BUSCAR
BUSCAR
História
Sobrevivência nas ruas de Natal: conheça a história de William
Aos 10 anos ele perdeu a mãe, e ficou sob os cuidados do pai que era usuário de drogas. Pouco tempo depois foi morar com uma tia, sentiu-se rejeitado e fugiu de casa para morar na rua
Elias Bernardo
26/02/2021 | 00:09

Viver sem a certeza do pão de cada dia, de um lugar para dormir, até mesmo sem saber se estará vivo no dia seguinte: esses são alguns dos principais problemas de quem vive nas ruas do Brasil e do mundo. Esta é a realidade de William Gomes, de 41 anos, que há mais de 25 anos “mora” nas ruas de Natal e de outras cidades da Região Metropolitana.

“A vida de quem está na rua não é fácil, tem dias que a gente não come, dormimos geralmente debaixo de alguma cobertura, num pedaço de papelão e não sabemos se estaremos vivos no outro dia”, disse William.

Ao Agora RN, ele relatou que aos 10 anos de idade saiu da casa onde morava na capital potiguar, devido à rejeição da família. Na época, após a mãe falecer, William ficou sob os cuidados do pai – que era usuário de drogas. Pouco tempo depois, foi morar com uma tia, mas se sentiu rejeitado, sem receber atenção da família, e acabou fugindo de casa.

Desde então, passou por diversas situações complicadas, mas se adaptou a viver como um andarilho. Passou pelos bairros de Natal, Quintas, Alecrim, Cidade Alta, Ribeira e em cidades como Goianinha, Lagoa Salgada, Monte Alegre e Parnamirim.

Apesar das dificuldades que enfrentou, ele tentou mudar de vida aos 20 anos, ao lado de uma mulher evangélica. Teve um filho com ela, mas foi julgado pelas pessoas devido ao estereótipo e histórico de vida e decidiu voltar para as ruas cinco anos depois.

Hoje, sem contato com a família, para sobreviver nas ruas e ganhar dinheiro, ele cata latinhas pelas avenidas dos bairros da Ribeira e Cidade Alta. Há dois anos, William acordou com a perna esquerda quebrada e foi socorrido às pressas para o Hospital Deoclécio Marques de Lucena, em Parnamirim.

“Eu dormia por lá nesse tempo e acabei bebendo demais no dia anterior e só lembro de me deitar para dormir. Fui acordado pelas pessoas que passavam no local e me ajudaram, até hoje não lembro e não sei quem fez isso, mas carrego 13 pinos na perna”, desabafou.

Com três bermudas, duas camisetas e um lençol, além de um carrinho para guardar as latas e muita esperança, William sobrevive em meio à pandemia da Covid-19. No dia a dia, quando deseja tomar banho, se desloca da Ribeira ou da Cidade Alta até a Praia do Meio.

Ele acredita que a própria situação melhorou com o programa Restaurante Popular, que isentou em 2020 pessoas em situação de rua, refugiados e migrantes de pagar pelas refeições.

“Mas eu só espero que um dia Deus me tire dessa situação, que eu consiga uma casa para morar, uma família”, relatou.

Assegurado pela Constituição Federal de 1988, o direito à moradia é uma competência comum da União, dos Estados e dos Municípios. A eles, conforme aponta o texto constitucional, cabe “promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico”.

A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RN, Mariana de Siqueira, reforça que é imprescindível que os Municípios elaborem políticas públicas, programas sociais e ações com o objetivo de oferecer moradia digna aos cidadãos que não a possuem.

“É cruel observar que existem tantos espaços urbanos vazios, sem ocupação e sem qualquer função social e que igualmente existem na cidade inúmeras famílias sem casa. Não podemos nos esquecer que o direito à moradia se liga a inúmeros outros direitos fundamentais: saúde, vida e educação são exemplos”, analisou.

Sede: Av. Hermes da Fonseca, 384 – Petropolis – Natal – RN – Cep. 59020-000
Telefone: (84) 3027-1690 / 3027-4415
Redação: (84) 98117-5384 - [email protected]
Comercial: (84) 98117-1718 - [email protected]
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.