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Economia

Desigualdade socioeconômica sobe no RN, mas renda aumenta

Economista Arthur Néo afirma que concentração de renda, dependência do setor público e baixa capacidade de geração de empregos qualificados explicam cenário potiguar
Redação
13/05/2026 | 05:14

O Rio Grande do Norte alcançou em 2025 a maior renda domiciliar per capita do Nordeste pelo terceiro ano consecutivo, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE). O rendimento mensal real domiciliar per capita no estado chegou a R$ 1.779, crescimento de 9,41% em relação ao ano anterior e avanço superior à média nacional. Apesar do desempenho, os números revelam uma contradição estrutural: o Estado permanece entre os mais desiguais do País, com Índice de Gini de 0,540, o terceiro maior do Brasil.

Para o economista Arthur Néo, vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Norte (Corecon/RN), a liderança regional da renda média não representa distribuição equilibrada da riqueza. “A renda média elevada não significa que a renda esteja bem distribuída. O RN possui uma forte concentração de renda em determinados grupos e regiões, especialmente vinculados ao setor público, aposentadorias de maior valor e segmentos econômicos específicos”, afirma. Segundo ele, uma parcela reduzida da população concentra rendimentos muito acima da média, enquanto grande parte permanece em situação de vulnerabilidade social.

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Economista Arthur Néo durante palestra em conferência realizada em Natal - Foto: Reprodução/Redes sociais

Os dados do IBGE mostram que os 10% mais ricos do Estado recebem, em média, 16,3 vezes mais do que os 40% mais pobres. Enquanto a faixa mais vulnerável possui rendimento médio mensal de R$ 754, o grupo de maior renda alcança R$ 7.897 mensais. Já o 1% mais rico da população registra renda domiciliar per capita média de R$ 20.047.

Arthur Néo avalia que a estrutura econômica potiguar ainda depende fortemente de fontes de renda desvinculadas da atividade produtiva privada. “O principal fator é a forte participação das rendas não diretamente vinculadas ao mercado produtivo privado, especialmente funcionalismo público, aposentadorias e pensões”, afirma. Segundo ele, o Estado possui elevada dependência econômica do setor público, sobretudo em municípios do interior, onde aposentadorias e benefícios sociais funcionam como sustentação do comércio local e da circulação de renda.

O levantamento aponta que 33,6% da renda domiciliar per capita do Rio Grande do Norte têm origem em fontes como aposentadorias, pensões e programas sociais. Desse total, 24% correspondem a aposentadorias e pensões, enquanto 6,3% são provenientes de programas de transferência de renda. Para o economista, o problema não está na existência desses mecanismos, mas na dependência excessiva deles como principal motor econômico. “Quando uma parcela significativa da renda depende de transferências governamentais, isso demonstra que a economia local ainda não consegue gerar emprego e renda suficientes através da atividade produtiva”, diz.

Outro dado que chama atenção é o peso reduzido do trabalho na composição da renda das famílias potiguares. Em 2025, apenas 66,4% da renda domiciliar per capita vieram do rendimento do trabalho, o terceiro menor percentual do país, atrás apenas de Piauí e Alagoas. Para Arthur Néo, isso revela limitações históricas do mercado de trabalho local. “Esse dado mostra que o mercado de trabalho potiguar possui baixa capacidade de geração de renda. Significa que os salários e rendimentos do trabalho têm um peso relativamente pequeno na composição da renda das famílias”, afirma.

Segundo ele, o cenário é resultado da combinação entre elevada informalidade, baixa produtividade, pouca industrialização e concentração econômica em atividades de menor valor agregado. “Também evidencia uma economia pouco dinâmica do ponto de vista da geração de empregos qualificados e de maior valor agregado”, acrescenta.

Apesar do avanço recente em setores como energia renovável, turismo, comércio e serviços, Arthur Néo avalia que o modelo econômico do Estado ainda não consegue gerar empregos de qualidade em escala suficiente para reduzir desigualdades. “O desafio não é apenas crescer, mas crescer gerando empregos formais, qualificados e melhor remunerados”, afirma. Para ele, segmentos como petróleo e gás, energia eólica, agronegócio irrigado, setor imobiliário e parte do funcionalismo público concentram grande parte da renda estadual. “São setores que geram valor econômico relevante, mas cuja renda tende a ficar concentrada em grupos empresariais específicos ou profissionais altamente qualificados.”

O economista defende que o Rio Grande do Norte precisa avançar na diversificação produtiva, na industrialização e no fortalecimento de pequenas e médias empresas para democratizar o acesso à renda. “O RN precisa transformar crescimento em mobilidade social, permitindo que mais pessoas participem efetivamente da geração de riqueza do estado”, afirma. Segundo ele, investimentos em educação básica, qualificação profissional, infraestrutura logística e redução da informalidade são centrais para reduzir a desigualdade estrutural.

Os dados da PNAD Contínua também mostram forte impacto da escolaridade sobre a renda no estado. Trabalhadores com ensino superior completo receberam, em média, R$ 6.613 por mês em 2025, valor três vezes superior ao rendimento médio de quem possui apenas ensino médio, estimado em R$ 2.127. Já trabalhadores sem instrução tiveram rendimento médio de R$ 939, com queda de 15,63% em relação ao ano anterior.

Mesmo diante das desigualdades, o Estado registrou recordes históricos na massa de rendimento domiciliar, que alcançou R$ 6,145 bilhões, e no rendimento médio do trabalho, que ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 3 mil mensais. Para Arthur Néo, os avanços mostram potencial econômico, mas também evidenciam o principal desafio potiguar. “Hoje, o desafio do RN não é apenas aumentar renda, mas democratizar o acesso à renda e às oportunidades econômicas”, resume.