No percurso de quem começou cedo demais para ignorar o chamado da palavra, a escritora e poetisa potiguar Regina Azevedo construiu uma trajetória que mistura impulso, formação acadêmica e permanência. Aos 13 anos, lançou o primeiro livro, “Das vezes que morri em você” (2013), pela Jovens Escribas. Desde então, seguiu publicando e ampliando uma obra que hoje reúne títulos como “Por isso eu amo em azul intenso” (2015), “Pirueta” (2017), “Carcaça” (2021), “Vermelho fogo” (2021) e “Lança chamas” (2021), além da plaquete “Brasil, uma trégua” (2023).
Neste 23 de abril, Dia Mundial do Livro, Regina Azevedo olha para trás sem desassociar a escrita da própria existência. “No início, foi impulso, mesmo. No entanto, eu nunca me vi sem a escrita, então o caminho foi se construindo aos poucos. A minha vida é alicerçada na palavra”, afirmou, em entrevista ao Agora RN. A declaração sintetiza uma relação que não apenas resistiu ao tempo, mas se transformou com ele.

Entre a estreia precoce e a maturidade literária, vieram a graduação em Letras, o mestrado em Literatura Comparada e, agora, o doutorado. A formação acadêmica, segundo ela, não reduziu o encantamento — ao contrário. “À medida que fui lendo mais, me tornei mais crítica. Algumas pessoas tendem a achar que a paixão diminui quando a literatura passa a ser encarada como algo mais sério, mas posso falar apenas por mim: a paixão que sinto quando escrevo e leio, hoje, é ainda maior do que a paixão da menina que declamou os primeiros versos aos 12, 13 anos.”
As influências que ajudaram a moldar esse olhar surgem como referências diretas de leitura. “Entre as primeiras leituras que fizeram minha cabeça, posso destacar Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, e O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger. Os poemas de Chacal, de Carito Cavalcanti, de Ana Cristina Cesar…”, enumera.

Ao revisitar o próprio processo criativo, Regina reconhece tensões entre urgência e elaboração. “Nem sempre eu equilibrei urgência e elaboração. Criticamente, hoje, avalio dessa forma. Mas também não me arrependo de modo algum dos impulsos juvenis que me fizeram publicar tão logo. Todos os impulsos foram carregados de paixão.” “Lança chamas”, por exemplo, apresenta versos curtos, livres, usando o mínimo de pontuação e sem as letras maiúsculas — uma poesia limpa e objetiva.
A trajetória também é atravessada por encontros e incentivos. A autora destaca nomes que contribuíram para sua formação no meio literário e editorial: “Tive o incentivo, pelo qual sou muito grata, de gente muito competente do meio literário e editorial, como Carlos Fialho, Anna Zêpa, Daniel Minchoni, Eveline Sin, Ana Elisa Ribeiro, Marcelino Freire, Chacal, Nicolas Behr…”.
Se a experiência pessoal é marcada pela continuidade, o cenário local ainda impõe limites. Regina chama atenção para a circulação restrita de obras produzidas no Rio Grande do Norte. “Os livros de poetas de Natal e do RN, de modo geral, circulam de forma muito limitada. É preciso comprar direto aos autores ou às editoras, na maioria dos casos.”
Nesse contexto, para ela, a defesa da leitura ganha contornos políticos e culturais. “Em um País fortemente comprometido com uma política de esquecimento e silenciamento, os livros podem, como escreveu Caetano, ‘lançar mundos no mundo’. É preciso que a gente leia e amplie nosso horizonte de sensibilidade e de inteligência.” Entre o impulso inicial e a consciência crítica adquirida ao longo dos anos, Regina Azevedo reafirma, no Dia Mundial do Livro, a literatura como prática de permanência.
A leitura não pede justificativa porque se sustenta na experiência que oferece: a de ampliar o mundo por dentro. Ao abrir um livro, o leitor não apenas consome uma história, mas se desloca, se confronta e se transforma. E talvez seja exatamente isso que ainda faz dos livros um espaço insubstituível — não apenas para escapar da realidade, mas para compreendê-la melhor e, quem sabe, reinventá-la.