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Política

PF faz operação contra Ciro Nogueira

Investigação sobre suposto esquema de corrupção e lavagem de dinheiro levou a buscas em endereços do senador; defesa nega irregularidades
Por O Correio de Hoje
07/05/2026 | 16:16

Segundo a PF, uma das linhas investigativas aponta que o senador teria recebido valores operacionalizados por Felipe Vorcaro, primo do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Felipe foi alvo de prisão temporária durante a operação.

De acordo com os investigadores, Felipe Vorcaro teria atuado em uma parceria “ligada aos pagamentos mensais em favor do senador, correspondentes, inicialmente, ao valor de R$ 300 mil, com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil”.

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Senador do Piauí receberia mesada de R$ 500 mil do dono do Master Foto: Lula Marques / Agência Brasil

Ao divulgar a operação, a Polícia Federal afirmou, em nota, que a nova etapa busca aprofundar as apurações sobre um suposto esquema de corrupção e lavagem de dinheiro relacionado ao banco.

No total, estão sendo cumpridos dez mandados de busca e apreensão, além da prisão temporária de Felipe Vorcaro. A investigação tramita sob relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.

A decisão do ministro também autorizou o bloqueio de bens e contas bancárias no valor de R$ 18,8 milhões.

Segundo a decisão de Mendonça, uma das suspeitas envolvendo Ciro Nogueira diz respeito à apresentação de uma emenda legislativa que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

A proposta ficou conhecida no mercado financeiro como “emenda Master”. Segundo a investigação, a medida teria potencial para favorecer diretamente o Banco Master em um momento em que, conforme a PF, a instituição já enfrentava dificuldades para sustentar a estrutura financeira apontada pelos investigadores como fraudulenta.

Na decisão, Mendonça afirma que “o texto da emenda foi (i) elaborado pela assessoria do Banco Master, (ii) encaminhado por André Kruschewsky Lima [ex-executivo do Master] a Daniel Vorcaro, (iii) impresso e entregue em envelope endereçado a ‘Ciro’, no endereço residencial do senador”.

O documento acrescenta que, “ainda de acordo com a Polícia Federal, o conteúdo da versão entregue é ‘reproduzido de forma integral pelo parlamentar’ ao Senado, tendo Vorcaro afirmado, logo após a publicação da proposta de Emenda, que o ato legislativo ‘saiu exatamente como mandei’”.

A decisão judicial também menciona diálogos de interlocutores ligados ao banqueiro afirmando que a proposta poderia “sextuplicar” os negócios do Banco Master e gerar uma “hecatombe” no mercado financeiro.

Outro trecho da investigação relata que, em 2023, Daniel Vorcaro teria determinado a retirada de envelopes da residência do senador contendo minutas de projetos de lei considerados de interesse particular do banco.

Segundo a PF, os documentos teriam sido levados a um escritório indicado pelo banqueiro, processados e posteriormente devolvidos a um servidor ligado ao parlamentar por um funcionário de Vorcaro.

Para André Mendonça, os elementos reunidos sugerem que “haveria nos episódios algo que iria além das vias ordinariamente empregadas no âmbito das relações que se estabelecem entre atores políticos e a iniciativa privada”.

A decisão também afirma que Daniel Vorcaro orientou pessoas envolvidas na entrega dos documentos para evitar qualquer vínculo direto entre o material e o senador ou o Banco Master.

“Os investigadores enfatizam que Daniel Vorcaro teve o cuidado de orientar a pessoa responsável por promover a devolução dos documentos, ‘para que o motorista não consiga vincular o transporte do documento ao parlamentar’, bem como para que ‘o envelope utilizado não faça referência ao Banco Master’”, registra o texto.

As investigações ainda apontam suspeitas de pagamento de despesas pessoais atribuídas ao grupo ligado ao banqueiro. Segundo a PF, Ciro Nogueira teria à disposição um “imóvel de elevado padrão”, além de hospedagens, voos em jatinhos para viagens internacionais, restaurantes e outras despesas custeadas pelo esquema investigado.

A defesa do senador negou qualquer irregularidade. Em nota, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirmou que a defesa “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”.

Segundo ele, Ciro Nogueira está disposto a colaborar com as investigações “a fim de esclarecer que não teve qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados, colocando-se à disposição para esclarecimentos”.

O advogado também criticou as medidas adotadas na investigação. “Medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve, assim como ocorreu com o uso indiscriminado de delações premiadas”, declarou.

A defesa de Felipe Vorcaro não foi localizada.