BUSCAR
BUSCAR
Entrevista
Pandemia vai transformar mobilidade, diz professor
Titular do departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Rubens Ramos, avalia que a mobilidade urbana terá de passar por transformações para se adequar ao pós-pandemia
Redação
03/07/2020 | 04:59

A pandemia do novo coronavírus vai obrigar que o transporte público de Natal repense a forma de atuação diária. Todo o sistema terá de se adaptar à nova realidade, ao “novo normal”, para garantir um serviço melhor e mais seguro aos usuários. Segundo o professor titular da UFRN, Rubens Ramos, especialista em mobilidade urbana, a Prefeitura do Natal terá a oportunidade modernizar – e ampliar – os eixos de mobilidade para atender a população da capital potiguar.

Agora RN – A pandemia da Covid-19 reduziu o tráfego de veículos em Natal. Dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostram que a intensidade de congestionamento teve queda de 50% nos últimos dois meses. Quais os efeitos disso para a cidade?

Rubens Ramos – Em termos de trânsito, evidentemente que as vias ficaram livres. Mas, na verdade, esses números mostram mostra outra coisa, que não houve de fato um isolamento social adequado em Natal, e isso foi um erro grave na conduta do combate ao vírus e o custo de vidas e econômico será enorme. A evidência disso é que nesse momento Natal está com taxa de mortos por 100 mil habitante igual ao da Suécia, país que deixou o coronavírus “correr solto”. Tivéssemos parado o trânsito em 100% por 30 dias, estaríamos como a Austrália, um país de 25 milhões de habitantes que teve cerca de 100 mortos, ou como Florianópolis, que tem cerca de 3 mortos por 100 mil habitantes.

Agora RN – Como a Prefeitura do Natal deveria trabalhar para a retomada do trânsito?

RS – Penso que no pós-pandemia, que ainda vai demorar no Brasil pela forma errada como estamos agindo contra o vírus, teremos uma mudança importante de comportamentos que vai afetar principalmente os horários de rush. O aumento do trabalho remoto em muitas áreas vai reduzir os movimentos que tem hora certa para começar e terminar. As compras via Internet ou celular tendem a reduzir o movimento aos supermercados. Shoppings Centers fechados devem ter grande queda de demanda. As universidades devem adotar em mais de 80% o ensino via Internet, e isso vai reduzir muito o trânsito. No caso da UFRN, por exemplo, são de 12 a 15 mil pessoas que se deslocam por dia para o campus da UFRN de carro. Isso vai cair a uma fração. Trabalho e estudo são 2/3 do movimento das pessoas, e esse movimento para essas finalidades será reduzido. O efeito final disso é que vai sobrar espaço nas ruas, que podem então ser reduzidas para abrir espaço para outras coisas, como ciclovias para bicicletas e calçadas mais largas, plantar árvores.

Agora RN – Após as medidas de isolamento que afastaram a população das ruas, as cidades vão voltando a se mover. Em várias partes do mundo, para evitar aglomerações no transporte público, ações de mobilidade partilhada estão ganhando força. Outras cidades iniciaram políticas de incentivo ao uso de bicicleta para evitar a pressão no transporte público. Isso pode acontecer no Rio Grande do Norte?

RS – Assim como o movimento de carro, que falei antes, também o transporte público será afetado. Estudantes são 25% da demanda, e isso terá uma queda significativa. Do mesmo modo, a mudança do emprego vai mudar os fluxos. E, talvez, para evitar aglomeração, se adote uma ideia que vem já com mais de meio século, os horários variados nas atividades da cidade e com isso se alterar os picos o que, em consequência, altera o tamanho do sistema, que pode até ficar melhor e mais eficiente. No caso da bicicleta, para fins de uso diário, as estatísticas mundiais mostram que as pessoas andam em geral até 2 km e isso não vai mudar. Então, a tendência será um uso combinado de bicicleta e transporte público, se este tiver muito mais qualidade que o atual. Penso que no curto prazo um transporte público ônibus piso baixo com suspensão a ar, arejados, com configuração de apenas assento individual nas janelas, mais espaço interno para ficar em pé e menor lotação são perfeitamente seguros, eficientes, com conforto superior a andar de carro e silêncio absoluto. O primeiro veículo elétrico da maioria das será o ônibus elétrico. No longo prazo, podemos avançar para algumas linhas de tramway e mesmo uma linha de metrô, o que mudaria totalmente a vida na cidade, para muito melhor.

Agora RN – A pandemia fez despencar as receitas das empresas de ônibus de Natal. Muitas delas tiveram de que demitir funcionários para sobreviver. O que será preciso fazer para que o setor se recupere? A prefeitura terá de antecipar a licitação do transporte público?

RS – Na verdade, a pandemia pode, finalmente, mudar o transporte público de Natal para termos uma situação onde exista um serviço melhor e uma tarifa que o usuário possa pagar e o empresário ter seu lucro. Hoje temos um serviço de péssima qualidade, sem confiabilidade de horários, e uma tarifa cara para o usuário e insuficiente para o empresário. Pelas minhas contas, na operação atual durante a pandemia, o prejuízo está sendo menor que durante a operação normal. O que importa em uma empresa não é quanto ela fatura, mas o quanto ela lucra. A operação do transporte público de Natal em menor escala tende a ser mais viável e ter mais ganho de capital que a anterior em condições normais. Essa pandemia criou, assim, situações que permitem o avanço. Natal se tornou a primeira capital do país sem cobradores. Isso é um ganho significativo, pois o gasto com cobradores equivale ao custo de capital da frota. Pela primeira vez também, Prefeitura e Governo do Estado aceitaram reduzir impostos, e reduziram o ISS e ICMS do diesel em 50%. Falta avançar mais nesse campo, como, por exemplo, reduzir a zero o ICMS sobre a compra de ônibus novos, pois quem paga a conta é o usuário. Assim, penso que a pandemia pode ter dado aquele empurrão que faltava para uma mudança de atitude tanto dos governos quanto dos empresários, em buscar mais eficiência, mais qualidade, tarifa adequada. Faltam ainda três coisas a resolver, mudar a tecnologia na direção do ônibus elétrico piso baixo, mudar o esquema institucional para adotar um modelo de concessão similar ao do setor elétrico, e mudar a rede de transporte, abandonar o desenho das linhas ponto-a-ponto e passar para um modelo chamado hub-spoke, linhas estruturais e linhas de bairro, de modo a ter ao mesmo tempo mais eficiência e mais oferta de serviço.

Av. Hermes da Fonseca, N° 384 - Petrópolis, Natal/RN - CEP: 59020-000
Redação: (84) 3027-1690
[email protected]
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.