O Rio Grande do Norte estuda uma proposta pioneira para o setor de energia e inovação: transformar uma das três plataformas de exploração de petróleo no estado em um laboratório de pesquisa marinha. A iniciativa, articulada entre o Governo do RN, a Fiern e o Senai-RN, reaproveitaria a estrutura que tem prazo para ser descomissionada a partir de 2030, criando o que seria o primeiro laboratório do tipo no Brasil e evitando o alto custo de seu desmonte.
A ideia é converter a maior das três plataformas, transformando-a em um espaço de pesquisa para a economia do mar. “Nossa intenção é trabalhar para que a plataforma seja transformada em um laboratório oceânico de pesquisa e desenvolvimento para produtos e tecnologias, desde a parte da biologia marinha, à robótica, à área de tecnologia voltada e à parte de energia”, explica Hugo Fonseca, secretário adjunto da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec/RN).

A empresa proprietária já demonstrou interesse em descomissionar a estrutura e, segundo Fonseca, um canal de negociação está sendo aberto para o repasse ao Senai-RN. Embora antiga, a plataforma tem condições de funcionar por, no mínimo, mais 100 anos.
O presidente do Sistema Fiern, Roberto Serquiz, reforça a lógica do projeto. “Para evitar que essa estrutura disponível seja implodida e submersa, a sugestão é o novo aproveitamento de uma das plataformas. Com isso, seria possível transformá-la em um ambiente de laboratório, estudo e pesquisa”, afirmou em comunicado.
A proposta, que está em fase de estudo sobre entraves legais e articulação com órgãos federais como ANP, ministérios e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), supriria uma lacuna nacional.
“O Brasil tem uma demanda muito grande desse tipo de laboratório. Temos muitas entidades interessadas. Universidades no Brasil todo poderiam usar o laboratório, mas também empresas do setor de petróleo e gás e do setor de energia”, destaca Fonseca.
Projeto de energia eólica offshore
Paralelamente à proposta de reaproveitamento, o estado avança com o Sítio de Testes de Aerogeradores Offshore, a primeira planta piloto de energia eólica no mar do país a receber uma licença ambiental prévia do Ibama, concedida em junho.
Liderado pelo Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), o projeto prevê a instalação de duas torres eólicas com capacidade de até 24,5 MW no litoral de Areia Branca. A energia gerada será conectada por cabos submarinos ao Porto-Ilha, que passará a operar com energia limpa.
Destaque na produção de energia eólica em terra, RN avança para geração no mar
O empreendimento não tem foco comercial. Trata-se de um projeto de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) para adaptar tecnologias, desenvolver procedimentos, testar equipamentos e, principalmente, capacitar mão de obra e a indústria local para o futuro mercado de eólicas offshore. A previsão é que a instalação física comece em 2027 e a operação em 2028.
A iniciativa é liderada pelo Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), vinculado à Federação das Indústrias do Estado do RN (Fiern) e ao Senai-RN. O empreendimento será conectado por cabos submarinos ao Porto-Ilha de Areia Branca, que passará a operar com energia limpa e autossuficiente.
O local escolhido para o projeto foi considerado ideal por não apresentar áreas de sensibilidade ambiental relevante, como recifes, nem estar próximo a zonas de pesca artesanal, reduzindo o potencial de impactos socioambientais.
Capacitação para o setor
Em reunião nesta segunda-feira 8, em Natal, o Governo do RN, a Fiern e o Senai-RN debateram três pautas principais: o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) para educação profissionalizante, o acompanhamento do projeto piloto de energia eólica offshore e a transformação de plataformas de petróleo em laboratórios de pesquisa marinha.
A primeira pauta da reunião foi a aplicação de recursos do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), iniciativa do governo federal que permite a reestruturação de dívidas dos estados com a União, na educação profissional, com a oferta de cursos de capacitação técnica. Roberto Serquiz, informa comunicado, solicitou que uma parte da contrapartida dos estados possa ser aplicada em educação profissional.
Hugo Fonseca explica que o setor de eólicas offshore é altamente especializado e exige uma mão de obra extremamente especializada, que ganha valores bem acima do mercado, o que exige alto nível de capacitação.
Sobre a planta piloto, ele afirma que a iniciativa é desenvolvida em um modelo multicliente, permitindo a participação de diversas empresas, com o estado atuando na atração de novos investimentos.
Papel da Indústria
O Sistema Fiern, que representa os industriais do RN, tem o papel de desenvolver a cadeia de valor para a eólica offshore no estado, incentivando indústrias potiguares a se prepararem para este mercado, evitando que empresas de fora ocupem esse espaço, como ocorreu no passado com a energia eólica e solar em terra.
Para Hugo Fonseca, é importante incentivar as indústrias potiguares a assumirem a liderança e se prepararem para este novo cenário. Essa iniciativa visa evitar um cenário observado anteriormente, entre 2007 e 2009, quando a falta de desenvolvimento de mecanismos e políticas industriais resultou na migração de empresas externas para o Rio Grande do Norte, ocupando setores importantes.
“A parte industrial [da energia eólica em terra] não se consolidou no Rio Grande do Norte. Terminou migrando para outros estados, e a intenção é justamente que isso não aconteça para a eólica offshore”, afirmou Fonseca, ressaltando a importância de se preparar para que as indústrias locais possam ser fornecedoras para essa nova indústria que está surgindo. Muitas empresas potiguares já atuam no setor de petróleo e gás e no setor de geração de energia.
Ele afirma que a falta de uma política industrial que incentivasse esse setor ajudou que empresas de fora dominassem o mercado potiguar, em setores como a área de construção civil para a fabricação de torres. “Hoje, o Rio Grande do Norte se tornou um grande hub voltado à parte de serviços para o setor eólico e setor solar no Nordeste brasileiro, mas a gente perdeu a parte industrial”, conclui.