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Mudança
Por que os Estados Unidos não vencem mais as guerras
Fora a Guerra do Golfo em 1991, Washington não obteve nenhuma vitória clara desde 1945. As retiradas no Afeganistão e no Iraque refletem suas dificuldades frente às guerras de guerrilhas
O Globo
03/08/2021 | 17:50

Uma semana antes da queda de Saigon, que marcou o fim da Guerra do Vietnã em abril de 1975, o coronel Harry Summers se reuniu em Hanói com seu homólogo vietnamita, o coronel Tu, para negociações de paz.

— Você sabe que você nunca nos derrotou no campo de batalha — disse Summers.

O coronel Tu ficou pensativo por um momento, e então respondeu:

— Pode ser, mas é irrelevante.

O diálogo exibe o paradoxo vivido pelos Estados Unidos na maioria dos conflitos que aconteceram nas décadas seguintes. O país tornou-se uma superpotência depois de 1945, o indisputável líder global após a queda da União Soviética, e, basicamente, parou de ganhar guerras.

Fora a Guerra do Golfo de 1991, os EUA não ganharam nenhuma guerra importante, clara e indiscutivelmente. A natureza das disputas mudou, e a maioria delas agora são civis, conduzidas por grupos terroristas e diferentes organizações e ramificações, algo pantanoso e difícil de detectar.

Summers, que se tornou um escritor e estudioso até às raias da obsessão daquela guerra maldita, concluiu que seu homólogo estava certo naquele dia. Que, derrotados ou não no campo de batalha, os americanos haviam perdido a disputa de duas décadas, de um modo tão terrível que se transformou até mesmo em um símbolo e em um lema: “Não queremos outro Vietnã.”

Os americanos não queriam outro Vietnã no Afeganistão, não queriam no Iraque, não queriam em nenhuma das guerras que a maior potência mundial iniciou o novo século travando, e que viraram teias de aranha, sem que se seja derrotado, mas tampouco vitorioso, e as quais custa muito abandonar.

No caso afegão, foram duas décadas. As últimas tropas americanas partirão do país no dia 31 de agosto, com o Afeganistão à mercê da cada vez mais forte guerrilha talibã. Com o Iraque, o conflito mais impopular da História americana recente, o presidente Joe Biden concordou nesta segunda-feira em encerrar a missão de combate até o final de 2021, após 18 anos.

São conflitos que terminam sem capitulações nem cerimônias de vitória, onde o inimigo mal é visto e nem sequer veste uniforme. Biden admitiu no caso do Afeganistão que, após 20 anos, não podiam mais esperar resultados diferentes dos obtidos.

— Alguns insistem que este não é o momento de partir — disse ele em um discurso em abril. — Quando seria um bom momento para ir? Daqui a um ano? Em mais dois? Em mais 10 anos? Depois de 10, 20, 30 bilhões de dólares a mais?

O professor de ciência política Dominic Tierney, residente nos Estados Unidos, estudou essa questão em profundidade em “The Right Way to Lose a War: America in an Age of Unwinnable Conflicts” (“A maneira certa de perder uma guerra: Os Estados Unidos em uma era de conflitos que não podem ser vencidos”).

— Os Estados Unidos são muito eficazes para chegar à vitória em guerras entre Estados, e por isso venceram a Guerra do Golfo de 1991. Mas 90% dos conflitos agora são civis, com guerrilheiros, terroristas e insurgentes lutando dentro do mesmo país. Os EUA enfrentam então dificuldades, porque não entendem a política local, nem a dinâmica interna. O Afeganistão é um caso muito claro, porque é uma guerra em que entraram de repente, com os atentados de 2001, e não sabiam quase nada daquele país — ele afirmou por telefone.

Fumaça negra encobre complexo hoteleiro durante um grande incêndio florestal qna região turística na costa sul da Turquia, perto da cidade de Manavgat Foto: ILYAS AKENGIN / AFP
Fumaça negra encobre complexo hoteleiro durante um grande incêndio florestal qna região turística na costa sul da Turquia, perto da cidade de Manavgat Foto: ILYAS AKENGIN / AFP
Equipes de resgate evacuam moradores de uma área inundada em Weihui, cidade de Xinxiang, na província chinesa de Henan Foto: STR / AFP
Equipes de resgate evacuam moradores de uma área inundada em Weihui, cidade de Xinxiang, na província chinesa de Henan Foto: STR / AFP
Uma casa queima enquanto as chamas do incêndio Dixie corta o bairro de Indian Falls, na Califórnia, EUA Foto: JOSH EDELSON / AFP
Uma casa queima enquanto as chamas do incêndio Dixie corta o bairro de Indian Falls, na Califórnia, EUA Foto: JOSH EDELSON / AFP
Os manifestantes removem uma barreira da polícia durante protesto contra o plano Green Pass (passe de saúde), um certificado que mostra se alguém recebeu pelo menos a primeira dose da vacina, teve teste negativo ou recentemente recuperado da Covid-19, o que será obrigatório para refeições indoor, eventos culturais e esportivos a partir da próxima semana, em Roma, na Itália Foto: GUGLIELMO MANGIAPANE / REUTERS
Os manifestantes removem uma barreira da polícia durante protesto contra o plano Green Pass (passe de saúde), um certificado que mostra se alguém recebeu pelo menos a primeira dose da vacina, teve teste negativo ou recentemente recuperado da Covid-19, o que será obrigatório para refeições indoor, eventos culturais e esportivos a partir da próxima semana, em Roma, na Itália Foto: GUGLIELMO MANGIAPANE / REUTERS
Paciente faz teste de PCR para a Covid-19 em Colombo, Sri Lanka Foto: ISHARA S. KODIKARA / AFP
Paciente faz teste de PCR para a Covid-19 em Colombo, Sri Lanka Foto: ISHARA S. KODIKARA / AFP
Passageiros usam máscaras em uma estação de trem em Tóquio, um dia depois que a cidade relatou um recorde de 2.848 novos casos diários de Covid-19 Foto: YASUYOSHI CHIBA / AFP
Passageiros usam máscaras em uma estação de trem em Tóquio, um dia depois que a cidade relatou um recorde de 2.848 novos casos diários de Covid-19 Foto: YASUYOSHI CHIBA / AFP
Luka Doncic da Eslovênia, e Patricio Garino, da Argentina, disputam rebote durante a partida de basquete do grupo C da fase preliminar masculina entre Argentina e Eslovênia dos Jogos Olímpicos de Tóquio Foto: ARIS MESSINIS / AFP
Luka Doncic da Eslovênia, e Patricio Garino, da Argentina, disputam rebote durante a partida de basquete do grupo C da fase preliminar masculina entre Argentina e Eslovênia dos Jogos Olímpicos de Tóquio Foto: ARIS MESSINIS / AFP
A brasileira Rebeca Andrade durante prova de trave da final geral feminina da ginástica artística Foto: LOIC VENANCE / AFP
A brasileira Rebeca Andrade durante prova de trave da final geral feminina da ginástica artística Foto: LOIC VENANCE / AFP
Um casal anda de pedalinho enquanto a fumaça de incêndios florestais próximos paira sobre a cidade de Yakutsk, na república de Sakha, Sibéria Foto: DIMITAR DILKOFF / AFP
Um casal anda de pedalinho enquanto a fumaça de incêndios florestais próximos paira sobre a cidade de Yakutsk, na república de Sakha, Sibéria Foto: DIMITAR DILKOFF / AFP

O presidente George W. Bush lançou a ofensiva junto com os países aliados apenas um mês após os ataques de 11 de setembro, porque o Talibã estava abrigando Osama bin Laden e outros líderes da Al Qaeda ligados ao ataque. Seu objetivo era destruir esse grupo terrorista e expulsar o Talibã do Afeganistão. Para Dominic Tierney, houve um grande fracasso.

— Os Estados Unidos não se renderam ao Talibã, mas foi uma campanha de 20 anos terrivelmente custosa, em vidas e em dólares. O resultado é que o Talibã está ressurgindo. Se pudéssemos voltar a 2001 e dizer a eles que, duas décadas depois, eles continuariam no país, todos ficariam horrorizados — disse ele.

Os estágios iniciais da invasão criaram uma sensação de vitória, ele acrescenta, porque um pequeno número de soldados conseguiu expulsar o Talibã — uma miragem que encorajou Bush rumo à guerra do Iraque dois anos depois. Eventualmente, perceberam haver dois problemas subjacentes: que o Talibã contava com um apoio considerável da população pashtun, e que eles dispunham de um santuário no Paquistão para se refugiar, se recuperar e voltar à guerra.

— A guerra acabou para os Estados Unidos, não para os afegãos — afirmou.

Mark Perry, analista de defesa do Quincy Institute e autor de uma dúzia de livros sobre política externa e guerra, discorda. Em sua opinião, a morte de Osama bin Laden e o colapso da Al Qaeda, que eram os principais objetivos, impediram que o Afeganistão figurasse na lista das derrotas, embora o saldo “é claro que também não seja uma vitória”.

O problema, diz ele, é que os Estados Unidos “tiveram pretensões excessivas”.

— Nunca fomos bons para construir nações, e desperdiçamos vidas e riquezas tentando fazer isso. O mesmo aconteceu com o Iraque e a Síria, embora a Síria seja um caso especial, porque não tentamos lá.

Os Estados Unidos têm cerca de 200 mil soldados destacados em todo o mundo, um número que flutua constantemente por retiradas e reforços decididos quase diariamente, e que não inclui operações especiais e outras secretas. Biden — e, apesar de antitético na substância e na forma, também Donald Trump — aposta desde a sua chegada à Casa Branca em reduzir recursos e esforços no Oriente Médio, e em chamar a atenção para os desafios que a China representa hoje a nível econômico e militar .

Iraque, o maior erro

O Iraque, entretanto, é um caso diferente do Afeganistão. Neste caso, ao invés de uma redução drástica dos 2.500 soldados que ficaram no país, Washington acertou com Bagdá uma redefinição de seu papel no território, e continuará oferecendo treinamento e assistência logística. O governo Barack Obama já havia anunciado o fim da guerra em 2011, quando retirou quase todas as tropas. Em 2014, no entanto, os soldados voltaram a pedido do governo iraquiano para enfrentar o terrorismo do Estado Islâmico.

Para Perry, a guerra do Iraque foi o maior erro da política externa americana em 40 anos. Os falcões do governo Bush a promoveram usando como principal argumento armas de destruição em massa que nunca foram encontradas.

— Não deveríamos ter ido e, se o fizéssemos, deveríamos ter alcançado o objetivo de derrubar Saddam Hussein e partir. Agora vamos embora, mas 20 anos depois — afirmou. — A guerra contra o terrorismo foi travada e já. A lição dos últimos anos é que os Estados Unidos nunca deveriam ter se envolvido em conflitos civis no exterior. Creio que vimos as últimas intervenções americanas desse tipo por algum tempo.

As últimas semanas provaram que ele estava certo. Em frangalhos, o governo interino do Haiti pediu o enviou de tropas americanas para conter a instabilidade no país após o assassinato do presidente Jovenel Moïse. Biden respondeu em poucos dias que isso não estava na agenda.

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