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Política

Aliados de Flávio temem mais revelações

Integrantes do PL avaliam que maior dano foi a omissão do senador sobre sua relação com Daniel Vorcaro e admitem quebra de confiança na pré-campanha
Por O Correio de Hoje
14/05/2026 | 15:34

A revelação de mensagens e áudios que mostram o senador Flávio Bolsonaro pedindo recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro provocou apreensão entre aliados do pré-candidato à Presidência da República. Segundo interlocutores ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo, o episódio gerou uma sensação de quebra de confiança, sobretudo porque Flávio havia afirmado, em conversas reservadas e também publicamente, que não mantinha relação com o empresário.

A principal preocupação no entorno do senador não é propriamente o pedido de financiamento para o filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas o fato de o parlamentar não ter informado previamente seus aliados sobre o vínculo com Vorcaro.

Flávio foto Ton Molina Senado
Integrantes da campanha do senador falam em tentativa de “assassinato de reputações” e atribuem a divulgação a vazamento da PF Foto: Ton Molina / Senado

Na avaliação de lideranças do Partido Liberal, o conteúdo revelado pelo The Intercept Brasil é menos grave do que as suspeitas que recaem sobre o senador Ciro Nogueira, investigado sob a suspeita de receber pagamentos mensais de R$ 300 mil para atuar em favor do Banco Master no Congresso. O senador nega as acusações.

O desgaste, segundo aliados, decorre da contradição entre o discurso público de Flávio e as mensagens em que ele trata Vorcaro com intimidade, chamando-o de “irmão” e mencionando encontros particulares, inclusive um jantar na residência do banqueiro.

Correligionários afirmam que, se tivessem sido informados com antecedência sobre o patrocínio ao filme, poderiam ter preparado uma estratégia de resposta para minimizar o impacto da revelação. Em vez disso, foram surpreendidos pela publicação e tiveram dificuldade para articular uma reação coordenada, inclusive nas redes sociais.

Um deputado do PL ouvido reservadamente avaliou que Flávio deveria ter tornado pública a relação com Vorcaro assim que o escândalo envolvendo o Banco Master veio à tona, destacando que o financiamento do filme teria ocorrido de forma contratual e sem uso de recursos públicos.

Nos bastidores, a avaliação é de que a imagem de Flávio como alguém que omitiu informações pode se tornar um obstáculo difícil de superar. Segundo um aliado, a impressão deixada é a de que “se ele escondeu isso, pode ter escondido muito mais”.

Apesar do desconforto, o entendimento predominante no partido é que o episódio, isoladamente, não inviabiliza a candidatura e pode perder força até outubro, especialmente se outros políticos também forem implicados no caso.

No momento, a pré-campanha segue mantida e não há discussão formal sobre substituição do nome de Flávio Bolsonaro. Entre parlamentares da base bolsonarista mais distantes da cúpula partidária, porém, existe receio de que novas revelações comprometam de forma mais severa a candidatura e abram espaço para a migração de eleitores para outros nomes do campo conservador, como o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema.

Até então cotado para compor a chapa como vice, Zema endureceu o discurso após a divulgação das conversas e classificou a conduta do senador como “imperdoável” e “um tapa na cara dos brasileiros de bem”.

Já o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado cobrou explicações de Flávio sobre a relação com Vorcaro, mas posteriormente divulgou vídeo defendendo a união da centro-direita e afirmando que o objetivo central deve ser derrotar o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Aliados do senador sustentam que não houve ilegalidade no pedido de patrocínio, destacando que a operação não envolveu dinheiro público nem qualquer contrapartida política. Argumentam ainda que, à época dos contatos, Daniel Vorcaro não era visto como figura tóxica no meio político e empresarial.

Integrante do grupo responsável pela atuação digital da campanha, o deputado federal Carlos Jordy afirmou que o episódio não deve comprometer o desempenho eleitoral do senador.

“Não há ilegalidade em pedir um financiamento, principalmente quando não se tem acesso à Lei Rouanet. Lula e [Michel] Temer também tiveram filmes financiados por Vorcaro”, declarou.

No entorno de Flávio, o episódio é tratado como parte de uma estratégia de desgaste político. Integrantes da campanha falam em tentativa de “assassinato de reputações” e atribuem a divulgação do material a um suposto vazamento seletivo da Polícia Federal, responsável pela perícia nos aparelhos apreendidos com Daniel Vorcaro.