Investigado por suspeitas de fraude, lavagem de dinheiro e compra de influência política para sustentar as operações do banco — posteriormente liquidado pelo Banco Central —, Vorcaro precisará apresentar informações capazes de esclarecer crimes ainda não totalmente conhecidos pelas autoridades, além de concordar com a devolução de valores bilionários.
As negociações também evidenciam uma disputa de protagonismo entre procuradores e policiais federais na condução das tratativas.

Segundo investigadores, desde o fim do ano passado o banqueiro é alvo de apurações sobre tentativas de influência política destinadas a manter o funcionamento do Banco Master, em um escândalo com potencial de atingir integrantes dos três Poderes.
A proposta entregue pela defesa reúne uma série de anexos temáticos descrevendo fatos que Vorcaro estaria disposto a relatar em troca de benefícios legais, como redução de pena ou alteração do regime prisional em eventual condenação.
Cada capítulo aborda um tema específico e aponta supostos participantes dos esquemas investigados, além de indicar meios para confirmação das informações apresentadas. Até o momento, porém, não houve entrega de documentos ou depoimentos formais que comprovem os relatos, etapa que deverá ocorrer caso a PGR e a PF decidam avançar nas negociações.
O avanço ocorre após cerca de um mês e meio de reuniões frequentes entre Vorcaro e seus advogados na Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal, onde o banqueiro está preso desde março. Antes disso, ele permaneceu na penitenciária federal de segurança máxima de Brasília.
Caso o acordo seja aceito pela PGR e pela Polícia Federal, o material ainda precisará ser homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator das investigações envolvendo o Banco Master na Corte. Caberá ao ministro avaliar a legalidade da colaboração.
Nos bastidores, a condução das tratativas também provocou desconforto entre investigadores. Antes da apresentação formal da proposta, a Polícia Federal teria ficado em segundo plano nas negociações, já que a defesa do banqueiro passou a tratar diretamente com integrantes da Procuradoria-Geral da República após a transferência de Vorcaro para Brasília.
Inicialmente, havia expectativa de que a permanência do banqueiro na Superintendência da PF aproximasse Vorcaro dos investigadores e acelerasse as negociações da delação. No entanto, segundo relatos, os advogados passaram a concentrar as conversas diretamente com procuradores. Apesar disso, a primeira versão da proposta foi entregue simultaneamente à PGR e à Polícia Federal.
O episódio remete a outro caso recente envolvendo disputas entre PF e Ministério Público em acordos de colaboração. A delação do empresário Maurício Camisotti, investigado no esquema de fraudes do INSS, precisou ser reiniciada após ter sido negociada exclusivamente com a Polícia Federal, o que gerou questionamentos da PGR. O processo será refeito com participação dos procuradores. Assim como no caso Master, a investigação também está sob relatoria de André Mendonça.
As divergências entre PF e PGR em torno de delações premiadas já ocorreram em outros casos de repercussão nacional, desde a Operação Lava Jato até a colaboração do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Interlocutores da Procuradoria-Geral afirmam que esta é apenas a primeira versão apresentada pela defesa de Vorcaro e ressaltam que, neste momento, o foco está em “analisar a qualidade e a consistência” do conteúdo entregue. Caso as negociações avancem, o banqueiro deverá passar à fase de depoimentos formais.
Os investigadores esperam que Vorcaro detalhe a participação de políticos e integrantes do Judiciário no esquema investigado. As autoridades, no entanto, já sinalizaram que só aceitarão o acordo caso o banqueiro apresente informações inéditas, além do conteúdo já extraído dos celulares apreendidos pela PGR e pela PF desde o fim do ano passado.
Entre os principais interesses da investigação, está o rastreamento das movimentações financeiras realizadas por Vorcaro no exterior.
Advogados que acompanham o caso avaliam que a defesa do banqueiro acelerou a apresentação da proposta após o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, preso na última fase da Operação Compliance Zero, também indicar interesse em firmar um acordo de colaboração.
A legislação exige que delações premiadas produzam resultados concretos para serem homologadas.
A lei também estabelece que as informações fornecidas pelo colaborador precisam ser confirmadas por outras provas. A palavra do delator, isoladamente, não é suficiente para sustentar acusações.
Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, quando tentava embarcar em um jatinho com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Na ocasião, a Polícia Federal entendeu que havia risco de fuga.
Um dia após a prisão do banqueiro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master sob alegação de crise de liquidez e insolvência financeira. A medida desencadeou a maior operação de socorro da história do FGC, com impacto superior a R$ 50 bilhões.
Em fevereiro deste ano, o ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso no Supremo após a Polícia Federal encontrar menções a ele em mensagens armazenadas no celular do banqueiro. André Mendonça assumiu o processo e, em março, determinou a segunda prisão de Vorcaro.