Há um momento na carreira de todo artista em que olhar para fora deixa de ser suficiente. Em “Equilibrivm”, seu oitavo álbum de estúdio, Anitta parece fazer o movimento contrário: volta para dentro — e, principalmente, para onde sempre esteve.
Lançado na última quinta-feira 16, o disco chega como um dos projetos mais pessoais da cantora. Mais do que uma coleção de músicas, ele se apresenta como um manifesto íntimo, atravessado por espiritualidade, identidade e uma tentativa consciente de reconexão com as próprias origens. Com 15 faixas, o trabalho foi desenvolvido após o retorno da artista ao Brasil e gravado em seu estúdio no Rio de Janeiro. Há, desde o início, uma proposta clara: menos foco em números e mais compromisso com significado.

Essa mudança de direção se traduz na espinha dorsal do álbum. “Equilibrivm” ecoa crenças pessoais da cantora e mergulha em um sincretismo que reúne referências ao Candomblé, elementos de culturas indígenas e até traços de mantras. Em um contexto de crescente intolerância religiosa no Brasil, a escolha ultrapassa o campo estético e assume também um posicionamento simbólico.
No plano sonoro, o álbum costura samba, funk e reggae com uma roupagem pop, criando uma identidade que permanece acessível, mas sem romper com suas raízes. É uma estratégia que Anitta vem refinando ao longo dos anos, especialmente em projetos como “Ensaios da Anitta”, agora ampliada com a presença de nomes como Marina Sena, Liniker, Luedji Luna, Melly e Ebony.
Nesse primeiro bloco do disco, há uma fluidez orgânica que chama atenção. Existe uma sensação de pertencimento que transforma o álbum em algo vivo, pulsante. “Mandinga”, parceria com Marina Sena, surge como um dos pontos altos. A faixa dialoga diretamente com “Canto de Ossanha”, clássico de Baden Powell e Vinicius de Moraes, utilizando samples e interpolações que não aprisionam a música ao passado, mas ajudam a construir uma nova linguagem, atual e sofisticada.
Nesse primeiro bloco do disco, há uma fluidez orgânica que chama atenção. Existe uma sensação de pertencimento que transforma o álbum em algo vivo, pulsante. “Mandinga”, parceria com Marina Sena, surge como um dos pontos altos. A faixa dialoga diretamente com “Canto de Ossanha”, clássico de Baden Powell e Vinicius de Moraes, utilizando samples e interpolações que não aprisionam a música ao passado, mas ajudam a construir uma nova linguagem, atual e sofisticada.
Esse movimento, no entanto, não chega a comprometer o conjunto. Pelo contrário, reforça uma característica recorrente na trajetória da artista: a tentativa constante de equilibrar identidade e alcance. E quando o álbum retorna ao seu eixo central, ele se mostra ainda mais potente.
“Choka Choka”, parceria com Shakira, é um bom exemplo dessa síntese. A faixa cria um intercâmbio natural entre idiomas e referências, sem perder a espontaneidade. Já “Meia Noite” se destaca como um dos momentos mais interessantes do disco ao explorar o chamado “macumbeats” — a fusão entre funk e elementos de pontos religiosos — em uma construção hipnótica, guiada por percussão e coro.
É nesse território que “Equilibrivm” se revela mais ousado — e, ao mesmo tempo, mais verdadeiro. O álbum também amplia seu repertório ao dialogar com referências da cultura brasileira, incorporando influências que vão de Carmen Miranda a diferentes expressões populares e espirituais. Há uma intenção clara de construir algo que vá além do pop convencional, sem abrir mão da comunicação com o público.
No conjunto, “Equilibrivm” se destaca como um dos trabalhos mais honestos da carreira de Anitta. Um álbum em que a artista não apenas performa, mas se expõe — com suas crenças, suas escolhas e suas camadas. E é justamente nessa exposição que o disco encontra seu maior valor. Quando Anitta se aproxima de quem ela é, a música ganha densidade — ganha textura, intenção e presença.
Não pela busca de perfeição, mas pela entrega. Em “Equilibrivm”, há menos esforço para convencer e mais disposição para revelar. E talvez seja esse o ponto de virada: um trabalho que não tenta provar nada a ninguém, mas que se sustenta pela força de simplesmente ser.