Do Seridó para as manhãs de sábado da televisão potiguar, Mickaelly Fernandes vem desenhando um novo jeito de falar sobre meio ambiente: sem fórmulas prontas e sem distanciamento. À frente do InterBio, programa da InterTV Cabugi dedicado à sustentabilidade, ela tem mostrado que a comunicação ambiental pode – e deve – ser empática, criativa e especialmente local.
Nascida em São Vicente, Micka fez da curiosidade o principal guia da sua trilha profissional. É daquelas jornalistas “desenroladas” que misturam roteiro, rede social e storytelling. E, talvez por isso, sua fala ecoe como boa prosa: próxima, nítida e inspiradora.

“Fiz jornalismo na UFRN e minha primeira bolsa foi na diretoria de meio ambiente da universidade. Na época, eu nem tinha noção de como isso ia ressoar tão forte na minha vida profissional. Comecei a perceber que o jornalismo era muito mais aberto do que eu imaginava, tinha muitas possibilidades, muitas linguagens, e isso me empolgou”, relembrou.
Nesta entrevista especial sobre o Dia do Meio Ambiente, ela compartilha sua trajetória, os aprendizados que carrega, e o que ainda falta para o Rio Grande do Norte levar a sustentabilidade a sério, todos os dias. Porque, como ela mesma diz, “comunicar é tornar visível”. E visibilidade, nesse tema, é urgência.
AGORA RN – Como é a escolha das pautas do InterBio?
Mickaelly Fernandes – Quando recebi o convite para apresentar e produzir o InterBio, eu tive liberdade total para desenhar o formato, e foi um desafio enorme. Imagina só: ter um espaço na grade da Inter TV pra passar uma mensagem de sustentabilidade, que precisa ser leve, educativa e ainda conectar com diferentes públicos. Eu sabia que não podia ser aquela coisa engessada que a gente lembra da escola, tipo “jogue lixo no lixo”, precisava ser real, próxima, envolvente. O InterBio tem como base os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS), então a minha ideia desde o começo foi: como é que eu pego essas metas globais e trago para realidade do Rio Grande do Norte? Como faço as pessoas verem que sustentabilidade não é distante, que está no dia a dia delas? E acima de tudo: como deixo esse conteúdo educativo sem ser chato? Sempre pensei em trabalhar por temas. Cada programa tem um foco para contar uma história. Eu planejo o mês todo baseado nos ODS e também nas temáticas que estão em alta, com o que faz sentido para o nosso público. Além disso, fico muito atenta aos projetos incríveis que acontecem aqui no estado, tem muita gente fazendo a diferença e o InterBio é essa porta aberta pra mostrar essas iniciativas.
AGORA RN – Quais desafios e aprendizados você destaca desde o início do InterBio em 2022?
Mickaelly Fernandes – Participar de todos os processos me dá uma visão ampla, me conecta de verdade com o que eu estou comunicando. Não é um conteúdo que vai ao ar e simplesmente passa, muitas vezes eu crio vínculos, volto aos projetos que visitei, faço trabalho voluntário, produzo conteúdo extra para as minhas redes. Outro desafio é mostrar que sustentabilidade vai muito além de falar de “verde”. Sustentabilidade é ambiental, claro, mas também é social, é econômico, e tudo isso está interligado. O maior aprendizado que carrego é esse: entender que o ativismo é importante. A sustentabilidade não é uma bolha, ela está em tudo. Quando a gente conhece de perto tantas histórias, tantos projetos, tantas pessoas que acreditam e fazem a diferença, a gente percebe que se a sociedade, as empresas e os órgãos públicos trabalharem juntos, as respostas já estão aí, a gente só precisa querer enxergar. E é isso que me faz seguir: querer que cada vez mais pessoas percebam que sustentabilidade não é um conceito distante. É prática, é sobre agora.
AGORA RN – Que exemplos de soluções sustentáveis ou boas práticas você viu de perto e te marcaram ao longo do InterBio?
Mickaelly Fernandes – Alguns momentos foram muito especiais: a imersão na Aldeia Katu, por exemplo, me fez enxergar a força dos saberes ancestrais e a importância da educação como ferramenta de autonomia. Conhecer de perto o mel de jandaíra e entender o poder das abelhas nativas me mostrou que pequenas coisas podem mudar ecossistemas inteiros. Vi o trabalho do Instituto Navegar, que atua na limpeza e preservação do mangue do Rio Potengi com um olhar educativo, um impacto enorme que nasce da consciência. Me emocionei também com iniciativas baseadas no ODS 4, como o Cordel com Pipoca, que ensina cultura e poesia pras crianças de Mãe Luiza, e com o Projeto Arboriza da UFRN, focado na arborização urbana. Conheci o Balé da Ralé, que transforma a vida de crianças por meio do esporte e da arte. Um projeto que me tocou muito foi o Projeto Swell, que nasceu para transformar vidas através do surfe, da educação e da cidadania, trabalhando com crianças e adolescentes de Baía Formosa. Ver como o esporte pode mudar trajetórias e criar sonhos é inspirador demais. Também participei de mutirões de limpeza com o Onda Limpa RN, experiências que fazem a gente entender, na prática, o impacto de cuidar dos nossos espaços. Outro momento que ficou pra sempre na minha memória foi ver um peixe-boi marinho pela primeira vez na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Ponta do Tubarão, em Macau. Sem falar no Geoparque Seridó, reconhecido pela Unesco e que é um tesouro nosso, no quintal de casa. E não posso deixar de citar iniciativas como o Reciclamar, que transforma tampinhas em produtos, e o coletivo Manas na Rua, um coletivo vegano autogerido por mulheres. E todos os grupos de apoio a mães atípicas e pessoas com deficiência, pautas que são urgentes e muitas vezes invisibilizadas. Além de tudo isso, conheci empreendedores incríveis que aplicam práticas sustentáveis nos seus negócios de um jeito muito criativo.
AGORA RN – Na sua visão, qual é o papel do jornalismo na construção de uma consciência ambiental coletiva?
Mickaelly Fernandes – Mais do que informar o que está acontecendo no mundo, o jornalismo tem o poder de conectar as pessoas à realidade, e principalmente de mostrar que sustentabilidade não é uma responsabilidade distante. A consciência ambiental precisa nascer em todos os lugares: na casa das pessoas, nos pequenos hábitos diários; nas empresas, na forma como lidam com os recursos naturais; e nos órgãos públicos, que têm o dever de pensar políticas para o agora e para o futuro. Só que essa consciência só vira ação quando a informação chega de forma clara, acessível e verdadeira. O jornalismo tem esse poder de construir pontes, de fazer as pessoas enxergarem que não existe planeta B. E mais do que isso: de mostrar que as mudanças precisam acontecer aqui, agora, no coletivo. Porque preservar o meio ambiente não é só salvar a biodiversidade, é garantir qualidade de vida, dignidade e futuro para todo mundo. Comunicar é tornar visível. E quando o jornalismo traz luz para as boas práticas, denuncia os problemas e incentiva o debate, ele também educa. E educação é o primeiro passo para a transformação real. A sustentabilidade só vira realidade quando as pessoas se sentem parte da conversa.
AGORA RN – O Dia Mundial do Meio Ambiente é um convite à reflexão. Na sua opinião, o que ainda falta para essa data mobilizar mais ações concretas?
Mickaelly Fernandes – O dia é importante, sim, mas a verdade é que reflexão sozinha não resolve. A gente precisa dar o próximo passo: sair da consciência e ir para ação real. Porque o meio ambiente não pode esperar que, uma vez por ano, a gente poste frases bonitas nas redes sociais. É agora, todos os dias, que ele precisa de atenção. E quando a gente fala de meio ambiente, não está falando só de árvore e oceano. A gente está falando de gente. De justiça social. Quem sente primeiro e mais forte os impactos da crise climática são as pessoas que vivem nas periferias, nas áreas de vulnerabilidade, sem saneamento básico, sem acesso à água de qualidade. Sustentabilidade é também sobre garantir direitos, dignidade e equidade. Para realmente mobilizar ações concretas, a gente precisa pensar de forma sistêmica: envolver a sociedade, o setor privado e, principalmente, o poder público. Falta investimento sério em educação ambiental desde a infância. Falta gestão de resíduos eficiente em todos os municípios. Falta uma política ambiental que vá além do discurso e que envolva quem precisa ser ouvido. Preservar o meio ambiente é um ato político e um compromisso coletivo.
AGORA RN – Quais são os principais desafios ambientais hoje no RN que você gostaria de ver mais em pauta?
Mickaelly Fernandes – O Rio Grande do Norte tem uma riqueza ambiental imensa, mas também enfrenta desafios que a gente precisa conversar mais. Um deles é a Caatinga, nosso bioma, único no mundo, e que muitas vezes é invisibilizado. A Caatinga é cheia de biodiversidade, tem uma força enorme, mas sofre com o desmatamento e o uso inadequado do solo. É urgente valorizar e proteger esse bioma, não só por quem vive nele, mas por tudo que ele representa para o equilíbrio ambiental. Outro ponto que precisa de mais debate é o avanço dos complexos eólicos. A energia renovável é importante, claro, mas a gente precisa olhar com responsabilidade para o lado social e ambiental dessas instalações. Muitas vezes, comunidades inteiras, principalmente tradicionais e quilombolas, não são ouvidas nesses processos. Sustentabilidade também é diálogo, é garantir que a transição energética seja justa para todos. E tem o nosso mar, que também pede atenção. Pouca gente fala, mas os recifes de coral aqui no RN estão sofrendo com o branqueamento, um sinal claro de que o oceano está pedindo socorro. Proteger os corais é proteger a vida marinha, os meios de subsistência de muitas comunidades e o futuro da nossa própria costa. Seja em terra firme ou no mar, não existe futuro sem a preservação da nossa biodiversidade.
AGORA RN – Que mensagem você deixaria para quem quer começar a fazer a diferença pelo planeta?
Mickaelly Fernandes – Comece cuidando de você. Como dizem nas instruções de voo, primeiro você coloca a máscara em si, depois ajuda quem está do lado. Cuidar da mente, do corpo e do espírito é o primeiro passo para cuidar do mundo. Observe sua rotina. Veja o que você já faz de forma sustentável, mesmo que sem perceber. E se pergunte: o que eu posso melhorar? A transformação começa com informação. A gente luta pelo planeta quando entende o que está acontecendo e quando sabe que a cobrança precisa existir. Nossas escolhas moldam o futuro, não deixe que escolham por você. Antes de consumir, questione: que práticas sustentáveis essa empresa tem? Prefira o pequeno empreendedor, fortaleça o comércio local, apoie a agricultura familiar. Adapte às mudanças à sua realidade. E não se culpe por deslizes pequenos, esquecer a torneira aberta uma vez não é o que destrói o planeta. O problema maior está em sistemas de produção que, por exemplo, gastam milhares de litros de água para fabricar uma única peça de roupa. Entender isso faz a gente perceber que mudar vai além das atitudes individuais: precisa ser coletivo e estrutural também. Fazer a diferença não é sobre ser perfeito, é sobre começar e entender que cada escolha consciente é uma semente que a gente planta no futuro.
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