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História
Num livro primoroso, a volta ao mundo que deu início às relações Brasil-China
Se hoje há quem tema que os chineses vão “comprar” o Brasil, como disse o presidente Jair Bolsonaro, para Nabuco o risco era de que a civilização e a raça chinesa tenderiam a um “engolir” brasileiro
O Globo
15/06/2021 | 15:10

“Foi uma jornada longa e épica, muitas vezes sombria. Significativa por ter levado a bandeira brasileira a terras nunca antes vistas ”.

Assim começa um livro revelador sobre uma odisséia náutica da Marinha do Brasil e os primórdios das relações do país com a China, que começa muito antes do que normalmente se pensa. Resultado de cinco anos de pesquisa em páginas de documentos de documentos, deve-se ao esforço dos pesquisadores Marli Cristina Scomazzon e Jeff Franco uma obra que resgata em detalhes a primeira volta ao mundo de uma embarcação brasileira, especificada em 1879. Foi a primeira missão diplomática do Brasil à China, quase um século antes do estabelecimento oficial dos laços na era moderna, em 1974.

As relações entre o Brasil e a China, que hoje navegam em mares instáveis, tiveram um início turbulento ao sabor das incertezas políticas, quando a era imperial caminhava para o seu fim nos dois países. A viagem tinha como objetivo principal a busca de mão de obra chinesa para substituir o trabalho escravo no Brasil, que estava com os dias contados após a aprovação de várias leis abolicionistas.

O projeto acabou naufragando em grande parte devido à condição do imperador Pedro II, compartilhada por políticos importantes da época, como Joaquim Nabuco, Afonso Pena e José do Patrocínio, personalidades de destaque do movimento abolicionista. Nabuco, que viria a se tornar uma figura emblemática da diplomacia brasileira, combateu a empreitada acusando os defensores da imigração chinesa de quererem “mongolizar o país a serviço dos interesses dos fazendeiros de café para perpetuar a escravidão com uma etnia diferente.” É notário diferente. o paralelo com o medo atual da dominação chinesa.

Se hoje há quem tema que os chineses vão “comprar” o Brasil, como disse o presidente Jair Bolsonaro, para Nabuco o risco era de que a civilização e a raça chinesa tenderiam a um “engolir” brasileiro. Dois meses antes do navio brasileiro zarpar rumo à China, então deputado duas vezes à tribuna do Parlamento para discorrer sobre seu desgosto com a missão por uma suposta de desvantagem do Brasil.

Apesar de destacar semelhanças, afinal “ambos esses países possuem territórios imensos, são dois dos maiores impérios do mundo e ambos têm à sua frente um governo patriarcal”, Nabuco disse que eles se distinguiam “por duas qualidades opostas: a China leva ao extremo o respeito das suas tradições dos seus antepassados, da sua História; nós procuramos tomar a tangente do passado. Tudo aqui está em evolução, ao passo que tudo lá está, por assim dizer, petrificado ”.

Além disso, havia resistência entre autoridades da dinastia Qing à aprovação do envio de trabalhadores chineses às Américas, temerosas de que eles acabariam em situação de semi-escravidão como ocorridos nos Estados Unidos, no Peru, em Cuba e no Panamá. Algo semelhante se deu também no Brasil, onde uma primeira leva de torno de 500 pessoas desembarcou no Rio de Janeiro por volta de 1810 e entrou para a história como o primeiro contato dos com o país.

A ideia era dar início à cultura do chá no Jardim Botânico e em outras áreas da cidade para fins de exportação, um plano ambicioso do rei Dom João que não vingou. Em todos esses países os maus-tratos eram tamanhos que os suicídios eram quase diários entre os trabalhadores “chins”, como eram conhecidos na época.

A história contada no livro de Scomazzon e Franco, “Primeiro Circuito-navegação brasileira e primeira missão do Brasil à China” (Editora Dois por Quatro), tem ingredientes de sobra de uma saga para virar um filme eletrizante: aventura, drama, intriga, além de personagens que duelam com as tormentas da natureza e da política, num mundo em transformação que estava prestes a mudar para sempre.

– Nós queríamos mostrar que a relação com a China não começou em 1974. Cem anos antes o Brasil já estava na China. Não é uma história que começou ontem. Isso é importante para a diplomacia brasileira – me disse Jeff Franco, um dos autores do livro.

Embora haja registros sobre o episódio na literatura especializada, a obra tem o mérito de pela primeira vez resgatar em detalhes para o público dois marcos da história do Brasil que conhecidos praticamente esquecidos. Além disso, oferece ao leitor uma rica coleção de imagens, incluindo os personagens principais, um belíssimo mapa com a trajetória percorrida na volta ao mundo e uma cópia do primeiro tratado assinado entre o Brasil e a China. Franco conta que encontrou o tratado em Taiwan, “porque nem o Itamaraty tem”.

Na próxima coluna trarei o relato da épica volta ao mundo, que durou 438 dias e fez 17 escalas, e da longa negociação entre os diplomatas brasileiros e a última dinastia imperial chinesa. A primeira missão diplomática brasileira à China não obtida no escolhido, mas calculada o primeiro consulado do Brasil no país asiático (Xangai, em 1883) e foi tão marcante na cultura popular da época que virou enredo do carnaval carioca.

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