BUSCAR
BUSCAR
Economia

Move Brasil impulsiona procura por carros, mas crédito freia fechamento de negócios

Concessionárias registram aumento expressivo de interessados após lançamento do programa, porém bancos mantêm critérios rigorosos e frustram expectativa de parte dos compradores
Redação
02/07/2026 | 05:47

O programa de financiamento de veículos Move Brasil, lançado em 19 de junho, provocou um aumento significativo na procura por carros zero-quilômetro por parte de motoristas de aplicativo e taxistas. O crescimento do interesse, entretanto, ainda não se refletiu no mesmo ritmo nas vendas, já que uma parcela considerável das propostas de financiamento tem sido barrada na análise de crédito realizada pelas instituições financeiras.

Concessionárias relatam que, nos primeiros dias de funcionamento do programa, muitos consumidores chegaram às lojas acreditando que o cadastro no portal do governo significava aprovação automática do financiamento. Na prática, porém, a liberação do crédito continua sujeita às políticas de risco de cada banco, o que tem gerado frustração entre clientes e vendedores, além de atrasar a conclusão dos negócios.

Fila de clientes
Motoristas de aplicativo aguardam em fila em Natal para tentar comprar carro - Foto: Reprodução

Em uma rede de oito concessionárias Nissan na Grande São Paulo, por exemplo, foram recebidas 91 propostas de financiamento em apenas um dia, mas somente seis haviam sido aprovadas até o momento do levantamento. Em um dia considerado normal, a rede registra cerca de 20 pedidos de crédito, com índice de aprovação próximo de 50%.

“O Move Brasil teve uma alta demanda, mas de muita gente desinformada”, afirma Leandro Schuber, diretor da rede. Segundo ele, muitos clientes acreditavam que já tinham o financiamento garantido, inclusive consumidores negativados, pessoas fora do público-alvo ou que esperavam obter entrada zero e parcelamento em até 72 meses automaticamente.

O Move Brasil é um programa do Governo Federal criado para facilitar a compra de veículos novos por motoristas de aplicativo e taxistas, oferecendo uma linha de financiamento com juros reduzidos e garantia parcial do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI).

Schuber afirma que parte dos interessados sequer demonstrava preferência por um modelo específico e buscava apenas testar a aprovação junto aos bancos. Após conseguir o crédito, muitos passaram a negociar preços entre diferentes marcas. O diretor também avalia que o elevado volume de atendimentos acabou reduzindo a atenção dedicada aos clientes do mercado tradicional, de veículos para pessoas com deficiência (PCD) e de seminovos. “Acho que o sentimento hoje é de frustração”, resume.

Na Honda Flora Motors, o cenário tem sido mais positivo. O diretor Sergio Roveri afirma que a procura cresceu de forma expressiva desde o lançamento do programa, embora boa parte dos atendimentos ainda seja destinada ao esclarecimento de dúvidas.

Entre as montadoras, a BYD informou ter atendido mais de 14,5 mil motoristas de aplicativo e taxistas em mais de 210 concessionárias no primeiro dia do programa, com registro de filas em diversas unidades. A Toyota afirmou que o número de solicitações triplicou em relação ao período anterior ao Move Brasil e disse que as aprovações seguem ocorrendo “dentro da normalidade”. A Renault confirmou forte procura, mas informou que aguarda o retorno das análises dos bancos. Volkswagen, Stellantis, Hyundai e Chevrolet não comentaram o desempenho inicial do programa.

Nem todos os bancos aderiram à nova linha de financiamento. Itaú e Bradesco optaram por ficar de fora, enquanto o Santander informou que ainda prepara sua operação. Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Sicredi e Sicoob confirmaram participação, mas ainda não divulgaram dados consolidados. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmou apoiar o programa e destacou que ajustes operacionais são esperados nos primeiros dias de funcionamento, reiterando que a concessão de crédito continua condicionada às análises de risco de cada instituição.

Para Ricardo Thomaziello, diretor de análise da Serasa Experian, a dificuldade de aprovação decorre, em parte, do perfil dos beneficiários. Como muitos motoristas de aplicativo não possuem vínculos formais de emprego, os bancos dispõem de menos informações para avaliar sua capacidade de pagamento.

Segundo ele, o Move Brasil tende a reduzir essa assimetria ao oferecer mais dados sobre esses trabalhadores, mas o cenário de juros elevados e inadimplência ainda leva as instituições financeiras a adotarem maior cautela. “O momento não é bom. Isso acaba mexendo com a análise de risco”, afirmou. O especialista acrescenta que cada banco utiliza critérios próprios, o que explica por que um mesmo cliente pode obter aprovação em uma instituição e ter o financiamento negado em outra.