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Política

Walter acusa governo de esconder crise

Vice-governador diz que desistiu de assumir o Executivo após descobrir rombo fiscal, dívida dos consignados e falta de transparência nas contas do Estado
Por O Correio de Hoje
08/05/2026 | 15:38

O vice-governador Walter Alves (MDB) afirmou que recusou assumir o Governo do Rio Grande do Norte porque, ao analisar as contas do Estado, concluiu que herdaria uma crise fiscal que, segundo ele, vinha sendo minimizada pela gestão Fátima Bezerra (PT). Em entrevista à 96 FM, Walter disse que houve “quebra de confiança” com o governo e acusou a administração estadual de não ter apresentado com transparência a real dimensão dos problemas financeiros que cairiam sobre ele caso assumisse o Executivo.

Walter Alves afirmou que sempre teve o sonho de governar o Estado e que chegou a aceitar, em princípio, a possibilidade de assumir o cargo. Segundo ele, no entanto, a decisão dependia de conhecer a situação real das contas públicas. O vice-governador disse que não participava do núcleo de gestão, não integrava o comitê gestor e, quando assumia interinamente o governo por poucos dias, não tinha poder efetivo de decisão.

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Walter Alves afirmou que desistiu de assumir o Governo do RN após concluir que herdaria uma grave crise fiscal e acusou a gestão estadual de minimizar problemas financeiros Foto: José Aldenir

“Quem é que não quer ser governador do Rio Grande do Norte? Eu sonhei com isso. Trabalhei, estudei, fui candidato a vice-governador com esse objetivo”, declarou. Em seguida, acrescentou que precisava ter acesso aos dados antes de tomar a decisão definitiva. “Eu disse, topo. Agora eu preciso conhecer a situação do Estado.”

De acordo com Walter, o governo passou a repassar informações oficiais, e ele reuniu auxiliares que atuaram nas gestões de Garibaldi Alves Filho para analisar os números. O diagnóstico, segundo ele, foi de que a situação era “muito delicada”. A partir daí, afirmou ter sido alertado de que assumiria o governo por poucos meses, mas sairia com desgaste profundo, carregando problemas acumulados ao longo da gestão petista.

O ponto mais grave, segundo Walter, foi a forma como o governo teria tratado a dívida dos consignados. Ele contou que perguntou diretamente sobre o assunto em uma reunião com integrantes da administração estadual e ouviu que se tratava de uma dívida pequena, que estaria sendo resolvida. No entanto, disse que já havia recebido informação de um parlamentar de que o valor ultrapassava R$ 360 milhões.

“Minimizaram para mim. Eu vi que não estava existindo confiança. Quebrou a confiança”, afirmou. Para Walter, esse episódio mostrou que ele poderia ser levado a assumir o governo sem conhecer toda a extensão da crise. “Numa relação como essa, tem que ter confiança. Então, eu não vou arriscar a história do meu pai, a minha história, o meu passado.”

O valor citado por Walter foi posteriormente reconhecido pelo próprio governo em discussão na Assembleia Legislativa. Em março, o então secretário estadual da Fazenda, Carlos Eduardo Xavier, informou à Comissão de Finanças e Fiscalização que o passivo com consignados somava R$ 363,3 milhões, referentes ao período de maio de 2023 a março de 2026. Na ocasião, a gestão atribuiu os atrasos à frustração de receitas em 2025, calculada em R$ 474,5 milhões, e disse que priorizou o pagamento da folha e obrigações constitucionais.

Walter Alves também citou indicadores fiscais para justificar a decisão de não assumir o governo. Ele afirmou que o Rio Grande do Norte está entre os estados em pior situação fiscal do país e disse que os dados não representam uma “narrativa” política, mas informações oficiais. “É a narrativa do Tesouro Nacional”, declarou.

Dados divulgados pelo Tesouro Nacional em outubro de 2025 apontaram que o Rio Grande do Norte comprometeu 55,73% da Receita Corrente Líquida ajustada com despesas de pessoal no segundo quadrimestre daquele ano. O percentual ficou acima do limite de 49% previsto pela Lei de Responsabilidade Fiscal para o Poder Executivo.

Na entrevista, Walter disse que o Estado chegou a virar de 2025 para 2026 com um rombo de R$ 3 bilhões e poderia acumular mais dívidas no exercício seguinte. Ele também mencionou atrasos com fornecedores, terceirizados e médicos, além das cobranças de servidores por reajustes e nomeações.

O vice-governador afirmou que, caso assumisse, passaria a ser responsabilizado por todos esses problemas. “Eu assumiria e teria que ser conivente, porque a partir daí eu tinha conhecimento e o cidadão ia dizer o seguinte: você assumiu porque quis”, disse. Em outro momento, resumiu a situação em tom mais duro: “Eu vi que a bomba estava caindo no meu colo. Eu peguei a bomba e disse: pega pra tua.”

Walter também negou a acusação de que teria traído um acordo político feito em 2022 para suceder Fátima Bezerra. Segundo ele, a possibilidade de assumir o governo era uma consequência natural da chapa, mas não havia garantia formal de que seria candidato à sucessão. O vice-governador afirmou ainda que o MDB foi esvaziado dentro da administração desde o início da gestão, tendo ficado apenas com a Secretaria de Recursos Hídricos.

O rompimento foi oficializado em janeiro, quando Walter comunicou a Fátima que não assumiria o Governo do Estado em caso de renúncia dela para disputar o Senado e que o MDB passaria a caminhar, no plano estadual, com o grupo liderado por Allyson Bezerra. Dias depois, a aliança foi consolidada com a indicação do deputado estadual Hermano Morais para a vaga de vice na chapa de Allyson, movimento que deslocou Walter definitivamente para o campo de oposição ao projeto estadual do PT.

“A minha relação era institucional ao extremo. Nada cresce ao lado do PT”, disse. Segundo Walter, durante o período em que esteve na vice-governadoria, sua principal atuação se deu em Brasília, por meio da articulação com lideranças nacionais do MDB para liberar recursos ao Rio Grande do Norte.

Ele revelou ainda que comunicou ao governo, em outubro, que não assumiria a gestão. Walter disse que ele e Garibaldi Filho apresentaram o diagnóstico feito sobre as contas, informaram a decisão e optaram por não expor o conteúdo naquele momento porque o orçamento ainda seria votado. Segundo ele, o governo teria ignorado o aviso e depois passado a divulgar a versão de que a comunicação ocorreu apenas no fim do processo.

Apesar das críticas, Walter disse que o Rio Grande do Norte tem solução. Para ele, o problema não é falta de potencial econômico, mas ausência de gestão. O vice-governador citou como caminhos a compensação previdenciária, venda de terrenos públicos, concessões, parcerias público-privadas e enxugamento da máquina.

“O Estado é muito rico. Tem petróleo, tem gás, tem energia eólica, solar, hidrogênio verde, pescado, minério, tem 400 quilômetros de turismo. O que falta agora é gestão”, afirmou. Segundo ele, o próximo governador precisará enfrentar desgaste inicial para reorganizar as contas. “Vai ter dois anos e meio de desgaste, depois passa.”

Na entrevista, Walter também tratou da reorganização do MDB após o rompimento com o governo. Ele disse que o partido montou uma nominata competitiva para deputado estadual e trabalha com a meta de eleger três parlamentares. O vice-governador afirmou que o MDB tem história, base política e capilaridade no interior, e citou o legado das gestões de Garibaldi Filho, especialmente nas áreas de adutoras, Programa do Leite e capacidade de investimento.

Walter Alves também confirmou que houve tentativa de tirar o comando do MDB de suas mãos no Rio Grande do Norte, mas evitou nominar os responsáveis. “Tentaram, mas não conseguiram”, afirmou.