O Ministério da Saúde enfrenta uma situação de escassez de medicamentos para o tratamento da hanseníase, resultando na impossibilidade de muitos pacientes em todo o país começarem ou continuarem seu tratamento.
Um documento do ministério, obtido pela Folha de São Paulo, revela que os medicamentos essenciais para o tratamento primário da hanseníase – poliquimioterapia e clofazimina – são doações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ainda não foram recebidos. O ministério atribuiu o atraso a problemas de produção e logística no transporte marítimo na região do Oriente Médio, com expectativa de recebimento dos produtos ainda em março.

Entretanto, o próprio Ministério da Saúde reconhece no documento que, em relação à clofazimina, os quantitativos recebidos em 2023 já não eram suficientes para atender à demanda crescente devido ao aumento do consumo.
Entidades destacam que a distribuição irregular dos medicamentos já vem sendo observada desde o início da pandemia de Covid-19, e que o ministério não elaborou nenhum plano alternativo eficaz para lidar com a situação.
Como resposta à escassez, o ministério sugere o uso de medicamentos de segunda linha, como o ROM (Rifampicina + Ofloxacino + Minociclina), em dose mensal única. Embora haja respaldo científico para essa recomendação, especialistas alertam que esses medicamentos podem não ser eficazes para todos os tipos da doença e também estão em falta em algumas regiões.
Representantes de organizações como o Morhan e a Sociedade Brasileira de Hansenologia criticam a abordagem “simplista e irresponsável” do Ministério da Saúde, destacando a falta de esforços para garantir a produção ou aquisição dos medicamentos essenciais para o tratamento da hanseníase.
Além disso, apontam que há um desconhecimento por parte do ministério sobre a realidade das unidades de saúde locais, muitas das quais também não possuem os medicamentos de segunda linha.