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Violência
‘Que tipo de emoção me fez apertar o gatilho?’: O crime e o castigo de Elize Matsunaga
Os policiais que procuravam o executivo começaram a suspeitar dela ao analisar as imagens das câmeras de segurança do prédio onde o casal morava com a filha de 1 ano de idade
O Globo
12/07/2021 | 12:11

Os amigos de Marcos Kitano Matsunaga, de 42 anos, haviam combinado um encontro com ele. CEO da marca Yoki, uma das maores companhias de alimentos do país, o paulistano estava afastado dos companheiros desde que se casara com a paranaense Elize Araújo Kitano Matsunaga, de 31 anos. A iniciativa de se reaproximar partira do próprio empresário. Mas, na data marcada, Kitano não apareceu. Os amigos, então, mandaram mensagens brincalhonas dizendo que Marcos havia “furado” com eles. Ninguém poderia imaginar, mas, àquela altura, o executivo havia sido morto pela própria mulher, que esquartejara seu corpo e espalhara os pedaços na beira de uma estrada em Cotia, na Grande São Paulo.

Tema da nova série documental “Elize Matsunaga: Era uma vez um crime”, na Netflix, o assassinato aconteceu na noite de 19 de maio de 2012, mas passaram-se dias até a revelação do caso gerar comoção nacional. Inicialmente, o executivo foi considerado desaparecido. Algumas pessoas desconfiavam que o sumiço pudesse ter relação com as negociações bilionárias para a venda da empresa da família. Sua mulher, para se fazer de inocente, mandou e-mails a pessoas conhecidas, dizendo-se despesperada e perguntando pelo marido. Ela chegou a enviar uma mensagem para o irmão, usando o e-mail da vítima, afirmando que estava bem, mas que não queria falar agora.

 

O empresário Marcos Kitano Matsunaga, morto por sua mulher, em 2012

Enquanto as buscas continuavam, foram descobertos, por acaso, no dia 23 de maio, pedaços do corpo de um homem em Cotia. Não havia como identificar quem era o morto, mas os guardas civis repararam que uma perna estava vestida com uma calça de grife, que na época custava R$ 600, valor próximo ao salário mínimo de então. Nos dias seguintes, foram achadas mais partes do mesmo cadáver, até que, no dia 4 de junho, o corpo foi identificado como sendo de Marcos Kitano Matsunaga.

No dia seguinte, Elize Matsunaga foi presa. Os policiais que procuravam o executivo começaram a suspeitar dela ao analisar as imagens das câmeras de segurança do prédio onde o casal morava com a filha de 1 ano de idade. Nas gravações, é possível ver que, às 19h30 do dia 19 de maio daquele ano, o empresário desce de elevador e, minutos depois, sobe com uma pizza. Às 11h30 do dia seguinte, a mulher foi filmada descendo de elevador com três malas cheias. Como não havia mais nenhuma imagem do marido saindo do prédio, e como o cadáver encontrado em Cotia era de Kitano, os policiais só podiam concluir que Elize levava, nas malas, o corpo do executivo em pedaços. Em depoimento na delegacia, ela confessou o crime.

 

Elize Matsunaga e as malas com partes do corpo do marido, em 2012

– Que tipo de emoção me fez apertar o gatilho? Eu estava sentindo raiva dele, estava com medo e aliviada por não estar louca – conta a autora do crime, durante uma entrevista do documentário da Netflix, que busca humanizar a imagem de Elize. – Respeito a opinião das pessoas. Sei que tem pessoas que entendem o que aconteceu, sei que tem pessoas que me abominam, que me julgam, e tudo bem.

Elize e o Kitano se conheceram em 2004, quando o empresário fez contato com a ex-técnica de enfermagem num site de relacionamentos no qual ela se oferecia como prostituta. O executivo era casado com outra mulher, mas manteve uma relação com a paranaense durante anos, até que decidiu se separar e, em 2009, casou-se com Elize. De acordo com a viúva, que cumpre sua pena de 16 anos na Penitenciária Santa Maria Eufrásia Pelletier, em Tremebé, São Paulo, o casal viveu bem até 2010, quando ela descobriu que o marido a estava traindo. Eles passaram a brigar constantemente. A mulher conta, no documentário, que cogitou se separar, mas desistiu quando descobriu que estava grávida.

– Foi uma coisa que mudou totalmente pra mim. Eu ia ser mãe, eu queria aquilo – diz Elize na série da Netflix. – Quando contei pra ele, ele me pediu perdão, se ajoelhou, disse que não faria mais aquilo.

 

Elize e Marcos Matsunaga durante seu casamento, em 2009

Entretanto, em 2012, quando a filha deles já tinha 1 ano, Elize começou a desconfiar que Kitano estava com outra amante. Segundo ela, quando era confrontando, Kitano reagia agressivo, chamava a mulher de louca, dizia que iria interná-la numa clínica psiquiátrica. A ex-técnica de enfermagem, que àquela altura havia se formado em Direito, contratou um detetive para seguir o marido e, no começo de maio, foi visitar a família em sua cidade natal, Chopinzinho, no Paraná.

Logo na primeira noite da viagem, o detetive ligou para dizer que havia filmado o empresário com uma garota de programa num restaurante japonês que o próprio casal frequentava (as imagens são exibidas na produção do canal de streaming). Quando Elize voltou de viagem, no dia 19 de maio, a família se sentou para jantar, e começou uma discussão.

– Cada vez que eu citava a mulher, ele dizia que eu estava louca. Quando eu disse que sabia de tudo, que tinha contratado um detetive, me deu um tapa no rosto, ele nunca tinha feito aquilo. Ele negava tudo de forma tão extrema e me colocava numa situação de culpada, eu me perguntava: “Será que estou doida mesmo”? – descreve a autora do assassinato. – Só sei que fui pro móvel na outra sala e peguei minha arma. Ele disse: “Atira, sua fraca, atira ou some daqui, vai pro Paraná com a sua família de bosta e deixa minha filha aqui”.

 

Elize Matsunaga e Marcos Kitano no início do relacionamento

 

 

O casal Matsunaga tinha uma coleção de 33 armas. A pistola Imbel, de fabricação nacional, calibre 380, usada no crime, foi um presente do próprio marido. Na manhã seguinte, Elize levou o corpo para o quarto de hóspedes e o esquartejou em sete pedaços usando uma faca de cozinha com lâmina de 30 centímetros. Ela dividiu as partes entre três malas de viagem e colocou no carro. Pretendia dirigir até o Paraná, mas no caminho foi abordada pela Polícia Militar e multada. Decidiu, então, deixar os restos mortais do marido na beira de uma estrada em Cotia.

Na Justiça de São Paulo, a assassina foi condenada a 19 anos, 11 meses e dia de prisão em regime fechado por homicídio qualificado e ocultação de cadáver (em 2019, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reduziu a pena para 16 anos e três meses). Há três anos, Elize está em regime semi-aberto. Ela aproveita as saídas da penitenciária para tentar contato com a filha, hoje com 10 anos. Entretanto, os pais de Marcos Kitano acionaram a Justiça para destituir o poder familiar da bacharel em Direito sobre a menina, que mora com os avós e os chama de pai e mãe. Em casa, a criança é blindada de qualquer informação sobre o assassinato do seu pai.

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