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História
O suicídio de Salvador Allende, que se matou para não ser deposto
Chefe do golpe, general Pinochet iniciou uma das mais sangrentas ditaduras do continente. Com Michelle Bachelet, socialistas voltaram ao poder no Chile em 2006
O Globo
20/07/2021 | 17:13

Numa fria madrugada, em 1973, tropas do Exército do Chile, comandadas pelo general Augusto Pinochet, cercaram o Palácio de la Moneda e intimaram o presidente Salvador Allende, democraticamente eleito por um dos povos mais politizados da América do Sul, a renunciar. Ofereciam-lhe garantias de vida e um avião para conduzi-lo ao exílio, repetindo o que muitas vezes acontecera a presidentes de outros países do continente.

Allende, com a altivez que soube manter em sua longa vida pública, recusou a oferta e morreu em combate. Milhares de outros chilenos morreram naquele dia, assassinados por acreditarem no sonho de construir um país socialista obedecendo às regras da democracia, em pleno auge da Guerra Fria. Abriu-se, naquele 11 de setembro, uma das mais sinistras ditaduras da História da América Latina.

Foi dessa maneira que o jornalista Márcio Moreira Alves, em sua coluna de 13 de setembro de 1998 no GLOBO, descreveu o golpe no Chile. As últimas declarações de Allende, num discurso transmitido ao vivo do palácio, não deixavam margem a dúvidas sobre suas intenções — “Não renunciarei. Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo” — mas a hipótese de assassinato chegou a ser investigada. Em 21 de maio de 2011, peritos exumaram o corpo de Allende e a investigação determinou que o presidente se suicidara no palácio presidencial, sob ataque de militares. Após dois meses de exames nos restos mortais do presidente, comissão de peritos chilenos e estrangeiros confirmou, no dia 19 de julho de 2011, que Allende se matara. Ele teria se matado com uma arma que recebera de presente do então presidente cubano, Fidel Castro, para não renunciar.

A máquina golpista conseguiu emudecer uma a uma as rádios pró-Allende, desconectar os telefones de milhares de militantes leais ao presidente e silenciar com a morte ou pela repressão as vozes que destoavam da nova ordem militar. Só não conseguiu o mais elementar: controle absoluto dos diálogos por rádio mantidos entre os cabeças do golpe, antes e depois de bombardearem o Palácio de La Moneda.

Coube a um até hoje anônimo motorista de caminhão captar por acaso — e felizmente gravar — as comunicações radiofônicas entre o general Augusto Pinochet, comandante-em-chefe do Exército, o general Gustavo Leigh, comandante da Força Aérea, e o vice-almirante Patricio Carvajal, chefe do Estado-Maior da Defesa, aquartelado no prédio vizinho ao La Moneda. A reação de Pinochet ao suicídio de Allende, gravada pelo motorista, foi revelada pela jornalista Patricia Verdugo, no livro “Interferência secreta”, publicado em 1998. O general recebeu a notícia em inglês e determinou: “ que o ponham num caixão e o embarquem”. Queria evitar que o presidente deposto virasse um mártir nos braços do povo.

Nascido em Valparaíso, em 1908, Allende se formou em Medicina na Universidade do Chile em 1933, mesmo ano em que ajudou a criar uma seção do Partido Socialista na cidade. Nos 30 anos seguintes, foi eleito deputado e senador diversas vezes e ainda ocupou o cargo de ministro da Saúde durante a curta presidência de Pedro Cerda (1938-1941). Neste período, iniciou o que seria um dos primeiros sistemas públicos de saúde do continente.

Allende foi candidato à Presidência três vezes antes de vencer, sempre à frente de coalizões de esquerda. Em 1952, obteve 5,5% dos votos. Em 1958, chegou a 28,9% e perdeu a eleição por menos de 30 mil votos. Em 1964, o socialista teve 38,9% dos votos contra 56,1% do democrata-cristão Eduardo Frei. Em 1970, no rastro do governo reformista de Frei, houve uma polarização entre as candidaturas da esquerda e da direita: Allende, pela Unidade Popular, recebeu 36,2% dos votos contra 34,9% do ex-presidente Alessandri.

O plano da Unidade Popular consistia em adotar uma reforma agrária para acabar com os latifúndios do país e nacionalizar a produção de cobre. Internamente, a decisão sobre o cobre teve amplo apoio popular. Já a reforma agrária indispôs o governo Allende com os fazendeiros e com o Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR), que promovia ocupações e cobrava uma posição mais radical.

Contudo, as maiores dificuldades foram externas. Um memorando da Agência de Segurança Nacional americana (NSA, em inglês), de novembro de 1970, detalha que o presidente Richard Nixon decidira que os Estados Unidos deveriam “maximizar as pressões para reduzir liberdade de ação do governo e sua estabilização”. O documento sugeria o fim da assistência financeira ao Chile e pressão máxima sobre instituições financeiras internacionais para limitar o crédito ou qualquer tipo de assistência ao país.

Na economia, a situação também era delicada. No início do mandato, os preços foram congelados, para combater a inflação, e os salários tiveram aumentos entre 30% e 40%. Em 1971, as medidas obtiveram resultados favoráveis. No ano seguinte, a queda do preço do cobre e as dificuldades para importar bens de consumo se chocaram com o aumento da demanda. O país enfrentou uma crise de abastecimento, piorada pela especulação com os estoques feita por comerciantes. Em outubro de 1972, quando avançavam as nacionalizações, houve uma greve geral patronal.

Politicamente, Allende era pressionado pela esquerda e pela direita. Em minoria no Congresso, viu a oposição aprovar uma reforma constitucional que lhe retirava poderes e repassava-os ao parlamento. Apesar da instabilidade, o presidente se fiava em uma suposta tradição democrática das Forças Armadas. Em julho de 1971, o general Augusto Pinochet chegou a afirmar que “golpes não ocorrem no Chile”.

O poder só voltaria às mãos dos socialistas três décadas depois, com a eleição de Michelle Bachelet, também como Allende, formada em Medicina, e a primeira mulher a governar o Chile. Bachelet tomou posse em 11 de março de 2011 e permaneceu no poder até 2010. Em 11 de março de 2014, Michelle Bachelet voltou, pela segunda vez, a ocupar a Presidência do Chile.

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