Moda não é só acompanhar tendências, vestir o que está em alta ou se cercar de grandes marcas. Na verdade, a moda é muito mais sobre se expressar, marcar presença e falar sem dizer uma palavra. Para a criadora de conteúdo Suzie Chagas (a @patricinha.alternativa) é assim: a moda é traduzida como expressão de personalidade, é “a forma como você conta, sem palavras, para o mundo quem é você”.
Jornalista por formação e criativa por vida, ela está longe de intitular como “básica” e gosta de buscar autenticidade juntando todas as possibilidades em seu vestuário, inclusive explorando brechós e bazares, conversando com a moda sustentável e os conceitos de upcycling – tópicos que fazem parte do seu conteúdo nas redes.

À Cultue, Suzie disse que é na moda que encontra um grande potencial de interpretação do mundo e da sociedade, especialmente porque essa forma de se expressar atravessa classes sociais, gêneros e raças. Mas a autenticidade vem com um preço, é preciso coragem para, como diz Suzie, “bancar as suas gracinhas”. Para ela, a recompensa disso vai além da visibilidade, que se soma com a paz de ser você mesmo e ter trocas mais verdadeiras.
Confira a entrevista completa de Suzie Chagas à Cultue:
Revista Cultue – Quem é Suzie Chagas? Como se apresenta para o mundo?
Suzie Chagas – Gosto de me apresentar como uma mente criativa ansiosa para descobrir, viver e experimentar o máximo de experiências que o mundo pode oferecer. Eu sou uma entusiasta da vida, de viver no modo radicalmente livre, numa pegada Rita Lee e com uma personalidade que mistura atitude das cantoras Tasha e Tracie com a da Ex-VJ da MTV, Mari Moon.
Tenho 29 anos, sou jornalista por formação e gosto de utilizar a moda como uma forma de expressão e de compreensão do mundo.Não apenas porque esta é a segunda maior indústria do mundo, mas principalmente porque na sociedade moderna em que nós vivemos, somos OBRIGADOS a nos vestir. O que significa que a roupa é uma expressão individual da nossa personalidade. Até quem é “neutro” ou “básico” com relação ao que veste faz uma escolha, e eu como comunicadora vejo um potencial muito grande de interpretação do mundo e da sociedade quando olhamos para a moda sob essa ótica.
Cultue – Como começou a criar conteúdo?
Suzie – Eu crio conteúdo como profissão há mais de 8 anos, desde o primeiro semestre da faculdade faço isso profissionalmente. É totalmente diferente criarmos conteúdos para empresas, instituições, lojas e para nós mesmas.
Tudo começou ano passado, durante a minha transição de carreira em que notei que o meu portfólio enquanto criativa estava muito limitado aos trabalhos mais “sérios” que tive na minha trajetória enquanto jornalista. Senti a necessidade de incrementar com entregas que minha criatividade fosse protagonista e eu pudesse criar o que eu queria, aplicado as estratégias que conhecia, foi daí que comecei a criar conteúdo para o meu perfil @patricinha.alternativa com mais foco e estratégia. Para poder mostrar o meu conteúdo como cartão de visitas para um potencial cliente. A coisa toda tem dado tão certo a ponto do meu perfil dobrar de tamanho em poucos meses, de fechar parcerias com marcas internacionais e até ministrar oficinas e cursos sobre os temas que trato no meu perfil. A criação de conteúdo tem me levado a caminhos que nunca pude imaginar e tomando um protagonismo cada vez maior na minha vida.
Cultue – Qual foi sua maior motivação ou inspiração na criação de conteúdo?
Suzie – A minha maior motivação para criar conteúdo online hoje, no meu perfil, é primeiro criar aquilo que eu gostaria de consumir e que não vejo nas redes. Tenho a ambição também de apresentar uma perspectiva diferente sobre o mundo que nos cerca, através da forma que enxergo a vida e o mundo.
Considero meu ponto de vista muito único e sinto falta dessa autenticidade no digital. As pessoa autênticas estão em extinção, porque ser autêntico leva tempo, maturidade e principalmente coragem de “bancar as suas gracinhas”, é como uma seguidora comentou em um post recentemente “ ser autêntica cobra algumas coisas: você perde aprovação fácil, decepciona expectativas alheias, deixa de caber em certos lugares. Mas em troca ganha algo muito mais valioso: paz de não precisar fingir, relações mais verdadeiras, um magnetismo que atrai quem realmente combina com você”. Uma das minhas motivações também é criar uma comunidade de gente que acredita nisso e que não se vê representada por outras pessoas.
Cultue – A moda vai muito além de acompanhar tendências, para você o que é a moda?
Suzie – Como escrevi na introdução do meu TCC “A moda pode até ser um assunto banal para alguns, mas é incontestável sua presença através das roupas no cotidiano das sociedades urbanas modernas. Neste ponto habita a maior contradição da presença das vestimentas em nossas rotinas: mesmo que na maioria dos dias da nossa existência usemos roupas, pouco ou quase nada refletimos sobre a origem das peças antes destas serem incorporadas ao nosso acervo pessoal.” A palavra moda quando relacionada a vestimenta é muito ampla, mas também muito simples, é um conjunto de códigos expressos através do vestuário. Códigos esses que atravessam classes sociais, gênero e raça. Não importa o lugar, não importa a época, a partir do momento que nas sociedades modernas passamos a dar significado para as roupas elas deixaram de ser só um “pano” que cobre o nosso corpo. Sendo assim, moda para mim é expressão de personalidade, é a primeira impressão, é a forma como você conta sem palavras pro mundo quem é você.
Cultue – Você também fala muito sobre bazares e brechós. Para você, qual a importância de motivar o consumo consciente nesses locais e para além do fast fashion?
Suzie – Somos habitantes de um planeta em situação de ebulição global, não dá pra ignorar isso. Não dá pra ignorar que somos uma das gerações “sortudas” que ainda tem um ar limpo para respirar, mas que está vivendo desmatamentos recordes da Amazônia e acompanhando o crescimento da poluição dos oceanos e aumento de aterros sanitários inclusive de roupas. A indústria da moda é uma das que mais polui o meio ambiente, e não podemos ser insensíveis com relação a isso. No meu conteúdo busco simplificar esse papo todo, mostrando que podemos usar a moda como uma expressão de personalidade e também podemos cuidar do nosso planeta a partir de pensamentos responsáveis sobre aquilo que colocamos em nosso guarda-roupa. O consumo de bazares e brechós é relevante nesse contexto porque escolhemos usar algo que já foi produzido e que não segue tendências, é atemporal e pode ser até de maior qualidade se comparado ao que é vendido em fast fashions e em grandes centros comerciais. O consumo de brechó também impede que as roupas sejam descartadas de formas irregulares, como em aterros sanitários e levem milhares de anos para se decompor. Mostro tudo isso no meu perfil dizendo para as pessoas que dá para ser mais sustentável, gastar menos e ter personalidade incorporando roupas usadas no guarda-roupa.
Cultue – E o preconceito acerca de roupas usadas? Como enfrentar isso?
Suzie – A partir da educação principalmente, a maioria das pessoas que criticam o uso de roupas usadas muitas vezes não se sentem representadas por esse estilo de roupa, e na verdade não tem problema sobre isso, acredito que há espaço para todo o tipo de pensamento, o mundo é muito grande. Não acho que vale a pena “gastar bucha” com quem tem uma opinião formada e preconceituosa, mas acredito principalmente no potencial de apresentar o second hand como uma possibilidade para quem está aberto a isso. É engraçado pensar que na gringa essa cultura da roupa usada é muito disseminada, e uma porta de entrada inclusive para o mercado de luxo. Pessoas de classes mais elevadas usam muito second hand de marcas renomadas como Chanel, Dolce & Gabbana, etc. Na minha família a cultura de dar roupas que não quer ou não servem para outros familiares é bem comum, como na casa de muitas pessoas também é. O negócio é que quando a roupa é bonita, todo mundo aceita, seja ela vinda de um brechó ou de uma loja do shopping.
Cultue – Recentemente você levantou uma discussão sobre preços de roupas em brechós, você acredita que isso também faz parte de um preconceito?
Suzie – Eu acredito que faz parte de uma falta de compreensão das pessoas a respeito da modernização dos brechós na atualidade. Tem muito mais a ver com o fato das pessoas consumirem pouco do second hand e não compreender todo o trabalho envolvido numa curadoria, na dedicação de pessoas para encontrar as peças e vendê-las a um preço justo. Valores elevados em peças de brechó geralmente são peças que carregam história ou marca renomadas e isso soma na conta na hora de colocar o valor na etiqueta. O remédio pra esse pensamento é as pessoas se desafiarem mais a irem em brechós!
Cultue – Para você, qual a melhor parte de fazer conteúdo sobre moda? E a pior?
Suzie – A melhor parte de fazer conteúdo eu acho que é poder me expressar do meu jeito e no fazer amigos no caminho. Quantas vezes as pessoas já me disseram que se sentem representadas pelas coisas que digo ou visto, e que por aqui em Natal isso é raro? Muita gente me incentiva a continuar, gente que eu nem conheço. Fico muito motivada com as pessoas, não é a toa que sou jornalista, gosto das trocas sinceras com pessoas reais, isso as minhas redes tem me proporcionado.