BUSCAR
BUSCAR
Saúde

Médico defende abordagem espiritual em tratamento de doenças mentais

Professor da UFRN, Francisco das Chagas Rodrigues sustenta que abordagem aliada à farmacologia pode reduzir ansiedade, depressão e dependência química
Redação
26/02/2026 | 05:22

A crescente incidência de transtornos mentais, sobretudo entre jovens, tem provocado debates sobre os limites da medicina tradicional e a necessidade de novas abordagens terapêuticas. Para o psiquiatra Francisco das Chagas Rodrigues, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a resposta pode estar na integração entre psiquiatria e espiritualidade. Em entrevista à TV AGORA RN quarta-feira, o médico defendeu que o avanço científico não deve excluir a dimensão espiritual da experiência humana — ao contrário, pode dialogar com ela.

Segundo Rodrigues, a formação médica tradicional é estruturada sob bases materialistas, centrada na biologia, na química cerebral e na farmacologia. Ele próprio trilhou esse caminho: graduado em Medicina e com pós-graduação em psicofarmacologia, construiu carreira voltada ao estudo dos neurotransmissores e dos mecanismos cerebrais envolvidos em transtornos como depressão, ansiedade e esquizofrenia. Com o tempo, porém, passou a questionar se a compreensão exclusivamente biológica seria suficiente para explicar a gênese do sofrimento psíquico.

Para Dr. Rodrigues, biologia não é suficiente para compreender sofrimento psíquico - Foto: José Aldenir/Agora RN
Para Dr. Rodrigues, biologia não é suficiente para compreender sofrimento psíquico - Foto: José Aldenir/Agora RN

“O foco sempre foi a matéria. Estudamos células, hormônios, circuitos neurais. Mas comecei a perceber que havia um pano de fundo espiritual influenciando o comportamento humano”, afirmou. Criado em família católica, o médico relata que sua trajetória pessoal o levou a refletir sobre o contraste entre o progresso material — marcado por tecnologia e competição — e a necessidade de evolução espiritual.

Para ele, a sociedade contemporânea estimula comportamentos centrados no ego, na disputa por poder e na acumulação de bens, o que pode desencadear sofrimento mental. “Se vivermos apenas sob a lógica material, acumulando desejos e disputas, isso repercute no nosso corpo e na nossa mente”, argumenta. Ele cita como exemplo a obesidade, associada ao excesso alimentar, e a dependência química, ligada à busca de prazer imediato, como expressões de desequilíbrios que transcendem o campo estritamente biológico.

Espiritualidade além da religião

Rodrigues faz questão de distinguir espiritualidade de religiosidade institucional. Para ele, a participação em igrejas pode ser benéfica, mas não é condição obrigatória para o desenvolvimento espiritual. “Espiritualidade é a sintonia com valores que promovem o bem-estar próprio sem prejudicar o próximo”, define.

Na visão do psiquiatra, princípios como empatia, compaixão e responsabilidade coletiva funcionam como fatores protetivos contra transtornos mentais. Ele recorre a ensinamentos cristãos, especialmente à máxima de “amar ao próximo como a si mesmo”, como síntese dessa proposta ética. Ainda assim, ressalta que tradições orientais, como o budismo, também oferecem perspectivas convergentes sobre equilíbrio e autocontrole.

O médico observa que, na prática clínica, muitos pacientes já recorrem à oração, à meditação ou à participação comunitária como formas de enfrentamento do sofrimento. Ignorar esse aspecto, segundo ele, pode significar perder uma ferramenta terapêutica relevante. “Não se trata de encaminhar o paciente para uma religião específica, mas de reconhecer e valorizar o recurso espiritual que ele já possui”, afirma.

Evidências e prática clínica

Ao defender a integração entre psiquiatria e espiritualidade, Rodrigues sustenta que a abordagem deve estar ancorada em evidências científicas. Ele menciona estudos internacionais que associam práticas como meditação, oração e cultivo de vínculos comunitários à redução de sintomas depressivos e ansiosos, além de impactos positivos na saúde cardiovascular.

No Brasil, segundo o professor, grupos de pesquisa vêm ampliando investigações sobre o tema. Congressos recentes da área de psiquiatria têm dedicado espaço crescente à discussão da espiritualidade como fator de proteção e apoio terapêutico. “A resistência era maior no passado. Hoje, com dados acumulados, essa barreira está diminuindo”, avalia.

Rodrigues enfatiza que a medicação continua sendo fundamental em muitos casos. “A psicofarmacologia é essencial para controlar alterações nos neurotransmissores. Mas ela não elimina a raiz do problema, que muitas vezes está ligada ao modo como a pessoa se relaciona consigo e com o mundo”, pondera. Para ele, o tratamento ideal combina farmacoterapia, psicoterapia e fortalecimento de valores espirituais.