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Eleições EUA
Por que Democratas são representados por burros e Republicanos por elefantes?
A maioria dos norte-americanos ficaria surpresa ao saber que ambos os símbolos políticos (assim como o Papai Noel e o Tio Sam) foram popularizados e receberam suas formas modernas pelo mesmo cartunista
CNN
05/11/2020 | 15:20

A cada ciclo eleitoral, ilustrações de burros e elefantes aparecem em desenhos políticos, bótons de campanha, memes da internet e alguns artigos de moda surpreendentes. Como poderia ser diferente? Os dois animais – o primeiro representando o Partido Democrata e o segundo, o Partido Republicano – são esteios da cultura visual dos Estados Unidos, tão reconhecíveis quanto o Papai Noel ou o Tio Sam.

No entanto, a maioria dos norte-americanos ficaria surpresa ao saber que ambos os símbolos políticos (assim como o Papai Noel e o Tio Sam) foram popularizados e receberam suas formas modernas pelo mesmo cartunista. Ele se chamava Thomas Nast.

Ao longo de sua carreira na revista “Harper’s Weekly”, de 1862 a 1886, ele se tornou o primeiro grande cartunista político dos EUA e um dos maiores satiristas. Nas gravuras em madeira detalhadas de forma complexa pelas quais é mais lembrado, ele abordou a Guerra Civil, as loucuras da Reconstrução, a imigração e a famosa máquina política de Tammany Hall.

Alguns sugerem que a palavra “desagradável” (do inglês nasty) deriva do sobrenome do artista e, embora isso talvez não seja verdade, se você olhar os desenhos dele, talvez se convença que sim.

Historiadores afirmam que Nast, que cresceu na cidade de Nova York nas décadas de 1840 e 1850, sofreu bullying com crueldade quando criança. De fato, os dois temas que permeiam sua carreira são o desdém por valentões de todas as formas e tamanhos e a compaixão pelas vítimas.

Na “Harper’s”, ele oscilava entre esses dois extremos. Em um famoso desenho, o “Worse Than Slavery” (“Pior que escravidão”) (1874), uma família negra indefesa se encolhe diante de um sorridente membro da Ku Klux Klan. Já em outro – uma paródia contundente da aliança da KKK com a máquina política de Nova York, com a legenda “Eles estão se engolindo” (They are swallowing each other) – não há vítimas, apenas dois homens inchados, com os olhos esbugalhados, descritos como ouroboros. Hoje em dia, os “desenhos editoriais” conseguem trazer à mente imagens deliberadamente simplistas e despojadas, que você consegue processar em meio segundo enquanto lê as notícias.

Em contrapartida, os desenhos densos e meticulosamente rotulados de Nast eram notícias – não apenas imagens, mas argumentos elaborados para serem analisados e discutidos ponto a ponto.

Veja, por exemplo, o “Pânico do Terceiro Mandato” (“Third Term Panic”), um desenho de 1874 frequentemente mencionado por popularizar o elefante como símbolo do Partido Republicano. Nos meses que antecederam as eleições, o “New York Herald”, naquele tempo um apoiador de vários candidatos Democratas, espalhou o boato de que o presidente Ulysses Grant, um Republicano, estava pensando em concorrer ao terceiro mandato em 1876, o que não era ilegal naquela época antes da 22ª Emenda, mas tampouco era bem visto.

Nast, um orgulhoso apoiador do partido de Lincoln, desenhou o “Herald” como um burro em pele de leão, assustando os outros animais com histórias da ditadura de Grant. Entre esses animais está um elefante enorme e desajeitado chamado “Voto Republicano”, que parece estar prestes a despencar de um penhasco.

Nast não foi o primeiro humorista a comparar humanos a animais. A história do burro em pele de leão remonta a Esopo. Ele também não foi o primeiro artista a comparar Republicanos a paquidermes. Pelo menos uma década antes, havia anúncios promovendo o Partido Republicano com o slogan “veja o elefante” (see the elephant), uma gíria obscura da Guerra Civil com um significado próximo a “lute bravamente”.

Nast retratou o Partido Democrata como um burro muitas vezes (embora em “Pânico do Terceiro Mandato” ele tome a forma de uma raposa), mas os dois animais estavam ligados desde a administração de Jackson, meio século antes.

Mas essa foi a última ideia que Nast teve de apresentar a política norte-americana como uma grande coleção caótica de bichos – um circo –, bem ao estilo do Barnum & Bailey, que tinha estreado em Nova York três anos antes. Como os melhores satiristas, ele ridicularizava seu próprio lado quase com o mesmo humor que fazia com o lado adversário – retratando o Partido Republicano como uma criatura fraca e em pânico que vivia se movendo pesadamente na direção errada, com seu tamanho mais atrapalhando que ajudando.

Os burros de Nast não recebem um tratamento muito melhor. Um desenho comum de 1879 mostra o animal teimoso pendurado pelo rabo, quase caindo em um abismo de “caos financeiro”. Em suas sátiras, era frequente ver elefantes e burros a um fio do caos – uma avaliação um tanto justa dos líderes Republicanos e Democratas da Era Dourada.

Na década de 1880, Nast era o artista mais temido dos EUA, o inimigo declarado de bandidos e canalhas tanto da esquerda como da direita. Então, em uma indesejável reviravolta digna de seus desenhos, ele perdeu todo dinheiro que tinha em um esquema Ponzi – um investimento do tipo pirâmide –, uma operação fraudulenta que ele passou o resto de sua carreira denunciando. Em 1890, ele tentou reerguer sua fortuna com a publicação de um livro ilustrado de Natal.

Porém, naquela altura, ele parecia ter perdido parte de seu ímpeto criativo que tinha ganhado na “Harper’s”, e passou a última década de sua vida com a saúde debilitada, com a dolorosa recordação de que sua melhor fase tinha ficado para trás.

Mas o elefante e o burro sobrevivem em uma ostentação política graças ao talento de Nast. Até hoje, o elefante é o símbolo oficial do Partido Republicano, e embora os Democratas ainda não o tenham assumido, não é preciso andar muito para ver um burro em um de seus comícios.

É um pouco estranho o fato de que os dois maiores partidos dos EUA tenham abraçado seus mascotes com tanto entusiasmo, considerando como os dois animais eram representados nos desenhos originais de Nast: bobalhões, servis e fáceis de confundir. Talvez nenhum partido tenha verificado isso antes de mandar estampá-los em bótons e tote bags.

Ou pode ser que souberam das piadas de Nast e decidiram que a melhor resposta seria também zombar de si mesmos.

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