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Filme
“Não Olhe Para Cima” faz caricatura caótica e melancólica da atualidade
Comédia apocalíptica "Não Olhe Para Cima" usa a descoberta de um asteroide que destruirá a Terra como mote de um olhar anárquico para aspectos da contemporaneidade
O Povo
03/01/2022 | 10:43

Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) são, respectivamente, uma candidata a uma bolsa de pós-graduação e um pesquisador e professor da Universidade de Michigan. Em uma atividade cotidiana da pesquisa, ela descobre um cometa até então desconhecido. O excitante fato logo se revela um grande problema, daqueles com aproximadamente 5 a 10 quilômetros de diâmetro. Após calcular a trajetória do corpo celeste, o professor descobre que ele irá cair na Terra em seis meses, causando um impacto que extinguirá toda a vida no planeta. A dupla, então, precisa definir como alertar a humanidade sobre o iminente fim. Farsesco e irônico, “Não Olhe Para Cima” traça caricaturas nada sutis de temas relacionáveis a contextos contemporâneos, da pandemia à superestimulação midiática, passando pelo negacionismo. Não por acaso, o filme vem ressoando de maneira intensa junto ao público.

O longa da Netflix tem direção e roteiro de Adam McKay, nome reconhecido da comédia em Hollywood que começou comandando produções comerciais e reconfigurou a trajetória ao começar a tratar de “temas sérios” sob o mesmo viés escrachado. Com “A Grande Aposta” (2015) e “Vice” (2018), o diretor ganhou reconhecimento dos pares e um Oscar de Melhor Roteiro.

“Não Olhe Para Cima”, apesar dos paralelos evidentes com o período da pandemia, foi anunciado inicialmente em novembro de 2019. Naturalmente, o contexto global teve impactos práticos e simbólicos na obra, mas este fato em si já demonstra que o alvo — ou os alvos, melhor dizendo — de McKay é (são) mais amplo(s) do que a experiência da covid-19 no mundo.

A partir da descoberta, Kate e Randall precisam passar por diversas instâncias de poder para tentar alertar a população mundial sobre o cometa e, então, buscar formas de tentar desviá-lo. Alertando a NASA sobre o fato, a dupla recebe apoio do cientista Teddy Oglethorpe, mas, quando chegam à presidência dos Estados Unidos, encontram apatia, desconsideração e até manipulação de informações.

Quando Randall informa que as chances calculadas da extinção acontecer são de 99,78%, a presidente Orlean (Meryl Streep) “arredonda” o valor para 70%, já que as eleições estão próximas e a mandatária não quer ser a pessoa a informar ao povo que ele tem quase 100% de chances de morrer.

Com a inação da governante — “vamos esperar e avaliar”, afinal, “sabem quantas reuniões de ‘fim do mundo’ já tivemos nesses anos?” —, o trio parte para um tour midiático, vazando a descoberta e a reação da presidente para um jornalista investigativo e marcando presença em um popular programa de TV.

A partir daí, o fato é, finalmente, divulgado para a população, mas recebe reações mistas nas redes sociais, virando meme, hashtag e perdendo nas métricas para a problemática relação entre o famoso casal Riley Bina (Ariana Grande) e DJ Chello (Kid Cudi).

A própria repercussão do filme nas redes sociais — onde ele vem sendo centro de debates acalorados que buscam esgotar todas as identificações possíveis da ficção com a realidade — acaba sendo um espelhamento do próprio retrato construído pela obra.

“Não Olhe Para Cima” analisa, mais do que a pandemia ou outro possível “fim do mundo” contemporâneo, o espírito do tempo, onde toda e qualquer coisa, inclusive um fato científico, vira arena não apenas para embates que resultam em campanhas contra ou a favor, mas também desafios virais, artigos com títulos caça-cliques, megaconcertos com estrelas da música e por aí vai.

Caótico, o filme amontoa tantas caricaturas — dos apresentadores de TV que “douram o Xanax” ao apresentar temas difíceis para o público ao magnata da tecnologia que pretende “mudar o mundo” a partir de práticas exploratórias, passando pela disparada no preço da pá, que vira ferramenta cobiçada com a iminente chegada do asteroide — que acaba sem muito foco ou aprofundamento.

No entanto, o ritmo intenso de referências e desenvolvimentos narrativos acaba justamente por espelhar a superestimulação contemporânea a qual estamos sujeitos. Afinal, se há 15 ou 20 anos “entrar” na internet era um desafio que envolvia um computador e um considerável tempo de espera para que a conexão discada funcionasse, hoje, quando ela está literalmente na nossa mão, há muita gente que daria tudo por uma chance de conseguir “sair” dela.

É possível que “Não Olhe Para Cima” seja visto, até, como uma produção cínica, que contribui para a dinâmica que critica justamente por apostar, também, nesse tom mais ácido e “memeável”. Um aspecto notável da produção, porém, é que ela é, ao mesmo tempo, extremamente caótica e também fortemente melancólica.

O humor se dá em um nível de desconforto e constrangimento porque o que separa a farsa montada na produção do lado de cá não é lá muita coisa. A reunião de melancolia, picardia e alguma anarquia, enfim, pode parecer demais para alguns, mas o mundo já não é, também, assim? No fim das contas, a tentativa é encontrar alguma graça (ou quiçá esperança!) no meio de toda essa confusão, apesar dos pesares.

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