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Cultura

Museu do Vaqueiro preserva história do sertão e mantém viva a cultura nordestina

Espaço em São José de Mipibu reúne objetos, documentos e depoimentos sobre a vida do sertanejo, preserva uma sanfona que pertenceu a Dominguinhos e promove atividades culturais voltadas às tradições do Nordeste
Redação
01/07/2026 | 05:50

A cerca de 30 quilômetros de Natal, na comunidade do Bonfim, zona rural de São José de Mipibu, o Museu do Vaqueiro preserva a memória de um dos personagens mais tradicionais da história do Nordeste. O espaço reúne objetos, documentos, depoimentos e peças ligadas à atividade do vaqueiro, retratando a vida no sertão desde o período do Brasil Colônia até os dias atuais. Entre os destaques do acervo está uma sanfona que pertenceu a Dominguinhos, frequentador do museu durante vários anos.

Os visitantes encontram chapéus de couro, gibões, selas, esporas, chocalhos, alforjes e outros utensílios utilizados na lida com o gado. Logo na entrada, versos do poeta Antônio Francisco resumem o sentimento de quem viveu ou conviveu com a cultura sertaneja.

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Chapéus de couro, gibões, selas, arreios, chocalhos e alforjes ajudam a contar a trajetória do vaqueiro e a importância dessa atividade para a cultura do NE - Foto: Reprodução/TV Tropical

O Museu do Vaqueiro atua desde 2002 coletando objetos, depoimentos e documentos históricos relacionados à atividade e às vivências do vaqueiro nordestino. Foram dez anos de pesquisas e coleta de material até a inauguração da sede, em 2012. O prédio reproduz a antiga casa da Fazenda Poço Verde, localizada nas proximidades da Serra de João do Vale, construída em 1808.

Além da exposição permanente, o espaço conta com área destinada a exposições temporárias, aulas de sanfona, oficinas de artesanato em couro, apresentações de grupos comunitários, debates e rodas de conversa voltados à preservação dos costumes e das tradições do sertão nordestino.

Idealizador e curador do museu, Marcos Fernandes Lopes conta que decidiu criar o espaço ao perceber que parte da cultura nordestina perdia espaço para tradições de outras regiões do País.

“Além das tradições, do trato do gado, do surgimento da vaquejada, a história da vaquejada e outras coisas, eu vi que o brasileiro estava dando muito valor ao que vem de fora, como acontece lá em Barretos. O que acontece lá em Barretos é o que vem dos Estados Unidos. E nós aqui temos algo único”, disse, em entrevista à TV Tropical.

Segundo ele, o vaqueiro desenvolveu seus próprios equipamentos de proteção muito antes da industrialização desses produtos. “O vaqueiro criou sua própria EPI, equipamento de proteção. O vaqueiro fez sua roupa de couro, fez suas luvas, fez seu chapéu. Muito depois surgiu o artesão que foi fazer aquilo. Parece um alfaiate que faria aquele traje.”

Marcos Fernandes Lopes também defende que o papel do vaqueiro foi decisivo para a formação econômica do Brasil. “O vaqueiro tem toda essa importância. Para mim, foi o primeiro operário deste país. Porque, se o primeiro ciclo econômico do país foi o ciclo do couro, quem era que tratava desses animais que geravam o couro? Era o vaqueiro. E não era dada a devida importância a esse homem, a esse herói anônimo que o Brasil tinha. Ele estava desaparecendo, por isso eu resolvi fazer o museu.”

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Marcos Fernandes Lopes é idealizador e curador do Museu do Vaqueiro – Foto: Reprodução/TV Tropical

Entre as peças preservadas, objetos simples do cotidiano despertam lembranças em quem visita o espaço. Chocalhos, arreios, selas e alforjes remetem à rotina das famílias que viveram no campo e, segundo o curador, frequentemente emocionam os visitantes.

“Grande parte das pessoas geralmente são mais velhas. Então, filhos de alguém que conviveu nessa região às vezes chegam a chorar, mandam mensagem para a família, essa coisa toda. Inclusive, pessoas de outros países já vieram aqui. O Rotary Club trouxe pessoas do Chile, do Uruguai, dos Estados Unidos e eles ficavam encantados com o que estavam vendo.”

Para Marcos Fernandes Lopes, a história do vaqueiro deveria fazer parte da formação dos estudantes brasileiros. “Acredito que essa história, não só do vaqueiro, mas de outros que fizeram este país, deveria estar na sala de aula.”

Sanfona de Dominguinhos integra o acervo

Um dos objetos mais procurados pelos visitantes é a sanfona que pertenceu a Dominguinhos. O músico visitava o museu cerca de três vezes por ano e deixou o instrumento no local, hoje transformado em uma das principais relíquias do acervo.

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Sanfona usada por Dominguinhos está entre as principais relíquias do museu – Foto: Reprodução/TV Tropical

Durante uma dessas visitas, surgiu a ideia de criar uma orquestra sanfônica, formada predominantemente por acordeonistas. Diferentemente das orquestras tradicionais, o grupo utiliza diversas sanfonas divididas entre músicos responsáveis pela base e outros encarregados da melodia, acompanhados apenas pela zabumba e pelo triângulo.

O projeto também incentiva a formação de novos sanfoneiros. Entre eles está Del, de apenas 10 anos, que começou a aprender o instrumento aos sete. “O primeiro forró que eu vim assistir, vi um amigo meu. Conheci ele, viramos amigos. Ele toca sanfona também. Aí eu comecei a gostar, tocar sanfona e comecei. Eu quero ser um sanfoneiro igual a Waldonys.”

Para Ricardo, que toca sanfona há 15 anos, o aprendizado exige dedicação contínua. “Você tem que estudar bastante o instrumento. Criar uma intimidade grande com ele. Desde criança eu tenho essa vontade de ser sanfoneiro. Então, é um sonho que eu realizei. É gratificante demais estar tocando ali, o pessoal ouvindo.”

Ao apresentar a sanfona de Dominguinhos, a reportagem lembrou que, embora o acordeon tenha origem europeia, o instrumento foi incorporado à cultura nordestina e passou a representar um dos principais símbolos do forró e das festas de São João.

Também foi reforçada a diferença entre um trio de sanfoneiros e o tradicional trio pé-de-serra, formado por sanfona, zabumba e triângulo, conjunto que acompanha o forró em todo o Nordeste.

Mais do que preservar objetos históricos, o Museu do Vaqueiro mantém viva a memória de homens e mulheres que ajudaram a construir a identidade cultural do sertão. Ao reunir documentos, peças históricas, música, artesanato e atividades educativas, o espaço busca aproximar novas gerações da história do vaqueiro e valorizar uma tradição que atravessa séculos no Rio Grande do Norte e em todo o Nordeste.