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Movimento dos Policiais Antifascismo cresce e ganha adesão em vários estados
Movimento dos Policias Antifascismo quer mudanças nas forças de segurança para atender a demandas sociais e da própria categoria
Redação
23/09/2021 | 08:12

O Movimento dos Policiais Antifascismo é recente, mas tem ganhado a adesão em diferentes estados brasileiros desde a sua expansão nacional, a partir de 2017. De acordo com os representantes do grupo, a movimentação propõe mudanças estruturais nas forças de segurança para adequação a demandas sociais, mas, principalmente, da própria categoria. No Rio Grande do Norte cerca de 80 agentes de segurança, entre policiais civis, PMs e bombeiros, integram do movimento.

“Nós não somos antipolícia, somos a favor de uma polícia que se norteie por critérios técnicos e de eficiência, melhor para a sociedade e para os policiais”. A declaração é do policial civil Pedro Chê, coordenador geral do Movimento dos Policiais Antifascismo no RN.

Pedro Chê diz que, atualmente, as polícias não dão espaço para a gerência da sociedade sobre as corporações, o que faz com que essas unidades atendam mais a “interesses corporativos” do que públicos. “E, muitas vezes, foge também da eficiência do resultado. O que a gente quer é distanciar os interesses corporativos que não sejam alinhados à sociedade”, complementa.

Dentro dessa discussão, ainda segundo Chê, o movimento propõe a reformulação da carreira policial. “Só no Brasil a carreira policiais de algumas instituições (como bombeiros e PM) ou você entra embaixo, ou entra em cima. Isso não se aplica em nenhum outro lugar do mundo”, afirma Pedro Chê, se referindo à divisão entre oficias e praças para o ingresso nas corporações.

Para o Movimento dos Policiais Antifascismo, o ideal era que todo agente de segurança começasse o trabalho pela base. “O policial começaria na base da instituição, para ele aprender como é ser um policial de rua, a conviver com as pessoas, dialogar, saber como é a dureza do trabalho de rua e suas dificuldades, aprender a mediar conflitos. Depois, a partir de méritos seus internos, ele iria subindo. Aliás, não só por mérito, mas de acordo também com a qualidade desse policial enquanto líder, enquanto gestor. É assim que acontece no mundo inteiro”, explica.

Pedro Chê defende que esse modelo estimularia mais os policiais a realizar suas atividades diárias, pois daria oportunidades iguais de crescimento.

Desmilitarização

Outra bandeira do Movimento de Policiais Antifascismo é a desmilitarização da polícia. Pedro Chê reconhece que o termo causa estranheza entre os cidadãos comuns, leigos, mas diz que isso ocorre por não se ter clareza do que se trata essa proposta.

“Saber atirar, utilizar de entradas táticas em ambientes para a prisão de criminosos, nada disso é militarismo. É técnica policial”, acrescenta o coordenador geral do movimento no RN. Chê afirma que esse militarismo posto em questão diz respeito muito mais a procedimentos internos das corporações e gestão de pessoal do que a segurança pública. “E atrapalha”, reforça.

Segundo Pedro Chê, policiais militares cometem suicídio quatro vezes mais do que a população comum e isso pode estar ligado diretamente ao tratamento que recebem no trabalho, a partir do modelo militarista. “Achar que isso vem do nada e que não resulta em problemas para a sociedade é loucura. É claro que esse policial adoecido, e hoje tem 15% de policiais adoecidos mentalmente diagnosticados, vai interferir na prestação de serviço à sociedade”, argumenta.

Ele afirma que a desmilitarização traria às corporações ambientes mais saudáveis, democráticos, transparentes e de maior controle social. “Não é fazer com que as polícias andem desarmadas, ou parem com ações ostensivas. Não tem nada a ver com isso. A polícia dos Estados Unidos e muitas europeias, por exemplo, não são militarizadas”, afirma.

Para além disso, esclarece Pedro Chê, o militarismo em sua essência defende o combate a um inimigo, o que não necessariamente é o trabalho da polícia. “Isso é muito ruim dentro de uma sociedade, porque não existem lados opostos. Todos estão dentro dessa sociedade, mesmo o bandido. Ele não está em um lado oposto, no sentido de que ele também está sujeito à lei. Então estamos todos do mesmo lado, a sociedade, e sob o cumprimento da lei”, discorre.

“Não se pode fazer uma guerra com a sua própria população. Isso não é política pública, e polícia é política pública. O exército militar precisa existir e deve servir para a defesa da soberania do país”, complementa Pedro Chê.

O policial civil afirma ainda que essas instituições militares se fecham ao diálogo com o restante da sociedade, tratando de sua regulação e controle somente entre os próprios policiais. “As instituições não são abertas ao diálogo e não há abertura para os cidadãos comuns fazerem questionamentos. Seria interessante, por exemplo, que organizações como conselho de bairro tivessem espaço para discutir junto às polícias como estão sendo as abordagens, as ações em cada localidade, e cobrar o trabalho desses policiais”.

Chê argumenta que a modificação estrutural acarretaria diretamente em uma maior eficiência policial. “O que nós precisamos é de controle social, transparência nas ações e nos números para que possamos ter uma sociedade e uma polícia mais aproximadas, porque não existe serviço policial bem feito sem consenso popular. Se a população não está incluída na segurança pública, ela não participa diretamente. Esse modelo que praticamos hoje é o que coloca o Brasil onde está, com alguns dos piores números do mundo na segurança”.

Pedro Chê diz que o Movimento dos Policiais Antifascismo busca trazer melhorias diretamente ao convívio social, às práticas policiais e promover a defesa da categoria policial. “Algumas pessoas acreditam que a segurança pública que existe é essa que está aí. Então cria um time que quer uma polícia mais truculenta e outro que não quer polícia. Nós não somos nem de um time, nem de outro. Entendemos que o serviço policial é necessário, mas que precisa ser voltado à eficiência e à lei. Defendemos uma polícia do povo, para a população e que, realmente, traga resultados. E não apenas se revele a partir de dados, inclusive, letais. Nossa perspectiva é a redução de crime, não a eliminação de pessoas”, finaliza.

Onde surgiu?

O Movimento dos Policiais Antifascismo existe desde 2016 e, fruto uma reunião de policiais, juristas e intelectuais. O músico e compositor Marcelo Yuka, fundador d’O Rappa, foi um dos patrocinadores do movimento. A partir disso, os integrantes identificaram a necessidade de sair das reuniões fechadas e levar a discussão para dentro das forças de segurança. O Movimento de Policiais Antifascismo se expandiu a partir do Fórum Social Mundial, em 2017, que aconteceu em Salvador (BA). Depois dos diálogos no seminário ficou acordada a criação de uma movimentação nacional com presença nos diferentes estados brasileiros.

No Rio Grande do Norte havia já um grupo chamado Policiais Pensadores, capitaneado pelo PM João Maria Figueredo. O grupo tinha ideias afins à movimentação nacional e, com base na deliberação feita no Fórum Social Mundial, transformou-se na base potiguar do Movimento dos Policiais Antifascismo. No Brasil, o movimento tem aproximadamente 1.000 agentes de segurança, entre guardas municipais, policiais federais, rodoviários, civis, militares, bombeiros.

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