A pouco mais de sete meses das eleições presidenciais, investigações envolvendo o Banco Master e fraudes em descontos no INSS passaram a alimentar a disputa política entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL). Os dois aparecem como principais nomes na corrida ao Palácio do Planalto e já protagonizam uma troca crescente de acusações.
De um lado, integrantes do governo tentam relacionar figuras do campo bolsonarista ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e preso na semana passada. Do outro, a oposição busca explorar suspeitas que envolvem o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, em conexão com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, investigado por um esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados.

O clima de campanha antecipada levou ambos os grupos a intensificar a estratégia de vincular adversários aos escândalos. Integrantes do governo passaram a associar o caso do Banco Master ao período em que Jair Bolsonaro (PL) estava no poder, após avaliarem que a oposição tentaria estabelecer o movimento inverso.
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, tem sido uma das principais vozes nessa linha de ataque. Após a prisão de Vorcaro, ela afirmou que o episódio evidenciaria irregularidades no Banco Central durante a gestão de Bolsonaro.
“Por que será que Campos Neto não agiu contra as fraudes de Vorcaro enquanto era presidente do BC?”, questionou a ministra.
Roberto Campos Neto comandou o Banco Central durante o governo Bolsonaro, período em que o Banco Master foi criado e expandiu suas operações. Próximo ao campo bolsonarista, ele é citado por aliados como possível ministro da Fazenda em um eventual governo liderado por Flávio Bolsonaro. Auxiliares do presidente Lula consideram que relacioná-lo ao escândalo pode enfraquecer sua imagem de gestor econômico. Procurado, Campos Neto não comentou o caso.
Outro alvo da ofensiva governista é o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Após a revelação de que o parlamentar utilizou um avião pertencente a Vorcaro durante a campanha de 2022, aliados de Lula passaram a explorar o episódio como indício de proximidade entre o bolsonarismo e o banqueiro. Nikolas afirma que, na ocasião, não sabia quem era o proprietário da aeronave.
Do lado da oposição, a estratégia é sustentar que o caso também tem conexões com setores ligados ao PT. Um dos alvos de críticas é o ministro da Casa Civil, Rui Costa.
Quando era governador da Bahia, Costa participou do processo de privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo. Em 2018, o ativo foi adquirido pelo empresário Augusto Lima, que havia sido sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, posteriormente liquidado. Rui Costa afirma que a operação foi regular e trouxe benefícios ao estado.
Outro ponto explorado por aliados de Flávio Bolsonaro é um encontro ocorrido em dezembro de 2024 entre Lula e Vorcaro. A reunião não constou da agenda oficial e teria sido intermediada pelo ex-ministro Guido Mantega, que posteriormente passou a atuar como consultor do banco.
“O Lula está envolvido até o pescoço. Recebeu o banqueiro sem dar publicidade ao encontro”, afirmou o líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto (PL-PB).
Bolsonaristas também passaram a destacar mensagens trocadas entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Vorcaro, reveladas recentemente pela imprensa. Moraes, relator de investigações sobre a tentativa de golpe no STF, tem sido um dos principais alvos de críticas do grupo político ligado ao ex-presidente Bolsonaro.
Apesar disso, a principal aposta da oposição para desgastar o governo está em outra investigação: a que envolve suspeitas de relação entre Lulinha e pessoas ligadas ao esquema de fraudes no INSS.
Documentos analisados pela Comissão Parlamentar de Inquérito do INSS indicam que o empresário movimentou cerca de R$ 19,5 milhões em uma conta bancária ao longo de quatro anos. Entre as operações registradas estão três transferências feitas pelo próprio presidente Lula, que somam R$ 721,3 mil. A defesa de Lulinha afirma que todas as movimentações têm origem lícita.
As suspeitas surgiram após a Polícia Federal localizar mensagens trocadas entre uma empresária próxima ao filho do presidente e o “Careca do INSS”.
Para a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), as duas investigações atingem diferentes campos políticos. “O caso Master envolve direita e esquerda. Já o caso Lulinha atinge mais diretamente a esquerda. Se a disputa ficar entre esses dois temas, a direita tende a levar vantagem”, afirmou.