior.
Segundo cálculo da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), os gastos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) com esses afastamentos chegaram a aproximadamente R$ 1 bilhão. Os quadros mais recorrentes entre trabalhadores brasileiros foram ansiedade e episódios depressivos. As mulheres concentraram a maior parte dos benefícios concedidos, correspondendo a 63,5% dos registros.
Uma pesquisa da consultoria Mercer Marsh Benefícios, realizada com empresas de diferentes setores e cerca de 5 milhões de funcionários, apontou crescimento de 23 bilhões de afastamentos ligados à saúde mental entre 2022 e 2025. Nesse período, os transtornos psicológicos passaram a ocupar a terceira posição entre as principais causas de ausência no trabalho.
A nova regra estabelece que empresas deverão incluir os riscos psicossociais em seus programas de gerenciamento de riscos ocupacionais. A norma prevê identificação de fatores ligados à organização do trabalho, dinâmica das equipes, ritmo de produção, relações hierárquicas e condições emocionais dos empregados.
Para especialistas da área de recursos humanos e saúde ocupacional, a medida tende a ampliar a pressão para que empresas adotem mecanismos de prevenção e acompanhamento da saúde mental dos funcionários. A obrigação de implementar a gestão de riscos psicossociais é vista como positiva tanto para trabalhadores quanto para empregadores. A avaliação é de que ambientes organizacionais mais saudáveis podem reduzir afastamentos, rotatividade e queda de produtividade.
“A NR-1 obriga as empresas a revisarem carga e ritmo de trabalho, metas e práticas de liderança. Ajuda a atacar as causas na raiz do absenteísmo, e deve elevar o engajamento e a produtividade, fortalecendo a sustentabilidade do negócio”, diz Luiz Rafael Bezerra, consultor sênior de Saúde Ocupacional da Mercer. Além dos impactos sobre produtividade, a atualização da norma também pode provocar reflexos financeiros para empresas.