O pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Robério Paulino fez uma das críticas mais duras até agora ao ex-prefeito de Natal e também pré-candidato ao Governo Álvaro Dias, ao responsabilizá-lo pelos problemas registrados na Praia de Ponta Negra após a obra de engorda.
Em entrevista ao programa Roda Livre, da TV Futuro, o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e ex-vereador de Natal disse que Álvaro pode ser chamado de “destruidor de Ponta Negra” e afirmou que a intervenção foi executada de forma apressada, irresponsável e com cálculo eleitoral. A obra foi realizada entre o fim de 2024 e o início de 2025.

Robério disse que chegou a ser contra a engorda, mas depois se convenceu de que a obra poderia ser feita. A ressalva, segundo ele, está na forma como o projeto foi conduzido pela gestão de Álvaro.
“A engorda era possível, mas não do jeito que foi feito”, afirmou.
Para o pré-candidato do Psol, a obra foi feita de maneira “açodada” para beneficiar politicamente o sucessor de Álvaro na Prefeitura do Natal, o atual prefeito Paulinho Freire.
“Álvaro Dias eu não sei se chamo de destruidor dos sete mares ou destruidor de Ponta Negra”, ironizou Robério. “Eu, há alguns anos, era até contra. Depois, me convenci que era possível fazer a engorda, mas não do jeito que foi feito. De forma irresponsável, que destruiu o principal cartão-postal de Natal”, disse.
A crítica ocorre em meio a uma sequência de questionamentos técnicos, judiciais e políticos sobre a obra. Depois da ampliação da faixa de areia, a área passou a registrar alagamentos recorrentes em períodos de chuva, especialmente no trecho próximo ao Morro do Careca.
No início de maio, o Ministério Público Federal entrou com ação civil pública contra o Município de Natal para cobrar obras emergenciais e a reestruturação do sistema de drenagem da praia. O MPF apontou que o acúmulo de água depois da engorda gera riscos à saúde pública, prejuízos ao turismo e danos ambientais. A ação também menciona a possibilidade de agravamento da erosão e de redução da vida útil da faixa de areia ampliada.
Entre os pedidos feitos à Justiça, o MPF solicitou que a Prefeitura execute obras emergenciais em até 30 dias, faça limpeza e desobstrução semanal de bocas de lobo e dissipadores, isole áreas consideradas de risco, inclusive na base do Morro do Careca, e suspenda novas licenças urbanísticas na região até que o problema da drenagem seja definitivamente solucionado.
A obra também entrou no radar dos órgãos de controle. O Tribunal de Contas da União (TCU) abriu auditoria para investigar a execução da engorda de Ponta Negra, realizada com recursos federais durante a gestão de Álvaro Dias. A apuração mira aspectos da execução do aterro hidráulico e dos contratos relacionados à intervenção.
No Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCE), uma representação pede apuração de supostas irregularidades na obra e cita Álvaro Dias, o então secretário municipal de Infraestrutura, Carlson Gomes, e a atual secretária da pasta, Shirley Cavalcanti. Segundo a denúncia, teriam ocorrido danos ao erário municipal e violação a princípios da administração pública.
Robério também criticou o custo adicional que, segundo ele, a atual gestão terá de assumir para corrigir problemas deixados pela obra. Isso acontece após a Prefeitura do Natal anunciar uma nova intervenção de drenagem em Ponta Negra, orçada em R$ 21 milhões, com licitação marcada para 27 de maio. O projeto prevê a implantação de reservatórios subterrâneos de infiltração para reduzir os chamados espelhos d’água formados na faixa de areia após chuvas fortes.
“Isso é piada, brincadeira. E nas próximas chuvas desses próximos dois meses, que ainda vai chover muito, o que vai acontecer ali?”, questionou.
A Prefeitura do Natal tem defendido a obra e nega que os alagamentos representem falha estrutural. A gestão municipal afirma que os espelhos d’água fazem parte do funcionamento do sistema de drenagem em chuvas mais intensas e que os dissipadores foram instalados para reduzir a velocidade da água antes de sua chegada ao mar. Mesmo assim, a própria administração anunciou obras complementares para ampliar a capacidade de retenção e infiltração da água da chuva na região.
Outras críticas e propostas
Na entrevista, Robério ampliou a crítica política a Álvaro. Além da engorda, classificou o ex-prefeito como “candidato de direita radical” e “bolsonarista radical”. Disse que Álvaro apoiou o ex-presidente Jair Bolsonaro e afirmou que a população não pode esquecer a condução do País durante a pandemia de Covid-19. Para o pré-candidato do Psol, Álvaro representa no Rio Grande do Norte o mesmo campo político que ele pretende combater nacionalmente.
O professor também mirou o ex-prefeito de Mossoró e pré-candidato ao Governo Allyson Bezerra. Robério disse respeitar o chapéu de couro usado por Allyson, por sua origem ligada ao campo, mas afirmou que o adversário ainda não apresentou conteúdo programático.
“Eu respeito muito o chapéu de couro dele, porque meu pai também foi camponês. Mas eu quero saber se tem alguma coisa embaixo do chapéu. Me parece que não tem nada”, provocou.
Robério cobrou de Allyson compromissos concretos em áreas como educação, meio ambiente e desenvolvimento econômico. Citou como exemplos propostas que diz defender, como acabar com o analfabetismo em dois anos, elevar para pelo menos 50% o número de escolas estaduais em tempo integral e plantar milhões de árvores nativas e frutíferas no Estado.
“Eu não escutei até agora nenhuma proposta concreta dele”, afirmou.
Allyson é hoje um dos principais nomes da disputa estadual. A última pesquisa Exatus, divulgada pelo jornal AGORA RN, mostrou o ex-prefeito de Mossoró liderando em 7 das 11 regiões do Estado, com desempenho mais forte no interior, enquanto Álvaro aparece mais competitivo em Natal. O levantamento reforça a centralidade dos dois nomes no campo de oposição ao governo Fátima Bezerra.
Robério, porém, afirmou que não vê diferença substantiva entre Álvaro e Allyson. Para ele, os dois representam candidaturas de direita. O professor disse que Allyson tenta se apresentar como candidato de centro porque sabe que parte expressiva do eleitorado potiguar vota em Lula, mas lembrou que o ex-prefeito de Mossoró está filiado ao União Brasil, partido que Robério classificou como integrante do campo conservador.
O pré-candidato do Psol também avaliou o ex-secretário da Fazenda Cadu Xavier, nome escolhido pelo Partido dos Trabalhadores para a disputa pelo Governo. Robério disse considerar Cadu uma figura simpática e afirmou respeitar os companheiros petistas, mas cobrou que ele reconheça os erros da gestão Fátima Bezerra. Para ele, Cadu não pode fazer campanha apenas defendendo o legado da governadora.
“Cadu é um candidato muito simpático. Agora estão colocando Cadu de Lula, Cadu de Lula. Ele vai ter que decidir se é o Cadu de Lula ou o Cadu de Fátima”, disse Robério.
Segundo ele, o petista precisa admitir problemas como o baixo desempenho educacional do Estado, o analfabetismo elevado, a baixa presença de escolas em tempo integral e a política de incentivos fiscais do governo estadual.
Cadu tem apresentado a gestão Fátima como principal ativo político da pré-campanha. Em entrevista recente, afirmou que o governo da petista foi o melhor do Rio Grande do Norte nos últimos 20 anos. Robério discorda dessa leitura e diz que o candidato do PT precisa reconhecer falhas antes de pedir continuidade.
Na entrevista, o professor afirmou que o Rio Grande do Norte precisa de propostas estruturais, não apenas de disputa de imagem entre os principais candidatos. Disse que pretende levar aos debates temas como industrialização, geração de empregos, erradicação do analfabetismo, valorização dos professores, preservação ambiental, crédito para pequenos empreendedores, fortalecimento de cooperativas e revisão das grandes isenções fiscais.
Robério também criticou a política de atração de empresas por meio de renúncia fiscal. Segundo ele, o Estado deixa de arrecadar cerca de R$ 300 milhões por ano com benefícios concedidos a grandes empresas, enquanto alega falta de recursos para reajustar salários de professores e servidores. Para ele, o RN deveria identificar centenas de produtos que poderiam ser fabricados localmente, como água sanitária, xampu, sabonete, muçarela, fertilizantes e biocombustíveis.
Apesar de se colocar no campo da esquerda, Robério também fez críticas ao PT e ao governo Lula. Disse discordar da lógica do arcabouço fiscal, que, segundo ele, estrangula universidades federais como a UFRN. Mesmo assim, afirmou que, no plano nacional, votará em Lula para impedir a volta da “extrema direita” ao poder. Para ele, a disputa nacional tende a se refletir no Rio Grande do Norte, com um embate entre projetos de esquerda e de direita.
Ao final, Robério disse que sua campanha terá estrutura menor que a dos adversários, mas prometeu fazer diferença nos debates.
“Nós vamos apresentar propostas ousadas, soluções reais para os problemas concretos que vocês não vão ver dos demais candidatos”, afirmou.